Comida Independente – Os pequenos e bons numa mercearia

Rita Santos é uma merceeira missionária: durante um ano e meio, andou pelo país inteiro a estabelecer contactos com pequenos produtores para trazer o melhor de Portugal para dentro da sua Comida Independente, em Lisboa. Escrevemos missionária? Podíamos ter escrito visionária.

Foram 22 anos a trabalhar em empresas multinacionais: Procter & Gamble, Vodafone e Microsoft. Mas um dia, fecha-se um ciclo. “Dás por ti a querer outra coisa”, explica Rita Santos. E se há quem largue tudo para viajar, cozinhar ou viver em retiro espiritual, esta alentejana de Santiago do Cacém optou por outra missão, igualmente nobre: partir em busca dos pequenos (grandes) produtores deste país, aqueles cujos excelentes produtos nem sempre chegam às grandes cidades, e trazê-los para uma mercearia lisboeta contemporânea, a sua Comida Independente.

Não foi uma epifania mas quase. “Estava com uns amigos no Alentejo, numa daquelas noites quentes, com o céu estrelado. Começámos a falar de património, identidade, origem. Tudo isto ligado à comida, porque é difícil estar no Alentejo e não falar de comida.” Dessa discussão nasceu a ideia. Mas o bichinho até já estava plantado, fruto de uma “infância muito ligada à mesa” e do hábito de “receber amigos e cozinhar”, reproduzindo as receitas da sua mãe.

A pesquisa demorou, até aqui, cerca de ano e meio. Ao mesmo tempo, o projeto foi evoluindo e o conceito foi-se consolidando. A Rita interessa-lhe que os produtos expressem “a riqueza da gastronomia de um país pequeno”. Que “tenham uma história”. Que exibam um “caráter de portugalidade”. Por isso é que não se pode dizer que o trabalho esteja feito. Longe disso. Esta será uma mercearia em constante construção. “Ainda temos algum espaço. Mas não o queremos preencher só porque sim”, adianta a responsável.

A Comida Independente é uma autêntica viagem pelo Portugal dos pequenos produtores. (fotografia: Tiago Pais)

Nos corredores, prateleiras, montras e zonas refrigeradas da Comida Independente estão reunidos quase uma centena de produtores diferentes, de todas as regiões nacionais, entre eles 25 DOPs e IGPs (selos de, respetivamente, Denominação de Origem Protegida e Indicação Geográfica Protegida). Enchidos, queijos, carne, leguminosas, pão, arroz, bacalhau, chá, café e mais, muito mais. Ou seja, é possível fazer um ou mais cabazes muitíssimo bem recheados, respeitando a sazonalidade e, se o freguês assim desejar, com direito a dicas sobre a melhor forma de os confecionar — a loja tem também uma seleção de livros de gastronomia para consulta.

E atenção: os vinhos não entram para esta contabilidade. Isto poque têm direito a uma área própria (e generosa) do espaço, onde se contabilizam cerca de 150 referências — 80% nacionais, 20% estrangeiras. Aqui, a regra da portugalidade foi quebrada, em prol de outra: dar a conhecer vinhos com perfis invulgares, também eles de pequenos produtores, e com uma filosofia natural associada. E que filosofia é essa? “São vinhos que expressam o seu terroir e que, quando usam leveduras, fazem-no com leveduras indígenas”, elucida Rita.

A loja fica entre Santos e o Cais do Sodré, num prédio renovado com projeto do arquiteto Carrilho da Graça. (fotografia: DR)

A garrafeira da casa — construída em colaboração com Os Goliardos — merece ser devidamente explorada, com a ajuda preciosa de Olavo Silva Rosa, ex-sommelier e cozinheiro do restaurante Leopold, de Tiago Feio. Todas as semanas há dois vinhos em destaque, possíveis de consumir a copo, e a taxa de rolha para os restantes é de apenas 4€. Para comer há tábuas de queijos e enchidos divididas por regiões, uma ideia inspirada nos famosos cozidos à portuguesa do chefe Nuno Diniz. “Queremos investir em equipamento de cozinha para poder começar a aceitar marcações de oito pessoas, que é a capacidade da nossa mesa”, revela Rita Santos. Ainda não será para já: por enquanto, eventos na Comida Independente só as provas de vinho mensais, sempre dedicadas a um conceito: a primeira debruçou-se sobre tintos velhos.

Com tantos bons produtos e boas ideias concentradas no mesmo espaço dá vontade de perguntar: Como é que isto ainda não tinha acontecido? Uma pergunta que, para Rita, é de resposta pronta: “Porque dá muito trabalho.”

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Mapa da ficha ténica
Morada
Rua do Cais do Tojo, 28 (Santos), Lisboa
Telefone
925404510
Horário
De terça a domingo, das 10h às 20h.
Custo
(€) Vinho a copo a 4€, tábuas de queijos e enchidos a 12€.


GPS
Latitude : 38.7082757
Longitude : -9.15192669999999

 

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