Visita ao Cemitério dos Prazeres, entre ciprestes e o maior jazigo privado da Europa

O jazigo da família Duque de Palmela é o maior mausoléu privado da Europa e pode ser visitado por dentro. (Fotografia de Leonardo Negrão/GI)
O imponente portão de ferro forjado com símbolos ligados à morte separa o bairro de Campo de Ourique de 12 hectares e 7 mil jazigos, cada qual com a sua história. Um mundo à parte, onde curiosamente o peso da ideia da morte dá lugar a paz, arte e natureza.

Gisela Monteiro inclina a cabeça para baixo e ativa a lanterna do telemóvel para iluminar o espaço escuro e um pouco húmido da cripta do Jazigo da Família Duque de Palmela. “É o maior jazigo privado da Europa, tendo capacidade para 200 corpos e restos mortais, e foi encomendado pelo primeiro duque de Palmela, Pedro de Sousa Holstein, ao arquitecto italiano Giuseppe Cinatti”, conta à “Evasões” a investigadora, membro da Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa, enquanto mostra os caixões no interior da cripta.

“Os caixões eram feitos para ser vistos, com madeiras nobres pirogravadas e muitas vezes com ferragens como elementos decorativos”, explica, ao apontar para um nicho da cripta de planta quadrangular. A ela só descem os corajosos e curiosos, sempre acompanhados por um guia das visitas ao Cemitério dos Prazeres. De volta à capela no piso térreo, a luz difusa permite ver melhor o cenotáfio em mármore (túmulo vazio) de Alexandre de Sousa Holstein, pai do primeiro duque de Palmela, desenhado pelo escultor neoclássico António Canova.

Entre as obras de arte notáveis estão também o baixo-relevo representando o quotidiano de um hospital, dos irmãos José e António Teixeira Lopes, no túmulo da terceira duquesa de Palmela; e uma figura feminina de Célestin Anatole Calmels. O exterior do jazigo, de 1849, é um templo em pirâmide, inspirado no revivalismo egípcio que influenciou as construções cemiteriais funerárias durante o século XIX, e tem um pórtico dórico com colunas, em frente ao qual se estende uma alameda de ciprestes onde os criados da família estão enterrados.

Este é o ponto alto da visita, porém, há muito a descobrir nos 12 hectares do Cemitério dos Prazeres, construído em 1833 para dar resposta à mortandade causada por uma epidemia de “cólera morbus”. O imperativo de saúde pública acabaria por antecipar também a lei que dois anos mais tarde obrigaria à criação de cemitérios públicos fora das malhas urbanas, onde até então os mortos eram enterrados, dentro das igrejas e em seu redor. Em França já se iniciara esse trabalho, tendo o cemitério de Père-Lachaise influenciado em muito Lisboa.

Gisela Monteiro, guia das visitas ao Cemitério dos Prazeres. (Fotografia de Leonardo Negrão/GI)

França influenciou também a estética da arquitetura funerária dos Prazeres, sobretudo com o jazigo-capela, a que os portugueses adicionaram prateleiras para colocar os caixões. Já a escabiosa, ou flor saudade, tornou-se um elemento exclusivo dos jazigos portugueses. Esta foi, aliás, uma das 42 flores de pedra inventariadas no cemitério, o que motivou a exposição visitável, gratuitamente, na capela. Além da simbologia, muitos visitantes são atraídos pela arquitetura, arte e tranquilidade do lugar, que inspira fotografias, passeios e horas de leitura.

Visitar o cemitério é como abrir uma janela para o passado, podendo estar-se próximo das figuras ilustres ali inumadas – Vasco Santana, Cesário Verde, Conde de Burnay, entre tantos outros -, considera Gisela Monteiro como tafófila, uma adoradora de cemitérios e sepulcros. O monumento aos Sapadores Bombeiros de Lisboa, com detalhes incrivelmente realistas em pedra de lioz, é outro dos pontos de interesse, assim como o miradouro sobre o vale de Alcântara. Um passeio de mãos dadas com o outro mundo, mas longe da ideia da morte.

 

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