Dão: uma região de vinhos com histórias apaixonantes

Arquitetura arrojada, gente apaixonada e apaixonante, cozinha criativa, paisagem austera, vinhos e vinhas feitos para a posteridade. Aqui, acima de tudo, trabalha-se. Mas também se celebra o vinho - e de portões abertos a quem vier por bem. Poderá o Dão ser o próximo grande destino português de enoturismo?

Teve os seus altos, os seus baixos, as suas crises de meia-idade. Entretanto, encontrou o seu caminho e nada voltou a ser como dantes. O Dão é a região demarcada de vinhos de mesa mais antiga do país, fundada em 1908, e ao longo deste século de história já passou por muito. Mas não perdeu a jovialidade. E a identidade, essa está cada vez mais firmada, em tintos elegantes e encorpados, brancos complexos e delicados, e o olhar dos produtores fixado no horizonte da longevidade.

Lígia Santos, da Caminhos Cruzados, não esconde o orgulho no seu Teixuga, recentemente eleito melhor branco da região na Feira do Vinho do Dão, em Nelas. «É um branco para esperar 10, 20 anos por nós», resume. «É o Dão numa garrafa.» Já Casimiro Gomes e Sónia Martins, enólogos e executivos da Lusovini (CEO e administradora), elevam consideravelmente a fasquia: «Estamos a plantar uma vinha para os próximos 100 anos», diz Casimiro Gomes, com um brilho nos olhos. «Estamos a falar de produzir tintos e brancos», acrescenta Sónia Martins, enfatizando a palavra «brancos», «para durarem 50 anos». A posteridade parece ser preocupação comum a cada um dos produtores aqui visitados.

Sabendo de antemão que a reportagem seria sempre incompleta, dada a dimensão que a Rota do Vinho do Dão atualmente comporta – 43 adegas em 10 municípios -, fechou-se o assunto em torno da cidade que se impõe como capital do Dão. Ou não fosse em Viseu que fica o ideal ponto de partida (ou de chegada) para quem se lança na exploração enoturística da região.

O Solar do Vinho do Dão, sede da Comissão Vitivinícola, funciona também como centro de visitantes, com balcão de informações e uma pequena garrafeira onde estão representados os produtores da região.

O enoturismo, por seu lado, começa agora a dar os primeiros passos firmes. Não há ainda a oferta estruturada de regiões como Douro e Alentejo. Mas o próprio cenário é diferente e com as suas peculiaridades – se nessas regiões a paisagem é generosa e praticamente vende turismo, no Dão ela pede atenção, pede que se olhe com olhos de ver, escondida que está entre manchas de pinhal, por detrás de muros, repartida na velha lógica de minifúndio, de pequenas extensões de vinha.

O Solar do Vinho do Dão, sede da Comissão Vitivinícola, funciona também como centro de visitantes, com balcão de informações e uma pequena garrafeira onde estão representados os produtores da região, tanto para prova como para venda ao público. Mas para quem preferir ir direto ao assunto – às quintas, entenda-se -, foi criada uma aplicação móvel da Rota dos Vinhos do Dão, com mapas e informação útil. Seja por que caminhos for, é hora de descobrir o Dão com olhos de ver.

Quintas para admirar

Caminhos Cruzados

Chegaram há relativamente pouco tempo. Contas feitas, a empresa leva cinco anos de vida, e a ligação da família ao negócio do vinho é igualmente recente. «Apelidamo-nos de “novo Dão”», afirma, sem pruridos, Lígia Santos, CEO da empresa e filha do fundador. E com o mesmo à-vontade assume-se uma «cristã-nova» na matéria, era advogada em Lisboa até ao momento em que o pai decidiu investir nas vinhas da família, então usadas apenas para vinho caseiro, e expandir a área plantada para os atuais 32 hectares. «O meu pai sempre acreditou no vinho do Dão, mesmo quando não estava em alta», esclarece.

O culminar do processo de criação da marca – a que chamaram Caminhos Cruzados, por não haver ninguém da área, «caminhos diferentes, gerações diferentes e ideias diferentes» que convergiram neste projeto – foi atingido agora, com a inauguração da adega, de arquitetura arrojada, que emerge das vinhas da Quinta da Teixuga.

O projeto, assinado pelo arquiteto Nuno Pinto Cardoso, inspira-se no logótipo da empresa, duas linhas que se cruzam, neste caso dois volumes de betão lado a lado que se encontram, formando um corredor que dá acesso às áreas públicas: de um lado, a receção, a loja e a sala de provas, espaços amplos marcados por largas janelas sobre a vinha e pelo contraste entre o betão e o uso de madeiras claras, «para criar um ambiente mais acolhedor, não ter aquele ar de laboratório»; do lado oposto, a área de trabalho, visível através de dois grandes óculos na parede, para espreitar o processo sem estorvar; em diante, as vinhas, que convidam ao passeio.

O culminar do processo de criação da marca Caminhos Cruzados foi atingido agora, com a inauguração da adega, de arquitetura arrojada, que emerge das vinhas da Quinta da Teixuga.

Em querendo (e reservando), essa visita campestre pode incluir piquenique, o cesto é deixado em local combinado (há um par de mesas de pedra, à sombra de um medronheiro, ideais para o efeito), e lá dentro há fruta da quinta, broa, queijo e fumeiro, compota e, claro, uma garrafa de vinho.

A enologia está por conta de Manuel Vieira (ex-Sogrape), Carlos Magalhães e da enóloga-residente Carla Rodrigues. Ao portfólio da casa – até há poucos meses composto apenas pelas marcas Terras de Santar, Terras de Nelas e o porta-estandarte Titular – foi recentemente acrescentado o topo de gama Teixuga, um monovarietal de encruzado com 19 meses de estágio, «um branco para esperar 10, 20 anos por nós», afiança Lígia. Em setembro foi eleito o melhor branco da região, no concurso da Feira do Vinho do Dão. «Ou não fosse o Manuel Vieira conhecido como o “sr. Encruzado”», brinca. Novos, sim, mas não novatos.

 

Conhecer o Vigneron

Quinta do Perdigão

Tudo tem uma explicação. A orientação da vinha, a forma como a videira é desfolhada, o ritmo a que os talhões são vindimados. Tudo detalhes que farão parte do quotidiano de qualquer quinta produtora de vinhos. A diferença é que raras são aquelas que se lembram de explicá-los aos visitantes. A diferença é ter alguém como José Perdigão ou Vanessa Chrystie, sua mulher, a acompanhar a visita. «Eu não sou proprietário, ninguém é proprietário de nada, sou um vigneron indépendent, um camponês.» O anfitrião apresenta-se, no seu jeito meio irónico mas cem por cento a sério.

José Perdigão é uma mente inquieta, um arquiteto que decidiu estudar também enologia e que vibra com as possibilidades que as suas experiências podem abrir. Quer se trate de um colheita tardia que fez a partir de uvas tintas, quer de outras experiências de maior fôlego, como os dois talhões onde plantou touriga nacional em pé franco – sem recurso aos porta-enxertos americanos, resistentes à filoxera, que estão na base de quase 100% da vinha portuguesa.

É uma espécie de provocação, perceber se a praga que dizimou as vinhas europeias há mais de 100 anos ainda é uma ameaça real. Por outro lado, é uma tentativa de recuperar património, «este é o perfil original da touriga nacional», afiança, enquanto dá a provar uvas de videiras de porta-enxerto e de pé-franco. (A diferença é notória: mais fruta madura nas primeiras, frescura e acidez nas segundas.) É este o tipo de pormenor que se aprende na vinha com José Perdigão. Mas a pedagogia não se esgota aí.

A adega é um espaço de trabalho, não foi pensada para o show-off – ainda que não lhe faltem pormenores de sensibilidade artística, como os capitéis esculpidos por Paulo Neves, os rótulos pintados por Vanessa, o rádio sempre sintonizado na Antena 2. Numa mesa de paletes à porta da adega, José Perdigão abre um grande livro que, em vez de páginas, tem pequenos frascos de vidro, meia centena, correspondentes a outros tantos aromas, as «cores primárias» da prova de vinhos, se quisermos: limão, cravinho, chocolate, fumo.

O jogo desperta o cérebro para entender tudo o que se pode encontrar num copo de vinho – e nisso, o anfitrião é exímio «mergulhador». Abre uma garrafa de tinto Alfrocheiro, e põe-no à prova. Perdigão acha mundos num copo de vinho e transmite toda uma poética ao momento de prova. «Cheira a quê? Ameixa preta, cereja, é evidente que tens notas de bosque. Cogumelos shiitake, quer dizer que este vinho acompanha bem cogumelos. Sentes depois notas de noz…» A viagem continua, à medida que o vinho evolui no copo.

Evolução é palavra-chave na Quinta do Perdigão, a par da virtude da paciência – o vinho mais novo que tem no mercado é um encruzado de 2015, e nos tintos o estágio mínimo anda nos quatro anos.

Evolução é palavra-chave na Quinta do Perdigão, a par da virtude da paciência – o vinho mais novo que tem no mercado é um encruzado de 2015, e nos tintos o estágio mínimo anda nos quatro anos. Vai a ver-se a parede de galardões e percebe-se o resultado. O desfile começa em 1999, «ganhámos melhor vinho do Dão no ano de estreia», conta José Perdigão. «Sorte de principiante!» Tudo tem explicação – e a sorte não terá nada que ver para o caso.

Quinta de Reis

Os vinhos não são coisa de agora. Há pelo menos quatro gerações que a quinta está na família de Jorge Reis, dedicada primeiro à produção a granel, mais tarde à venda de uvas para a adega cooperativa. Mas quando ele pegou na Quinta de Reis, foi praticamente um novo começo – para ele e para a quinta.

Jorge Reis fez carreira na medicina. Exerceu obstetrícia e ginecologia, foi diretor do hospital de Viseu e supervisionou a mudança para as atuais instalações. Em 2002, reformou-se, «estava cansado», diz. No entanto, não se retirou para uma vida de sossego e contemplação. Comprou a quinta aos primos, reconverteu a vinha e em 2004 fazia a sua primeira colheita. Ao cabo de um par de anos, decidiu cursar enologia na Escola Superior Agrária de Viseu. «Pensava eu que sabia alguma coisa sobre vinho», brinca.

Nos seus 15 hectares de vinha (4,5 na quinta, os restantes em parcelas nos arredores) produz maioritariamente uvas tintas, sendo que «a tendência é aumentar os brancos», diz Miguel Coelho, que acompanha o trabalho de vinha e de adega no dia-a-dia e partilha com Jorge Reis a enologia, sob consultoria da Vines & Wines. «A procura tem subido, em especial nos brancos, que têm grande potencial de envelhecimento», continua.

A produção anual ronda as 30 mil garrafas, mas tem por onde crescer, já que há um excedente de uvas que é vendido para fora.

A produção anual ronda as 30 mil garrafas, mas tem por onde crescer, já que há um excedente de uvas que é vendido para fora. «Faço o vinho que quero e para o qual tenho comprador», diz o médico. A referência principal é o Vinha de Reis, que inclui tintos e brancos colheita, reserva e monovarietais (touriga nacional e encruzado, respetivamente). Em anos excecionais – e 2017 pode bem vir a sê-lo – faz também o Wine Note, que até ao momento só teve três edições, a mais recente premiada este ano como melhor tinto do Dão, na Feira do Vinho do Dão.

De um pequeno talhão de merlot que tem junto à casa, produz ainda «uma curiosidade», um tinto de tiragem reduzida, 500 garrafas, a que chamou Homem Bom. «É uma homenagem ao meu tio, era ele o dono da quinta», conta. Tio esse que chegou a albergar refugiados durante a II Guerra Mundial nesta casa, a mesma onde a tia, professora, fez a primeira escola primária da aldeia. O edifício, construído em 1924, era uma ruína quando Jorge Reis comprou a quinta, «só se aproveitaram as paredes e as cubas de cimento».

As cubas estão no piso de baixo, onde funciona a adega. No de cima, além da residência do proprietário, há três quartos, de conforto simples, com espírito de dormir-em-casa-do-avô, acabados de abrir ao turismo de habitação. Hóspedes à parte, a Quinta de Reis tem sempre os portões abertos a visitantes, a quem não se costuma sequer cobrar pelo tour que termina em prova. Para grupos, já se impõe marcação (e um preço). Mas aí há outras possibilidades, nomeadamente, um passeio de charrete até São João de Lourosa. Tanto melhor se se tiver a sorte de contar com a companhia – e as histórias – de Jorge Reis.

 

Quintas de bem comer

Pedra Cancela

Da EN231, que liga Viseu a Nelas, percebe-se facilmente, pelas grandes letras de ferro que acompanham o muro de pedra, onde ficam as vinhas da Pedra Cancela. É aqui, nestes 15 hectares debruçados sobre a aldeia de Oliveira de Barreiros, que nascem os vinhos que a família Gouveia produz, em marca própria, desde 2000. Sim, da estrada facilmente se vê a quinta. De passagem, porém, não se nota aquilo que se esconde entre videiras. É preciso subir o caminho de terra batida e circundar os primeiros talhões de vinha para pôr os olhos no barracão de tijolo e cimento que Luís Belo e Ana Seia transformaram em ode à vinha. O mural, datado de maio deste ano, celebra a vida selvagem, o trabalho da vindima, a feitura do vinho, o momento de provar o produto final. O início, o fim e o recomeço.

A adega da Lusovini/Pedra Cancela fica à entrada de Nelas, na antiga sede da Adega Cooperativa, edifício dos anos 1960, restaurado e aberto em 2016, vocacionado para o enoturismo.

É preciso avançar mais uma dúzia de quilómetros, ao longo da EN231, para chegar a esse momento, o da prova – dos vinhos Pedra Cancela e dos restantes que compõem o portfólio da Lusovini, um grupo com presença forte na produção e na distribuição, no Dão mas também em Douro, Bairrada, Alentejo e Verdes, do qual João Paulo Gouveia, dono e enólogo da Pedra Cancela, é também acionista.

A adega da Lusovini/Pedra Cancela fica à entrada de Nelas, na antiga sede da Adega Cooperativa, edifício dos anos 1960, restaurado e aberto em 2016, vocacionado para o enoturismo. Com tempo, vale a pena fazer a visita à adega, percorrer o corredor de velhas cubas de cimento decorado com fotografias de vindimas de outros tempos, entrar nas tulhas onde a uva era depositada, agora um sítio quase mágico onde repousam os espumantes, admirar os alambiques da sala de provas. Porém, se se chega com o estômago a dar horas e o sentido nos vinhos da casa, à entrada é de virar para o lado oposto. Para a Taberna da Adega. A visita à adega, essa pode sempre fazer-se depois, uma possibilidade, diz a responsável de enoturismo Rita Serpa, «enquanto houver gente na taberna».

A sala do restaurante é ampla, luminosa, mobiliário moderno, ambiente convidativo – em particular, adivinha-se, nos dias frios, quando a grande lareira em forma de garrafa estiver em funcionamento. À mesa, manda uma cozinha petisqueira feita com criatividade e alguma atenção ao fogo de vista, à velha máxima de «os olhos também comem». Nos bastidores está Luís Almeida, chef e proprietário do Dux Palace (Viseu), com a cozinha, aberta para a sala, entregue ao jovem António Batista. O chef Batista está ainda a conhecer os cantos à casa, mas demonstra já o timbre que pretende imprimir à carta.

O espumante Pedra Cancela bruto é brindado com vieiras salteadas, creme de ervilhas e crocante de presunto. O polvo que o segue vem tenro, enrolado em fios de batata, e regado – literalmente, com um regador, aos olhos dos convivas – com azeite e alho. E uma das sobremesas, servida em copo para vinho, é gelado de mosto tinto Pedra Cancela, finalizado à mesa com uma calda de uva, canela, porto e geleia de maçã. Não são só os olhos que levam uma barrigada.

Quinta de Lemos

Mais do que um sonho, a Quinta de Lemos assenta na vontade. Celso de Lemos, beirão emigrado na Bélgica e empresário de sucesso no segmento dos têxteis de alta qualidade, decidiu, há coisa de 20 anos, produzir na sua terra vinhos de qualidade mundial para partilhar com os clientes e amigos. Comprou 5 hectares de terra, num punhado de anos o número subiu para 50, metade dos quais vinha. «É um apaixonado pelos vinhos da Borgonha, portanto só quis fazer vinhos dentro desse perfil, e todos tintos», conta o enólogo Hugo Chaves. Por concessão à sua mulher, fã dos brancos chardonnay, o proprietário lá assentiu na plantação de meio hectare de encruzado, que origina o raro Dona Paulette.

Celso de Lemos, beirão emigrado na Bélgica e empresário no segmento dos têxteis, decidiu, há 20 anos, produzir na sua terra vinhos de qualidade mundial para partilhar com os clientes e amigos.

O patamar de qualidade é o mesmo que Lemos exige para os seus têxteis. Daí que, a cada colheita, três quartos das uvas sejam deitadas fora na monda. «Abdicamos de produzir meio milhão de garrafas para fazer apenas 100 mil», diz Hugo Chaves. «O que ganhamos é vinhos mais ricos, mais densos, mais longevos.» Acrescente-se que nada chega ao mercado sem, pelo menos, quatro anos de estágio e adega.

Percebe-se, portanto, a tarefa que o chef Diogo Rocha tinha aos ombros quando, há coisa de três anos, Celso de Lemos quis ter um restaurante que refletisse a cultura de excelência da empresa. Sobre o trabalho do jovem chef no Mesa de Lemos, há muitos argumentos a favor, o mais expressivo de todos será, porventura, a quase unanimidade entre os fazedores de opinião de que a estrela Michelin já é mais do que merecida.

Diogo não esconde que a insígnia é um objetivo, mas não faz disso o motivo para se levantar todos os dias. Prefere antes focar-se na alta cozinha de matriz regional com que tem vindo a construir um nome de projeção nacional. E a não perder de vista a simplicidade, ponto focal do seu trabalho, muito concentrado no produto, em compreender a região onde está (porém sem se fechar ao resto do país) e, claro, na relação com os vinhos da casa.

Os pratos puxam sempre pelo protagonismo de um produto enquanto matéria-nobre, os restantes ingredientes trabalhados para fazê-lo brilhar. O desfile pode acontecer a três, cinco ou sete momentos, sendo que, de permeio, o chef gosta de mimar os clientes com snacks como um exímio pastel de massa tenra ou a sua revisitação da truta de escabeche. Os preços, esses partem dos 35 euros (acrescido de 15 euros de suplemento de vinhos), valor perfeitamente acessível para o voo em classe executiva que Diogo Rocha proporciona.

 

Dormir entre vinhas

Quinta do Medronheiro

Fica perto da cidade, nem a 10 minutos do limite urbano. E tem a A25 e o IP3 a cruzarem-se ali ao lado. No entanto, mal se deixa a Nacional 2, tomando a sinuosa estradinha por entre mata de pinhal que leva a Soutulho, tudo isso parece ficar muito mais longe. Quando se chega aos portões da quinta, cruzada a ponte sobre um ribeiro que corre entre fragas e vegetação, uma certeza: isto é campo, com tudo a que se tem direito. Um percurso de bosque até chegar ao edifício do hotel, pássaros nas árvores, o rumor do vento ou, de noite, um céu repleto de estrelas e todo o sossego que já se deixa adivinhar.

O hotel rural é a face mais visível da Quinta do Medronheiro. Nestes 37 hectares de terreno há espaço de sobra para a criação de gado de raça arouquesa, de porco bísaro, há cavalos, salão de eventos com capacidade para 250 pessoas (porém, afastado qb dos quartos) e, claro, produção de vinho. Nos três hectares de vinha que se estendem à vista da piscina (que não é senão convidativa, com espreguiçadeiras e pufes para ficar de olhos na paisagem) crescem uvas de touriga nacional, tinta roriz e jaen, que contribuem para o tinto Oloroso, a única referência da casa, tratado com mimos de filho único, incluindo um estágio de cinco anos antes de ver a luz do dia.

O hotel rural é a face mais visível da Quinta do Medronheiro. Nestes 37 hectares de terreno há espaço para a criação de gado de raça arouquesa, de porco bísaro, há cavalos, salão de eventos e, claro, produção de vinho.

Em breve, terá companhia: um espumante branco de uvas tintas, que para já é só servido nos eventos da casa, e um branco, que nascerá da nova vinha de meio hectare de encruzado. Por detrás do projeto vínico, um nome de peso: Hugo Chaves, enólogo da Quinta de Lemos, que aceitou o desafio de criar algo a que já está acostumado, «vinhos para o longo prazo, o imediato não é o objetivo».

De volta ao hotel. Ao invés de construírem um bloco moderno de betão, os proprietários optaram por arranjar as antigas casas dos caseiros e dos trabalhadores, as dependências para abrigo do gado, o velho lagar, tudo casinhas de granito, empoleiradas em blocos de rocha, recuperadas e mantidas com o ar de uma aldeia mimosa de montanha. Ao todo, o hotel conta 16 quartos, de camas confortáveis, paredes de pedra, comodidade moderna em contexto rústico.

Pesa depois o bar, com sofás e grandes vidraças para olhar o campo. E o restaurante, onde o conforto é servido sob a forma de cozinha regional cuidada – enchidos fritos, polvo à lagareiro, posta com arroz de feijão -, à qual o vinho da casa faz mais do que competente companhia. Enquanto as noites se mantiverem convidativas, é sempre um prazer terminar a garrafa num dos vários recantos a céu aberto que o hotel guarda. E, de caminho, pedir outra. E ir ficando.

Casa da Ínsua

Penalva do Castelo fica a 25 quilómetros de Viseu, já na sub-região Beira Alta. Entre os produtores locais, a Casa da Ínsua ocupa o lugar de honra, pois junta ao hotel de charme histórico (35 quartos, salões, restaurantes, loja e jardins à francesa e à inglesa) uma propriedade com museu, vinhas, rebanho de ovelhas bordaleiras, queijaria e toda a parte agrícola em plena atividade — além de vinho, produzem queijo da serra da Estrela DOP, azeite, e compotas.

Aos hóspedes desta casa de enoturismo é dada a oportunidade, entre outras atividades, de vindimar com direito a bucha a meio da manhã, almoço e pisa a pé.