No Madam’s Logde, no Cais do Sodré, só entram hóspedes maiores de 16

O "Harem da Zu" é um dos quartos do Madam's Lodge. (Fotografia de Arlindo Camacho)
História e ousadia juntam-se no Madam’s Lodge, uma viagem pelos relatos da noite do Cais do Sodré, onde os marinheiros iam ao encontro das prostitutas. Um alojamento “livremente inspirado em factos reais”, aberto 60 anos depois de Salazar proibir a prostituição.

É comum a Madame estar ocupada com algum afazer quando os hóspedes chegam à receção do Madam’s Lodge, o novo alojamento da Rua Nova do Carvalho, que atravessa o Cais do Sodré. Um membro do staff apressa-se a oferecer uma “poção desinibidora” enquanto trata da burocracia e depois encaminha os hóspedes para o respetivo quarto, um dos 22 inspirados nas personagens que habitaram esta zona noturna de Lisboa. Assim começa esta “experiência imersiva”, inaugurada no verão.

“Há meia-dúzia de anos, quando estes bares e discotecas ainda funcionavam, havia pessoas que trabalhavam neles várias décadas e falavam destas personagens. Ouve-se falar muito na prostituição que acontecia no Cais do Sodré, mas a verdade é que há muito poucos registos do que terá sido a vida destas mulheres”, explica à “Evasões” Roger Mor, diretor criativo deste projeto hoteleiro do grupo Mainside – que gere a Pensão Amor no primeiro andar do edifício, que noutra vida foi mesmo um bordel.

A entrada foi pintada pelo artista Nuno Saraiva. (Fotografia de Arlindo Camacho)

Pormenor do quarto “Rita Engatadeira”. (Fotografia de Arlindo Camacho)

A base histórica para a criação do conceito surgiu durante a investigação para uma peça de teatro ambientada no dia em que Salazar proibiu a prostituição em 1963, há 60 anos. “Esta experiência imersiva livremente inspirada em factos reais acaba por ser uma valorização das histórias por trás destas mulheres”, considera, explicando que “muitos pormenores históricos, como o estatuto das meretrizes e as multas da época, estão disponíveis em bibliografia e em museus como o Museu da Medicina”.

Muitos dos objetos encontrados no edifício foram repostos nos quartos e corredores, sendo absorvidos por uma decoração baseada em mobílias de antiquário, papéis de parede vitorianos, tecidos luxuosos e fotografias antigas. Tal como na velha pensão, há um “quarto secreto” como os que eram ocupados por “loucos travestis, foragidas e mulheres excêntricas”; quartos que só as empregadas de confiança da meretriz podiam ocupar; e o quarto das gémeas, dotado de uma cama enorme com três lugares.

Há quartos com banheira, e um com sauna dentro. (Fotografia de Arlindo Camacho)

Pormenor do livro “Memórias da Mulata Fernanda”. (Fotografia de Arlindo Camacho)

Cruzando factos e fantastias livremente, o hotel musealizou ainda algumas gavetas com objetos do quotidiano do bordel; e incluiu em todos os quartos bolas de espelho e liras suspensas e varões, em alusão aos divertimentos sensuais que ali tinham lugar. Os hóspedes podem também encomendar cocktails, preservativos e brinquedos eróticos através de QR codes. A pedido, uma cesta de piquenique pode ser comodamente deixada à porta do quarto, de manhã.

“Há relatos de que este edifício terá sido mesmo de uma madame, que o herdou de um antigo amante. Muitas vezes eram elas que protegiam as mulheres, para que os proxenetas não abusassem delas como fonte de rendimento”, contextualiza Roger Mor. Antecipando as noitadas em que alguns hóspedes se podem deixar levar, até porque a Pensão Amor fica por baixo dos aposentos, o Madam’s Lodge esticou a hora do check-out até às 14h. Sempre ocupada, a Madame despede-se por mensagem.

 

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