Roteiro pela arte e tradição da Terra Quente Transmontana

Terra Quente Transmontana (Fotografia de Pedro Granadeiro/GI)
Os produtos e as paisagens habitadas por orgulhosos transmontanos chamam para um roteiro em que se pode conhecer histórias de tradições e inovação e locais ainda escondidos.

Antes de abrir a loja de produtos tradicionais que hoje faz sucesso no centro de Mirandela, José Beça trabalhava como arquiteto. Tirou o curso no Porto e exerceu no Mogadouro e em Mirandela. Mas o gosto pela “identidade transmontana” fê-lo traçar outro caminho. Em 2018, inaugurou o MERCADO DO ZÉ, num local privilegiado, mesmo em frente ao Rio Tua e perto da ponte medieval da cidade.

Aqui, pode encontrar-se grande variedade de produtos, seja para comer – pães, alheiras, presuntos, queijos, azeites, mel, frutos secos – sejam utensílios para a casa e cozinha. José fez um levantamento dos artesãos de Trás-os-Montes para conseguir ter disponíveis os seus produtos. Grande parte do que está disponível são, então, utensílios que remetem para a região, como panelas de três pernas de ferro fundido, chávenas de esmalte, cutelaria de Palaçoulo, tapeçaria artesanal, cestaria, capas, samarras, casacos de burel e botas de pastor. Outra das grandes paixões de José é o vinho, o que se pode confirmar pela imensa garrafeira da loja, totalmente dedicada aos vinhos de Trás-os-Montes e Douro.

É ele também que faz a curadoria dos vinhos para a GALERIA DO MERCADO. Esta fica no Mercado Municipal, a apenas cinco minutos do Mercado do Zé. O projeto de Marta Miranda, com João Sá e Sérgio Figueiredo, nasceu pela vontade de dinamizar o mercado tradicional com algo “diferente”. Marta, professora e museóloga, começou a pensar na ideia durante a pandemia, com o objetivo de “dar visibilidade aos artistas e artesãos da região”, conta. Mas esta galeria não é apenas um espaço expositivo. É também uma loja de autor e tem servido para pôr artesãos, muitos deles com idade avançada, a criar novamente. Para expor, convidam artistas também da região. Atualmente, é possível ver as esculturas de Otávio Marrão, natural de Baçal (Bragança). Com alguma frequência há outras atividades, como workshops ou concertos. E sempre que há uma inauguração, é também apresentada uma marca de vinho, escolhida por José Beça, e que fica disponível na loja da galeria.

O lugar de Romeu
Mirandela não é só a cidade. À sua volta, há muito para fazer e conhecer, sempre com o produto regional e a tradição como fio condutor. No lugar de Romeu, o restaurante MARIA RITA é disso um exemplo. Parte de um projeto maior – a Quinta do Romeu – a história do estabelecimento remonta ao século XIX e vai buscar o nome à estalajadeira que abrigou Clemente Menéres, quando este lá chegou, vindo do Porto, em 1874. João Menéres, trineto de Clemente, conta que o trisavô, natural da Feira, começou por exportar “vinhos fortificados, azeite e cortiça. Alguém lhe disse que por ali havia muitos sobreiros e na altura veio à procura de cortiça”, diz.

Na verdade, existia uma grande mancha de sobreiros, mas não havia exploração comercial de cortiça. Clemente Menéres decidiu, então, comprar as terras de sobreiros e começar a extração, o que podia fazer três meses durante o ano. “Teve de arranjar outras formas de rentabilizar e ter trabalho para a população durante o ano inteiro.” Comprou vinha, replantou olival, tudo em mosaico entrelaçado, e em modo biológico, que ainda hoje se mantém. Por isso, da quinta sai o azeite Romeu e os vinhos, todos disponíveis no restaurante.

Este, tal como é hoje, data dos anos 1960. Foi quando o Manoel Menéres, filho de Clemente, restaurou a estalagem da Maria Rita, que deu abrigo e comida ao pai quando este pela primeira vez ali foi. O restaurante abriu em 1966, servindo as receitas da família. “A carta mantém-se inalterada desde essa época, com o receituário do meu bisavô”, conta João. Os pratos mais famosos da casa podem ser provados no Menu 7 Maravilhas (com que foi ao concurso As 7 Maravilhas à Mesa, em 2018, tendo sido um dos vencedores). Inclui os clássicos tostadinhos de alheira de Mirandela, o bacalhau à Romeu e a sopa seca, um cozido que vai ao forno, feito com carne de vaca e carne de fumeiro, várias hortaliças e pão.

Mesmo ao lado do restaurante está a MATA DO QUADRASSAL. Inserida na Quinta do Romeu, integra a Rede Natura 2000 e tem percursos sinalizados, para fazer a pé ou de bicicleta e por onde se passa na antiga fábrica das rolhas da família Menéres, desativada.

A Portugal NTN organiza caminhadas guiadas pela mata. O passeio dura seis horas e 45 minutos (a caminhada, duas horas e 45 minutos), inclui almoço no restaurante e visita ao Museu da Oliveira e do Azeite, em Mirandela.

Água na Terra Quente
A Terra Quente Transmontana inclui cinco municípios: além de Mirandela, Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Vila Flor e Macedo de Cavaleiros. É neste último que se encontra a ALBUFEIRA DO AZIBO, que integra a bacia hidrográfica do rio Sabor. Criada para fins agrícolas, a albufeira data do final da década de 1970. Desde 1999 que é Paisagem Protegida. Parte dela pode ser conhecida num passeio de barco movido a energia solar pela Sun Cruzeiro Azibo (que pode incluir provas de vinhos). Durante o passeio, passa-se pela Garganta do Diabo, uma composição rochosa de origem vulcânica, e também se podem observar várias aves aquáticas e outros animais. À volta da grande albufeira há também uma ciclovia, com quase 16 quilómetros e ainda mais cinco trilhos para percorrer a pé.

E se a Albufeira do Azibo é já bem conhecida e destino de férias e fins de semana de muita gente, o mesmo não se pode dizer dos LAGOS DO SABOR, a 50 quilómetros de distância. Os lagos nasceram aquando da construção da Barragem do Baixo Sabor, inaugurada em 2016. Veio mudar a paisagem, criando três lagos interligados. É aqui, em Cerejais, no concelho de Alfândega da Fé, que se encontram três barcos-casa onde se pode ficar. Integrados na QUINTA DO CORÇO, projeto de Sónia Cipriano e Ricardo Neto, os barcos foram desenhados pelo próprio Ricardo, engenheiro mecânico que tinha já vasta experiência náutica. Este hotel flutuante tem três casas, todas elas com quarto e sala com cozinha, e uma parede de vidro virada para a imensidão do lago e das encostas transmontanas.

FICAR NA RIBEIRA HOUSE
Naturais de Mirandela, Cristina Gomes e o marido Paulo Valbom desenharam o projeto da Ribeira House ainda em 2017. Adquiriram uma das casas que tinha das primeiras residenciais de Mirandela, a Duques de Bragança e depois a outra ao lado, um edifício de serviços públicos de água, tudo na Rua da República, a mais antiga da cidade. Esta rua tem uma construção muito característica porque foi desenhada pelo arquiteto mirandelense de destaque, Albino Mendo. Quando se passa a fachada de elementos industriais, há uma surpresa: um grande jardim, com piscina, estende-se nas traseiras, local ideal para “as pessoas desligarem, com conforto e algum requinte”, diz Cristina. O alojamento tem disponíveis programas à medida, como passeios de bicicleta, programas no rio ou caminhadas.

COMER NA FLOR DE SAL
Tradição e diversidade são as características deste restaurante que é uma autêntica varanda sobre o Tua e o centro histórico de Mirandela, no outro lado do rio. Inaugurado há duas décadas, soube renovar-se e, lado a lado com clássicos transmontanos, como a famosa posta, as alheiras e pratos de bacalhau, tem também sushi. Além de restaurante, tem um bar-lounge com diversidade de bebidas, incluindo cocktails e muitos snacks.

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