John Gallo: «Temos de ser reeducados para a fotografia»

Fotografia de Maria João Gala/GI
Tem 48 anos, é fotógrafo sócio-documental, e é o diretor artístico da 1ª edição do Fujifilm Festival Internacional de Fotografia (FIF) patente desde 5 de maio, em Viseu, cidade onde habita há ano e meio. Natural de Leiria, viveu seis anos no Reino Unido, onde foi galardoado, em 2015, com o “Joan Wakelin award” atribuído pelo jornal "The Guardian" e a Royal Photography Society.

Portugal é mais estimulante para um fotógrafo do que o Reino Unido?
Fui para o Reino Unido a idolatrar os britânicos, mas é um país menos seguro, demasiado focado na recompensa financeira, onde a riqueza é gigantesca, tal como a pobreza. Percebi os encantos do país onde nasci: é mais solidário, mais tolerante e, atualmente, mais estimulante porque está a olhar para o imaterial. O que aprendi a fazer no Reino Unido faz mais sentido ser capitalizado em Portugal. Mudei-me para Viseu por razões familiares e tive uma oportunidade de trabalho que aproveitei. Quero fazer ensaios fora de Portugal, mas o quartel-general é em Viseu.

Foi por essa vivência que se foca nas desigualdades socioeconómicas?
Sim. Choca-me profundamente a forma como os britânicos lidam com a pobreza e isso vai estar patente no FIF, no ensaio que fiz sobre as pessoas que pedem em Londres (“West London Tales”). Quem é apanhado a pedir é preso, a não ser que dê algo em troca à comunidade. Passam a ser artistas performativos, deixam de ter a condição de pobre, mas vivem com a mesma esmola que um pedinte português. É de uma hipocrisia revoltante.

Foi difícil convencer fotógrafos de referência mundial a exporem em Viseu?
Não. A marca Fujifilm ajudou. O orçamento é pequeno (52 mil euros) mas a ideia é criar um festival de referência anual. Vamos trazer exposições que já estiveram no MoMa, uma fotógrafa da Magnum, fotógrafos premiados pela UNESCO, vencedores do World Press Photo. Roger Tooth, ex-diretor de fotografia do Guardian, vai fazer um master class. O cartaz do FIF serve qualquer cidade do planeta.

O FIF tem como tema “Inspiring positive change”. O que espera que mude?
O FIF pretende arrancar as pessoas da sua zona de conforto , levá-las a olhar para as exposições de forma quase autocrítica. O Tomasz Lazar, que vem da Polónia, é o cabeça de cartaz e traz nove imagens, de pessoas a entrarem numa estação de comboio em Tókio, que ficam completamente amassadas contra a janela. Com este fluxo migratório para as grandes cidades pagamos um preço elevadíssimo. É isto qualidade de vida? Se quem nos visitar, se questionar, acho que cumprimos a nossa missão.

Viseu tem sensibilidade para a fotografia ou tem de ser educado?
Todos nós temos de ser reeducados para a fotografia. Com a revolução tecnológica e as redes sociais, a fotografia passou a ser uma forma de comunicação e não uma arte. O facto de comprarmos uma máquina fotográfica não faz de nós fotógrafos, tal como comprar um computador não faz de nós escritores. Nas escolas, somos ensinados a descodificar o que o poeta disse e não disse, mas não há o mesmo cuidado com a imagem. Não somos ensinados a ver.

Como é que se aprende?
Saramago dizia: ”Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Aprendi a ver, olhando à volta, tentando perceber para além do que é óbvio num edifício, na pobreza ou na riqueza, na forma como as pessoas se relacionam umas com as outras. Talvez o aprender a ver passe por trabalhar a partir do que não é óbvio.

O que há para ver no Fujifilm FIF Viseu
Treze exposições individuais, distribuídas pela cidade e uma coletiva “Piles of trash”, no Solar do Vinho do Dão. O FIF Viseu, entre 5 de maio e 4 de junho, inclui palestras, workshops, master class, cinema, uma residência internacional e um Istameet.



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