Porto Covo: a magia do Alentejo com mar

Estradas abertas, paisagens selvagens e o oceano a servir de banda sonora. Chegar a Porto Covo é encontrar um abrigo feito da hospitalidade das gentes, das mesas cheias e dos dias de praia sem horas. Uma aldeia que é um mundo, para explorar de sentidos bem despertos.

Não há quem, escutando o nome de Porto Covo, não pense imediatamente na canção de Rui Veloso. No tal vizir de Odemira «que, por amor, se matou novo». Na Ilha do Pessegueiro, símbolo maior da aldeia que, afinal, tem tão mais para dar. É uma terra de contrastes, esta. De oceano a servir de cenário de um lado e a planície alentejana a estender-se, interminável, do outro. Uma terra que se fixa na gente com a doçura das paisagens, a sinceridade dos sorrisos e o orgulho imenso de quem recebe, todo o ano, aqueles que chegam para partilhar desta benção.

É o caso de Maria Santos, engenheira civil feita hoje anfitriã da Casa de Campo Cabeça da Cabra. A seis quilómetros de Porto Covo, o caminho faz-se por estradas estreitas ladeadas de campo que pedem para ser percorridas sem pressas – até porque por vezes há animais que cruzam a estrada e obrigam a parar, esperar e deixar que a natureza decida quando podemos seguir caminho. Chegando a Cabeça da Cabra, porém, não há como falhar: basta procurar a antiga escola primária, ainda com o nome bem visível nas paredes, onde agora se ensinam outras lições.

Maria é mestre na arte de bem receber e de fazer sentir em casa quem tem a sorte de chegar aqui. Maria e, claro, a Rosinha, a cadela que é um retrato perfeito da quietude alentejana e que, não havendo piscina, faz as delícias dos miúdos nas horas vagas. Esta é uma história com início marcado há quatro anos atrás, quando Maria, cansada de uma vida com jornadas de trabalho intermináveis, prometeu a si mesma que, um dia, teria um sítio onde receber hóspedes. Pouco tempo depois, um amigo contactou-a: o Estado ia leiloar escolas antigas. “Se encontrares uma no Alentejo, perto do mar, fico com ela”, respondeu. O amigo encontrou.

E, contra todas as probabilidades, Maria venceu mesmo o leilão que a tornou proprietária da antiga escola primária de Cabeça da Cabra. «Só duas semanas depois é que vi a escola pela primeira vez», recorda, rindo-se. Da antiga escola, ficaram todas as madeiras originais, o pavimento em tacos de eucalipto e o sistema de ventilação com grelhas que permite um arejamento natural dos quartos, nascidos no espaço das antigas salas. São quatro, no total, um número pequeno que permite receber cada hóspede como se fosse um amigo, sentar todos à mesma mesa no pequeno-almoço ou partilhar, com todo o tempo do mundo, dicas do que ver e fazer nos arredores.

O surf é uma delas: uma paixão que os hóspedes ensinaram a Maria que, desde há dois anos, fez da prancha amiga omnipresente. Com André Teixeira, da escola de surf Costazul, organiza surf retreats regulares na casa. Para quem quiser fazer apenas umas aulas, a escola também tem portas abertas o ano inteiro.

Velhas ainda são as marcas deixadas por elefantes antigos na praia do Malhão, visíveis num bloco de arenito na extremidade sul da praia. Mas é o mar, o que dele sai e a gente que nele encontra sustento, que definem, verdadeiramente, o caráter desta aldeia.

José Inácio, 86 anos, mais de 50 passados na cozinha, é um desses ícones da terra. Um dos poucos – talvez o último, como nos diz Maria Santos – que ainda cozinha como manda a tradição. É o nome dele que está sobre a porta do restaurante-pensão de que é proprietário, no centro de Porto Covo.

Gaba o peixe, o polvo vindo mesmo dali, do mar em frente aos nossos olhos, o marisco fresco da costa, a forma como tudo na cozinha é feito sem pressas e com ingredientes de verdade: “ainda ontem fiz uma sopa de tomate que nem lhe digo…” A reforma não parece estar nos planos do cozinheiro, que hoje divide com os filhos a tarefa de manter em funcionamento uma casa que tem tanto de boa mesa como de simplicidade – uma fórmula de sucesso, como se comprova pela ausência de mesas vazias quando nos sentamos para o derradeiro teste.

Um polvo que de tão tenro se desfaz, uma açorda gulosa de bacalhau, doses generosas que chegam para dois, sobretudo se antecipadas pelos muitos petiscos que a carta apresenta. Ora se a escolha é rica e a decisão difícil, já na Julinha a coisa passa-se de outra forma. Não é que não exista carta – que existe. Mas a ementa é secundária neste restaurante cujo nome oficial é, na verdade, O Amândio. Aos comandos da grelha, Julinha é a cara e a alma da casa localizada na Ribeira da Azenha, explicando o que há para grelhar nesse dia. Entre carne e peixe, a refeição vai chegando à mesa acompanhada de um sem-fim de propostas que vão variando, como batata cozida, batata frita caseira, salada, legumes, migas e até fruta.

Tudo isto regado por vinho alentejano, claro, boas azeitonas e bom pão, como manda a tradição a sul. Sem pretensões nem manias, a grande mesa corrida no caramanchão é o lugar mais cobiçado, onde as refeições se prolongam entre conversas, mais um jarrinho e, para quem conseguir, uma das sugestões doces no final. Felizmente, não é apenas à mesa que a costa alentejana é generosa e ideias para queimar as calorias extra não faltam.

Criada em 2013, a Rota Vicentina oferece uma das melhores formas de conhecer a região. No total, são 400 km assinalados para percorrer, divididos pelo Caminho Histórico, constituído maioritariamente por caminhos rurais, e pelo Trilho dos Pescadores, desenhado ao longo de falésias e fisicamente mais exigente. É em Porto Covo, precisamente, que estes trajetos se encontram, sendo por isso possível fazer tanto um como o outro – a escolha dependerá do nível de exigência física desejado e do meio de transporte, já que o Trilho dos Pescadores só pode ser percorrido a pé, enquanto o Caminho Histórico se adequa perfeitamente às duas rodas da BTT. No final, para premiar o esforço, uma boa opção será brindar-se com os respeitáveis petiscos do restaurante O Marquês, onde se serve aquela que dizem ser «a melhor cerveja da costa». Sem culpas nem pressas: afinal, é para isto que servem as férias.

 

DORMIR

Casa de Campo Cabeça da Cabra
Lugar da Cabeça da Cabra, Porto Covo
Tel.: 966295432
cabecadacabra.com
Standard suite (2 pessoas) desde 75 euros por noite (inclui pequeno-almoço)

FAZER

Visitas guiadas Ilha do Pessegueiro
Tel.: 965535683
Saídas diárias do Porto de Pesca de Porto Covo: 9h00, 11h00, 14h00 e 16h00.
10 euros/adulto; 5 euros/6-11

Rota Vicentina
pt.rotavicentina.com

Costazul Surf School
Rua Vasco da Gama, lote 48, Porto Covo
Tel.: 932665269
costazulsurf.com
Aulas diárias na praia da Vieirinha ou praia de São Torpes.
30 euros/aula (2 horas)

COMER

José Inácio
Rua Vasco da Gama, 38, Porto Covo
Tel.: 269959136
De quinta a terça, das 12h00 às 00h00
Preço médio: 15 euros

O Amândio
Ribeira da Azenha, Vila Nova de Milfontes
Tel.: 269905277
Todos os dias, das 12h30 às 15h00 e das 20h00 às 22h00
Preço médio 12,50 euros

O Marquês
Localizado no largo da aldeia, tem por especialidades o arroz de carabineiro, o arroz de lingueirão com choco frito, a feijoada de búzios e os mariscos da costa.
Largo Marquês de Pombal, 10, Porto Covo
Tel.: 269905036
Todos os dias, das 12h30 às 00h00 – cozinha encerra às 22h30 (horário de verão)
Preço médio: 20 euros

 



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