Crítica de vinhos Fernando Melo: os novos Quinta do Pôpa

O projecto Quinta do Pôpa, iniciado há cerca de dez anos, acaba de lançar as novas versões dos seus topos de gama, com três vinhos particularmente felizes. Para ver na fotogaleria, com apreciação do crítico Fernando Melo.

É impossível entender o Douro sem entrar no fenómeno das vinhas velhas. Quando o sistema radicular estabilizou já no afloramento granítico profundo e as cepas ganharam um estatuto de sabedoria. A partir daí, a expressão da casta que cada uma produz é de facto fruto do encontro de solo e clima, o que faz com que os vinhos criem só por si uma assinatura. Não há golpes de sorte nas vinhas velhas. Tudo alguém fez outrora com grande convicção e sobretudo para usofruto das gerações seguintes. E no Douro uma vinha velha nunca tem menos de 50 anos.

Os irmãos Vanessa e Stephane Ferreira têm uma das mais belas vistas do Douro, instalados na margem esquerda, na subregião do Cima Corgo, que é o território que fica entre a Régua e o Pinhão. O “Pôpa” era o bisavô e a quinta acontece por imperativos de homenagem e reconhecimento da sua descendência. A criação do espaço Feeling Grape, no centro do Porto, é a cereja no topo do bolo do muito que os manos já acrescentaram ao sonho mais selvagem do antepassado.

Intelectualmente orientados, estão a criar património fundador de um Douro vanguardista; do próximo Douro. Foram lançados agora três vinhos que se enquadram na “onda” criada. Um inesperado Tinta Roriz de 2012, com uma expressão da casta que vai muito para além da fruta confitada estrita que costumamos encontrar, um elegante Touriga Nacional também de 2012, onde damos com a casta que dispensa apresentações mas num invólucro elegante matizado que raramente sentimos no Douro. Completa o elenco o Vinhas Velhas 2013, proveniente de uma vinha com mais de 80 anos.

João Menezes tem sido bom intérprete da quinta, produzindo vinhos de bom talante, sobretudo expressão directa dos diferentes terroirs existentes. Quinta do Pôpa entra definitivamente para o patamar superior dos vinhos durienses, com muito ainda por onde desenvolver e crescer. A aposta na diferença está a mostrar-se adequada e a criar uma senda futura grande consistência.

Se tivéssemos de utilizar apenas uma palavra para os descrever escolheríamos frescura. Essa conjunção complexa de estrutura com acidez que torna ligeiros e equilibrados os vinhos de grau alcoólico apreciável e que lhes dá uma capacidade grande envelhecimento. Boas provas!

 

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