Porto: no Parque de Serralves há um roseiral antigo que viajou até 2022

Gerald Luckhurst e Ricardo Bravo, os arquitetos paisagistas que recuperaram o roseiral. (Fotografia de André Rolo/GI)
O projeto de renovação do espaço icónico dos jardins de Serralves terminou e a sua nova vida acaba de começar.

Quem comprar bilhete para visitar o Parque de Serralves tem agora mais um jardim para conhecer. Sem se poder dizer que é novo, o antigo roseiral teve ainda assim uma espécie de estreia, ao concluir-se um projeto de recuperação que durou quatro anos. Naquele espaço, que inclui uma pérgula, um “parterre” onde se concentra a maior parte dos canteiros e um octógono com uma fonte no centro, encontram-se 1862 roseiras de 29 variedades.

A reabilitação foi levada a cabo a partir de uma proposta do arquiteto paisagista inglês Gerald Luckhurst, que projeta e restaura jardins em Portugal desde 1985. No seu portfólio está o roseiral do jardim de Monserrate, em Sintra, e a recuperação e gestão do roseiral da Quinta do Arco, na Madeira. Gerald trabalhou com o paisagista da casa, Ricardo Bravo, e a equipa de 12 jardineiros que tão bem conhecem os 18 hectares do parque.

A vontade dessa equipa foi soberana quando se tratou de tomar decisões difíceis, como a de eliminar todas as roseiras antigas, fragilizadas, doentes ou inadaptadas de um jardim em decadência. Ficaram apenas duas dessas roseiras, que são enormes trepadeiras a florir sobre a pérgula – uma delas é da variedade Bela Portuguesa, criada em Lisboa nos anos 1920; outra da de Santa Teresinha, muito estimada na tradição portuguesa.

O renovado roseiral de Serralves (Fotografia de André Rolo/GI)

“Os jardineiros não nos deixaram arrancar essas”, brincou Gerald, que apresentou o roseiral recuperado à imprensa na semana passada. O trabalho passou por recuperar a estrutura original do roseiral, aproximando-a do desenho clássico dos jardins dos anos de 1930 e 40, mas à luz das práticas do Parque de Serralves, que se abstém de usar produtos fitossanitários. E os químicos, muito usados nessa época, era o que permitia preservar algumas das variedades de rosas então muito em voga.

O roseiral foi renovado com o traçado e as intenções de outrora, mas pronto para os desafios de hoje, com variedades mais resistentes a doenças, que foram também escolhidas pela cor, fragrância ou modo de crescimento. “O objetivo era fazer um roseiral duradouro, que enfrentasse o problema da mudança de clima, da sustentabilidade e do sequestro de carbono. O roseiral que vinha dos anos 30 e 40 chegou àquela idade de estar completamente exausto”, declarou Gerald Luckhurst. “Queríamos um roseiral com o sentimento dos anos 30 e 40 mas tecnicamente evoluído para o século XXI”, corroborou Ricardo Bravo.

Na primavera, quando as roseiras florirem, estará no seu auge – mas pode-se já ir conhecer este velho novo roseiral do Parque de Serralves.

Curiosidades:

#Da horta ao jardim
A estrutura atual do roseiral não consta nas plantas do arquiteto Jacques Gréber, que desenhou os jardins de Serralves a partir de 1932. Nessa época, o roseiral limitava-se a uma pérgula e a uma fonte circular provenientes da antiga Quinta de Lordelo – a propriedade que deu origem ao Parque de Serralves. Entre 1950 e 1980, o espaço expandiu-se ao patamar superior adjacente à Alameda dos Liquidâmbares, um traçado que se manteve até que obras de recuperação, entre 2000 e 2003, recuperaram a forma original deste jardim de roseiras, que foi registado pelo conhecido fotógrafo portuense Domingos Alvão.

Roseiral pela lente de Domingos Alvão.

#As antigas roseiras que resistiram
Na recuperação do roseiral foram eliminadas todas as velhas roseiras, menos duas: na pérgula, podem ver-se duas antigas e vigorosas roseiras com valor histórico. Uma delas é uma Bela Portuguesa, variedade criada nos anos 1920 no Jardim Botânico de Lisboa, tendo este espécime perto de 100 anos; a outra é uma roseira de Santa Teresinha, uma variedade tradicional e muito cultivada nos jardins portugueses.

#Mudanças que (quase) não se notam
As sebes de bucho, muito afetadas e suscetíveis a pragas, foram arrancadas e substituídas por murta. As estruturas de ferro que amparavam as trepadeiras exigiam restauro e a opção foi fazer outras, guardando as originais. Para um efeito anti-ervas, o solo dos canteiros foi coberto por “mulch” de cortiça granulada, que não atrai fungos como a casca de pinheiro, ao mesmo tempo que viabiliza o sequestro de carbono.

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