Vinhos do Algarve estão cada vez mais na moda

Em matéria de vinicultura há quem ainda teime na divisão medieval de Portugal e o Algarve, mas o facto é que, de ano para ano, a região mais a sul do continente está apostada em demonstrar que merece um voto de confiança. Até porque muitos dos seus vinhos já fazem um brilharete em provas cegas.

«A primeira barreira a vencer é a do preconceito dos portugueses em relação aos vinhos do Algarve. Uma vez quebrada, tudo fica mais fácil», começa por dizer Rui Virgínia, o homem que trocou a gestão e a agricultura de citrinos pelo desafio de fazer vinhos naquela que é, porventura, a região demarcada mais incompreendida do país. «O mito de que aqui se faziam vinhos muito alcoólicos, com demasiados taninos por conta da falta de amplitude térmica, é uma verdade. Tinham razão», admite Virgínia, que lançou as primeiras garrafas com o rótulo Barranco Longo 100% Algarve em 2003.

Desde então muita coisa mudou, embora a seu ver «ainda não se possa falar de um perfil de vinhos do Algarve», mas o facto de existirem atualmente 30 produtores certificados na região, 170 referências de vinhos igualmente certificadas anualmente e uma média de 40 a 50 vinhos algarvios premiados em concursos recentes (distinções quase sempre obtidas em prova cega, convém frisar) — números avançados por Carlos Gracias, presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA) — permite encarar o futuro de forma pragmática; por mais que não haja — até ver, pelo menos — volta a dar a certas questões: «Crescemos na qualidade, mas não na quantidade [nota do redator: a produção está estimada em um milhão de garrafas ao ano], daí que o preço seja elevado comparativamente a outras regiões, porque temos de levar em conta os custos de produção e da terra.

«O desafio é aumentar a produção, mas mantendo a qualidade», vaticina Gracias. Seja como for, e ele é o primeiro a frisá-lo, o mercado local é, e continuará a ser, a grande prioridade de quem produz no Algarve. Estima-se que do total aqui produzido, cerca de 85 por cento seja para consumo interno (com a restauração a levar quase tudo).

No caso do Barranco Longo, com uma produção de 120 mil garrafas ao ano, essa quota regional sobe para os 95 por cento e Virgínia não deseja outra coisa. A sua Quinta do Barranco Longo, adquirida em fevereiro de 2016, encontra-se pela marcha, estando previsto reservar 25 dos 70 hectares disponíveis ao cultivo de vinha (e dos 25, por sua vez, onze serão apenas de brancos) e a construção de uma adega panorâmica para receber quem vem de fora e mostra curiosidade em saber mais sobre estes vinhos.

A escolha do Barrocal, onde os solos são argilo-calcários por oposição aos arenosos da Lagoa, não se deveu ao acaso. Virgínia está convicto de que no interior algarvio, ao contrário da costa antes preferida pelos produtores locais, é possível conseguir vinhos com maior acidez e taninos mais equilibrados, porque, lá está, existe amplitude térmica. Claro que a questão das castas e da vindima — se no resto do país se joga cada vez mais na antecipação, aqui vai-se mais longe e a vindima não deve passar do início de agosto sob pena de se ter vinhos demasiado alcoólicos — são igualmente preponderantes.

Por mais que o rosé se mantenha o campeão de vendas da marca Barranco Longo (daí o lançamento, este ano, do Oaked, de perfil mais gastronómico, e do Blush, uma versão mais leve a pensar nos estrangeiros), Virgínia aposta em castas como a Touriga Nacional, o Syrah e o Alicante Bouschet (e o Chardonnay, o Arinto e o Viognier nos espumantes), deixando de lado a Negra Mole, uma casta local a par da Castelão, que no seu entender aguentava muito bem as condições extremas junto ao mar mas não garantia vinhos de qualidade.

Uma opinião diferente tem Gracias, assumindo que a par da missão «de dar a conhecer os vinhos do Algarve», a CVA se encontra bastante empenhada em «fazer da Negra Mole a bandeira da região». Confundida por alguns com a Tinta Negra da Madeira, que é geneticamente diferente, a Negra Mole já representou em tempos cerca de 80 por cento das vinhas no Algarve, alimentando a indústria de vinhos, mas agora existe a ameaça real de entrar em extinção: «Por ser uma casta difícil, ela é odiada pelos enólogos, que preferem trazer para aqui castas internacionais, mas o facto é que ela é das mais antigas do país, estando provado que em termos de coeficiente de antiguidade apresenta a maior variabilidade genética», esclarece. Vai, contudo, mais longe na sua defesa ao apresentar como argumentos válidos «o facto de já estar a ser trabalhada com bons resultados por alguns produtores, sendo até possível encontrar quem faça um branco de Negra Mole ou um vinho monocasta».

José Manuel Cabrita, cujo principal projeto de enoturismo se encontra em Sítio da Vale, Silves, é dos que resolveu dar uma oportunidade à Negra Mole. A par das visitas guiadas à sua adega, com um custo entre os 8,50 e os 20 euros por pessoa, José Cabrita produz brancos, rosés e tintos, espumantes e até um moscatel, mas arrendou novas vinhas onde a casta autóctone se encontra presente na esperança de lançar em breve no mercado o seu primeiro vinho monocasta Negra Mole. Ainda assim, a grande maioria não mostra grande entusiasmo em relação a uma casta tão específica que na mesma cepa pode ter cachos brancos e tintos.

Sir Cliff Richard pode até ter sido a primeira figura de vulto a apostar na produção de vinhos no Algarve — um capítulo que encerrou recentemente, estando a Adega do Cantor, juntamente com a Quinta do Miradouro, à venda pela quantia de 9,5 milhões de euros —, mas o alemão Karl Heinz Stock, proprietário da Quinta dos Vales-Wine Estate em Estômbar, chegou para vencer: «Quero fazer o melhor branco do Algarve».

Para isso adquiriu a vinícola em 2006, onde se fazia o cultivo de vinha desde a década de 1980, determinado a investir capital (a sua primeira área de negócios foi a banca) mas também a trazer outro tipo de inspirações e atrações — «vinhos com arte» é o seu lema.

Com efeito, a par dos 26 hectares de vinhas (um total de 15 castas, sendo metade só de brancos), o que chama imediatamente à atenção é a profusão de esculturas — de globos a elefantes ou ursos suspensos nas árvores — espalhadas pela propriedade. Muitas das obras, e do mobiliário, são de artistas convidados (inclusive nos rótulos), mas Stock é o autor das gordinhas Grace, imagem de marca que manda reproduzir em diferentes escalas e em materiais tão diversos como o cobre, a fibra de vidro ou a cerâmica.

Quase tudo está venda, mas tanto a Quinta dos Vales como a sua loja estão abertas, diariamente, das 9 às 19 horas, a visitas e a provas gratuitas (têm sempre cinco a seis vinhos à prova; mais do que isso terá de ser por marcação), uma aposta que lhes rende uma média anual de 12 mil visitantes e uma percentagem muito elevada de venda direta de vinho — estamos a falar de uma produção de 120 mil litros em 2015, ficando 70 por cento no Algarve, 25 por cento para exportação e os restantes cinco por cento para o mercado nacional (sobretudo Lisboa).

A consultoria do enólogo Paulo Laureano foi determinante para definir o perfil destes vinhos e a ordenação dos lotes — estando a sua influência bem presente em castas como o Antão Vaz, mas também na aposta no Alvarinho ou no Petit Verdot, originária de Bordéus, que se adaptou muito bem —, mas é cada vez mais a enóloga residente Marta Rosa que assume o comando. Com bons resultados, diga-se, pois a Marquês dos Vales, a principal marca da quinta com uma ampla gama de tintos, brancos e rosés, já arrecadou mais de 100 distinções nacionais e internacionais e mantém-se firme na intenção de não querer competir com vinhos que se vendam nos supermercados abaixo dos dois euros.

Não menos ambiciosa, embora num registo totalmente diferente, é a premissa do Convento do Paraíso, em Silves. Vasco Pereira Coutinho, um dos empresários mais bem-sucedidos de Portugal e proprietário da Quinta de Mata Mouros (uma das maiores no Algarve, com 120 hectares), tinha a ambição de «fazer um bom vinho que pudesse oferecer aos amigos» mas não pensou pequeno. Requisitou os serviços de Carlos Magalhães, reputado enólogo e académico, e deu início ao cultivo da vinha em 2000. Os vinhos saíram, mas nem o empresário nem o mercado se mostraram recetivos ao produto — tintos com bastantes taninos e demasiado complexos para um mercado local que aprecia sobretudo brancos e rosés.

Com praticamente toda a produção encalhada em estoque, Pereira Coutinho chegou à fala com os proprietários da Garrafeira Soares, o maior distribuidor de bebidas no Algarve, e também eles produtores de vinho na Herdade da Malhadinha Nova, em Albernoa, e conseguiu muito mais do que só um intermediário para escoar os seus vinhos — desde 2012, e sem nenhum contrato assinado, a família Soares assumiu o compromisso de fazer aqui bom vinho. O património continua a ser dos Pereira Coutinho (inclusive o investimento numa loja que se juntará a adega), mas a família Soares trouxe o saber-fazer, os meios e compra toda a produção da quinta, assumindo quer a produção como o marketing e a distribuição.

Uma das primeiras medidas foi adotar o nome Convento do Paraíso — para se desvincularam do produto anterior, embora a marca Mata Mouros possa ressurgir mais tarde quando tiverem um topo de gama — e exigir a plantação de castas brancas. «Era impensável não ter castas brancas no Algarve», adianta Rita Soares, que gere juntamente com o marido e o cunhado a empresa familiar. A escolha recaiu nas castas Vilarinho e Arinto, porque preservam a sua acidez por mais tempo (fator muito importante no Algarve, com noites mais quentes do que o desejável).

A questão da acidez está muito presente, havendo por isso a vontade de trabalhar mais a casta Sousão, oriunda do Minho, mas a sua imprevisibilidade obriga a uma certa precaução; garantidos, até ver, são os 12 hectares de vinhas com uma produção de 55 mil garrafas ao ano. No mercado encontram-se os rótulos Euphoria branco e rosé, o Convento do Paraíso tinto e o Imprevisto tinto (com o tempo, a ideia é que este vinho venha ser feito com uvas do Algarve, não necessariamente da propriedade), vinhos novos e frescos, mas que precisam de envelhecer na garrafa para ganharam uma maior suavidade na boca.

E assim vai o Algarve no capítulo dos vinhos. Sem contrariar a predileção natural do seu primeiro mercado, o algarvio, os vinhos desta região estão a conseguir provar que vão muito além dos «rosés de verão» e que possuem carácter para surpreender consumidores mais exigentes — e sem ser às cegas, já agora.



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