Viajar às origens do vinho da talha alentejano

Herdade do Rocim. (Fotografia de Artur Machado/GI)
Ancestralidade, respeito pelas tradições, mas também muita inovação é o que se pode decobrir num passeio pela Cuba alentejana. O vinho da talha é o fio condutor de um roteiro elaborado pela Herdade do Rocim, que quer mostrar o melhor da região.

Uma das talhas da Adega do Mestre Daniel está assinada por Arteniz e remonta ao século XVII. As talhas, vasilhas de barro também conhecidas por ânforas, servem há milénios para produzir vinho. No município da Cuba, Baixo Alentejo, a tradição que vem dos romanos continua viva. Além de algumas adegas tradicionais se manterem abertas e a produzir, há novos projetos, que deram fôlego a esta arte ancestral.

Desde 2018 que a Herdade do Rocim apostou em transformar esta forma de produção, que também pratica, num evento internacional. Assim, por volta do Dia de São Martinho (este ano será a 11 de novembro), abre as suas talhas para dar a beber o vinho produzido esse ano. Além disso, convida numerosos produtores, nacionais e estrangeiros, para apresentar os seus vinhos. Em jeito de festival, celebra-se a talha e a cultura alentejana, com cante e petiscos locais.

Bruno Gomes, responsável pelo enoturismo da Herdade do Rocim. (Fotografias de Artur Machado/GI)

Na Herdade do Rocim, fazem-se visitas guiadas, provas, refeições e a oportunidade do visitante fazer o seu próprio vinho.

Bruno Gomes, responsável pelo enoturismo da Herdade do Rocim, explica que hoje o vinho da talha está em todo o lado: “há talhas no Algarve, nos Vinhos Verdes… uma série de produtores começaram a fazer isto e nós próprios estamos com um projeto na Madeira, com a Barbeito”, conta.

Antigamente, pequenos produtores que tinham parcelas de vinhas velhas, entregavam-nas à Adega Cooperativa (de Cuba, Vidigueira e Alvito) e a tradição de fazer vinho em ambiente doméstico começou a perder-se. Recuperar esta tradição é também valorizar as castas autóctones como o perrum, que só se encontra naquela região, o moreto ou a touriga franca. Com o Amphora Wine Day, acredita, houve “uma mudança de paradigma”. A produção, que tradicionalmente era caseira, passou a ser feita em maior quantidade e o vinho de talha a ser engarrafado para poder ser apreciado noutras paragens. Com o sucesso do evento, o Rocim, projeto do criativo e incansável enólogo Pedro Ribeiro, pensou em fazer ainda mais para preservar este método de produção, valorizando quem o faz. Nasceu assim o Amphora Wine Tour – The Vinho da Talha Experience, que propõe um roteiro pelo município para dar a conhecer sobretudo adegas, mas também restaurantes e alojamentos, todos imbuídos do espírito da talha.

Cante alentejano na Adega do Mestre André.

A Adega do Mestre André é produtora de vinhos da talha.

Uma das paragens obrigatórias é mesmo a Adega do Mestre André, na freguesia de Vila Alva, onde se produzem as referências do projeto XXVI Talhas. E 26 porque foi o número de talhas que o carpinteiro e fazedor de vinhos Daniel juntou ao longo da vida. No mesmo espaço, separado por uma parede, estava a oficina de carpintaria e a adega. Depois de morrer, nos anos 1980, a adega caiu em desuso, mas em 2018 foi recuperada pelos descendentes e hoje abre portas a toda a gente que quer conhecer a sua história.

“Agora já temos mais talhas, mas fizemos questão de só numerar as que já existiam, as novas não têm numeração”, explica Alda Parreira, neta do mestre, que embarcou nesta aventura com o irmão Daniel, o primo designer Samuel e o amigo de infância e enólogo Ricardo Santos, além do marido Luís Garcia. Até o ano passado, o casal, com o filho Pedro, morava na Amadora. O cansaço da cidade e a pandemia fizeram com que tomassem uma decisão: mudarem-se para a terra de origem. Ela conseguiu ficar em teletrabalho, ele abandonou a profissão de taxista para ser agora “o faz-tudo da adega”.

Alda Parreira e Luís Garcia, da Adega do Mestre André, com o filho Pedro.

Situada em Vila Alva, a adega foi recuperada em 2018.

“Quando começamos o projeto queríamos valorizar as vinhas antigas porque muitas das que não são irrigadas estavam a ser arrancadas para serem plantadas vinhas novas. Nós estávamos tristes por ver toda a nossa alma a desaparecer, pois a uva das vinhas mais antigas não era tão bem paga pela adega cooperativa”, conta.

Começaram, então, a comprar uvas dessas parcelas e a evolução tem sido positiva. “Havia vinha que estava abandonada e as pessoas, desde 2018, começaram a tratar outra vez, No início, achavam que éramos meio loucos, pois engarrafar vinho de talha em Vila Alva era uma coisa impensável, nunca se tinha visto. Mas agora já nos querem vender a uva”, refere.

Uma das vinhas mais antigas tem cerca de 50 anos e faz um dos vinhos mais apreciados pelos vizinhos, principalmente pelos que conheceram o mestre Daniel. “O vinho que sai da talha 10 é o que mais se assemelha ao do meu avô. É feito com as uvas da vinha dele, uma mistura de casta brancas”.

Com o projeto, foram adquirindo mais talhas, mas só uma é mesmo nova e tem parte de vidro, através do qual se pode ver o que acontece às uvas dentro da talha. As outras são talhas muito antigas, como aquela assinada por Arteniz no século XVII ou outra, provavelmente da mesma época, que tem gravado um coração trespassado por uma seta, coração circundado pelo que parecem duas serpentes. A talha está assinada por Soraio.

A adega está aberta a visitas e provas. O vinho é servido em copos de três dedos, à moda das tabernas antigas, e pode haver petiscada para acompanhar o dito e mesmo jantar, se reservado previamente.

“No dia de São Martinho vai à adega e prova o vinho”

Esta adega funciona todo o ano. O mesmo não se pode dizer de outras três adegas da freguesia, que abrem portas a partir de novembro, fechando quando o vinho acaba, normalmente, fevereiro. É no dia de São Martinho que se cumpre a tradição de abrir as talhas. “Nesse dia, 11 de novembro, há muita gente na rua, é a loucura”, explica Alda. Quem quiser conhecer as adegas com mais calma, poderá ir nas semanas seguintes. A tradição cumpre-se com o vinho, os petiscos que os clientes levam para as adegas e o cante alentejano. “Nós chamados essas adegas de ‘teimosos’. De certa forma, serviram-nos de inspiração”.

Quem também não quis perder a tradição foi Dulce Lopes, do Pedremoura – Turismo Rural, em Vila Ruiva. “Este é o Monte do Carrascal”, informa, enquanto cruza as vinhas de Antão Vaz, casta típica da região, que ligam a casa de turismo, composta por seis quartos, à adega. “No monte existia uma casinha lá em cima que era do meu sogro e dois casarões agrícolas. A casa onde agora estão os quartos foi feita de raiz”, conta.

O Pedremoura – Turismo Rural fica situado em Vila Ruiva.

A vista para a piscina exterior e as vinhas da Pedremoura.

Num dos casarões que agora é adega, os hóspedes podem provar o vinho e comer petiscos, que podem incluir os queijos Serpa DOP da Queijaria Pacheco (ver caixa). “O meu sogro já fazia vinho noutra adega; depois, eu e o meu marido decidimos fazer também, nestes últimos dois anos. No primeiro, produzimos dois brancos e dois tintos, mas este ano só fizemos uma talha. Mas isto funciona mais como brincadeira aqui para os nossos hóspedes”, refere Dulce. Como a quantidade é pouca, a talha cedo fica vazia, mas quem ficar ali hospedado a seguir ao São Martinho poderá apreciar o dito vinho.

A adega da Pedremoura.

Onde este nunca falta é mesmo na Herdade do Rocim. Aqui, não se produz apenas vinho de talha. Há muito para provar e ver. Numa visita guiada, pode conhecer-se a história da herdade, visitar a adega onde se encontram as talhas, provar vinhos e mesmo fazer o próprio vinho, na Experiência Vidigueira Master Blender. É possível também almoçar ou jantar na Herdade, uma refeição só com sabores tradicionais alentejanos, como as migas ou secretos de porco. E por estes dias, já se começa a pensar no São Martinho, o dia em que se vai à adega provar o vinho, como diz o ditado popular.

Algumas das referências do catálogo vínico da Herdade do Rocim.

As vinhas da Herdade do Rocim.

 

Queijaria Pacheco

Já centenária, esta queijaria de queijo de Serpa DOP, está há oito anos no município de Cuba. “Antes, estávamos em Santa Clara do Loreto, aldeia pequena ao pé de Beja, numa casa da família do sr. Pacheco, que já vinha dos avós dele; depois, o filho deu continuidade”, conta a cubense Filomena Soudo. O tal filho é seu marido e tudo se alinhou para que a queijaria se mudasse para o parque industrial da Cuba. Está aberta a visitas, em que se podem ficar a conhecer o queijo de ovelha tradicional. “Só fazemos queijos de ovelha de leite cru, não há mistura de leite nem de produtores de leite e 90 por cento do que produzimos é o queijo de Serpa DOP, um queijo amanteigado de pasta mole”, conta. É um dos quatro produtores deste DOP.

Alguns dos queijos produzidos pela Queijaria Pacheco.

Adega da Lua

É num ambiente muito tradicional e confortável que os apreciadores da tradicional cozinha alentejana se podem deliciar. Hugo David está à frente deste espaço, onde se servem pratos como cabeça de xara, porco preto com migas de poejo ou o famoso arroz de perdiz (só por encomenda), segundo receita do escritor cubense Fialho de Almeida (1857-1911).

Os responsáveis pela Adega da Lua.

Algo está a fazer com que o sistema não consiga mostrar a ficha ténica desejada. Pedimos desculpa pelo incómodo.




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