Crónica de Carina Fonseca: bibliotecas públicas, esses palácios

Nuno Marçal na Bibliomóvel de Proença-a-Nova. (Fotografia de Orlando Almeida/GI)
Independentemente de onde venhamos ou de quanto dinheiro tenhamos no bolso, podemos levar para casa tesouros, autênticos portais para outras realidades, outros eus.

Há meia dúzia de anos, em reportagem para o “Jornal de Notícias”, pude testemunhar o trabalho que a Bibliomóvel de Proença-a-Nova desenvolve nas suas passagens regulares por aldeias tendencialmente isoladas, envelhecidas, despovoadas. Essa biblioteca móvel, uma carrinha que transporta livros e outros bens, nem todos palpáveis, é conduzida pelo bibliotecário Nuno Marçal. E com ele viajam mais do que palavras impressas em papel, para transmitir conhecimentos, sonhar outros mundos ou colher dicas para a vida prática.

Mesmo quem não saiba ler encontra naquele serviço da Biblioteca Municipal algo à sua medida – podem ser ideias para aplicar em panos e toalhas, saídas de revistas de bordados. Até hoje, está ali implícita uma missão social: a Bibliomóvel carrega livros e revistas, mas também um computador ligado à internet, um terminal de multibanco para carregar telemóveis, pagar contas e resolver outros assuntos, qual loja móvel do cidadão; e ainda oferece algo sem preço: uns dedos de conversa, um rosto familiar, companhia para afugentar a solidão.

As memórias desse dia recordam-me da importância que têm as bibliotecas públicas, onde há acesso livre a uma multiplicidade de saberes, experiências, modos de ver. O que mais me agrada nesses lugares, além das possibilidades ilimitadas e da iminência de descobrir um tesouro, é o seu cariz democrático. Ali, independentemente de onde venhamos ou de quanto dinheiro tenhamos no bolso, podemos levar para casa autênticos portais para outras realidades, outros eus. Aliás, como bem me alertaram, na obra Palaces for the people (algo como “Palácios para o povo”), o autor, Eric Klinenberg, defende que o futuro das sociedades democráticas passa por espaços comunitários, de encontro, como as bibliotecas.

Quando, já adulta e enredada na correria dos dias, retomei o contacto com essas minas de livros para consulta e empréstimo domiciliário, quase rejuvenesci. Uma biblioteca pública é tudo de bom, redoma silenciosa onde cada um pode aprofundar os seus interesses e tropeçar em felizes achados, gratuitamente.

Na Biblioteca Municipal de Coimbra, por exemplo, tenho tido várias alegrias. Desde desencantar títulos esgotados até ser a primeira leitora a saborear uma novidade. Gosto, igualmente, de comprovar que o exemplar à minha cabeceira já passeou por diversas moradas – numa das minhas requisições, vinha um papel com um hino religioso; mantive-o entre aquelas páginas, pronto a surpreender outros que talvez vejam nos livros uma salvação.




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