Cicerone tripeiro de Bourdain foi bem melhor que lisboetas

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Anthony Bourdain esteve no Porto para gravar «Parts Unknown», da CNN, que em Portugal é exibido no canal 24 Kitchen com o nome de «Viagem ao Desconhecido». (Fotografia: DR)
Ao correr da pena, algumas impressões sobre o documentário feito sobre a gastronomia do Porto, por que teremos de estar sempre gratos. Devia mobilizar-nos para fazer melhor e aproveitar para repensar os assuntos.

Dizer uma cidade ou um lugar sem ser injusto na ordem por que se põe os factos e as memórias é impossível. Além disso, é trabalho em vão, sempre as mais imediatas surgirão sem um encadeamento específico. Não está por isso catedral alguma no final de um caminho pelos sabores, pratos e tradições culinárias de Portugal, por melhor que sejam o guião e os atores. Já foi há algum tempo que passou o programa do divulgador norte-americano Anthony Bourdain sobre o Porto mas a resiliência das nuvens e redes sociais ainda nos permitem dar uma vista de olhos ao trabalho feito.

O primeiro comentário que me ocorre fazer é sobre o pouco que os portugueses conhecem das suas raízes, produtos e tradições. O programa alonga-se por 45 minutos e começa pela confissão de fascínio pela Invicta nutrido por Bourdain, dos tempos remotos em que José Meirelles foi seu patrão nos EUA. Estabelece um padrão no início que me assustou muito, e que foi o postulado bacoco de que em Portugal em geral está tudo na mesma e de que no Porto em particular nunca nada mudará. Passa-se logo no início por uma espécie de bullying de duas peixeiras que, esganiçadas, se metem com o protagonista.

Quando fez o programa sobre Lisboa, de resto, adotou estratégia semelhante, mostrando os locais como gente rústica que anda de carros de bois. O cicerone tripeiro foi bem melhor que os lisboetas, ficando lavradas frases atinadas e oportunas, como por exemplo de que o vinho do Porto vem do vale do Douro, ou de que Portugal fica entre Espanha e o oceano, pelo que era natural que se virasse para o mar. Bonita a parte da cascaria, até ouriços constaram. As petingas a fritar e a conversa solta-se para a história das tripas e sua importância histórica. Os portugueses são loucos por carne de porco e comem principalmente carne de porco. Teria talvez sido importante alguém ter-lhe dito que as tripas são de novilho, assim como a mão de vaca que faz as tripas ser à moda do Porto. Entretanto toca uma espécie de harmónio uma música que permanece na banda sonora alguns minutos e que português algum entoa sequer. Anthony Bourdain fala da maravilha que é para ele o vinho do Porto com o queijo da Serra, que o interlocutor não corrige para Serra da Estrela, afinal temos muitas serras e muitos queijos.

Mata-se a certa altura uma lampreia que se sangra e esfola como sempre se faz, mas é só quando chega a altura da matança do porco que Bourdain se mostra impressionado porque é o primeiro animal que vê morrer. E o pobre reco é mostrado a esvair-se em sangue num espetáculo pouco digno, quando nós aproveitamos sempre o sangue e vamos extraindo vísceras e partes para produzir os pratos típicos da matança. Ainda se dedica minutos valentes do programa ao cachorro, como sendo a sanduíche que os portugueses não dispensam e que tem de se comer à mão… A francesinha não é considerada sanduíche ali, talvez por se comer de faca e garfo, que pena não se ter falado da sua história com mais garbo, ou ter-se ido falar com quem sabe. E de repente termina, sem caldo verde, bacalhau, cabidela, nem polvo no ecrã, por segundos que fosse. Mostrou-se um certo Porto, vingaram os imperativos financeiros e de planeamento. E a ideia de que provavelmente, como dizia no princípio, não está na ponta da língua o que é importante dizer-se. E nós, saberemos produzir o filme certo?

 

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