Crítica de Fernando Melo: uma seleção de 10 vinhos vanguardistas

Todo o vinho é por definição um produto único e inteiramente novo. Quando lhe chegamos a luz do talento e a força do chão vinhateiro e lhe juntamos os muitos caprichos do clima, estamos de repente na estratosfera da criação vínica. Estamos na vanguarda, muito bem tratados e confortáveis. Como merecemos.

As palavras jamais serão suficientes para descrever corretamente a sensação de levar um vinho à boca e ver desenrolar todo um filme de aventura e ficção que nos transporta para outros terrenos, aliviando-nos da gravidade e da esfera do chão. Preferimos mostrar como isso pode acontecer através de dez grandes exemplos que alinhámos como seleção muito especial para si. O Douro marca presença forte, e damos-lhe a conhecer a novíssima estreia de Fernanda Zuccaro, mulher brasileira que se mudou de armas e bagagens para Portugal, com o seu primeiro Grande Reserva. Da já vezeira marca Duorum, bem conhecida de todos, sai um branco brilhante e genuíno, expressão direta de um microterroir a que ninguém fica indiferente. De uma vinha tradicional vemos surgir mais um branco notável que conta a história da família de Rodolfo Gomes, enfermeiro de profissão e vinhateiro por paixão. E surge o Íncola, vanguardista por definição e vocação. A Bairrada tem um novo produtor, sugestivamente chamado Beta, labor de dois jovens enólogos apostados em fazer diferente com os olhos postos na tradição. Do Dão revelamos dois vinhos notáveis, ambos com o talento dentro da grande enóloga Patrícia Santos, um rosé fascinante da Quinta da Alameda, e um Alfrocheiro maravilhoso da muito sua Rosa da Mata. Do Tejo temos um Syrah extraordinário, o mais recente da Quinta da Lagoalva. Da região de Lisboa, da Quinta do Monte d’Oiro onde vanguarda é palavra de ordem, selecionamos um vinho de entrada de gama notável e do Alentejo propomos a novidade Quinta do Paral, o primeiro Grande Reserva branco da casa. Muito para ler, saborear e discutir. Boas provas!

Zuccaro Grande Reserva
Douro tinto 2019 (15%) | Quinta Alta. 79,50 euros
Pontuação: 18,5

Vinha velha, altitudes entre 620 e 710 metros, onde já foram identificadas 16 castas, entre elas: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Rufete, Sousão e Touriga Brasileira. Pisa a pé em lagar. Fermentação maloláctica e estágio de 36 meses em barricas novas de carvalho francês. Resultado sublime de extrema elegância, bem ao gosto da produtora Fernanda Zuccaro, radicada em Portugal. O excelente entendimento profissional com o enólogo Francisco Montenegero tem-nos dado muitas alegrias e este vinho reflete-o como nenhum outro, mostrando um Douro muito especial, misto de força e elegância, que só se atinge quando há um conhecimento pleno da região e se detém forte arsenal técnico para imprimir personalidade.

Duorum Vinha dos Muros
Douro branco 2023 (13%) | Duorum. 20 euros
Pontuação: 17,5

Boa e grata surpresa, este primeiro vinho field blend do produtor João Portugal Ramos no Douro. Secundado pelo filho João Maria e pelo oficiante João Perry Vidal, tem testado e abordado com particular felicidade alguns microterroirs do grande vale vinhateiro. Uvas provenientes de uma parcela de Arinto e Gouveio a 400 metros de altitude confinada por muros antigos de xisto. Maceração pré-fermentativa de 12 horas a frio, seguindo-se prensagem suave. Fermentação alcoólica em inox. Um vinho simples, guloso, que dá muito prazer a beber e na harmonização com pratos da grande tradição nacional. No primeiro contacto mostra-se cítrico e logo se juntam impressões de vagens verdes e ervas aromáticas frescas como tomilho e poejo.

Preguiça
Douro branco 2022 (12,5%) | Casa António Fraga. 8 euros
Pontuação: 17

Vinha de cerca de 20 anos, solos xistosos na sub-região de Cima Corgo, castas Malvasia Fina, Malvasia Rei, Moscatel Galego Branco, Viosinho e Rabigato. Fermentação e estágio em inox. Uvas proprietárias e cuidadas como se de um jardim exótico se tratasse. Rodolfo Gomes trabalha na área da saúde e o pouco tempo livre que tem dedica-o à propriedade da sua família, no Cima Corgo. Apoia-se no enólogo José Pinheiro para as suas investidas vínicas, com particular sucesso, assente na lógica de field blend. É por isso mesmo que deve figurar nesta seleção vanguardista, o nível de qualidade e autoria é considerável e venerável. A complexidade aromática e a boa frescura que tem leva-me a sugeri-lo para um bom caril à moda de Goa.


Íncola
Douro tinto 2020 (13%) | Real Companhia Velha. 180 euros
Pontuação: 19

Nasce uma nova estrela no coração do Douro, pela mão do jovem Pedro Silva Reis, filho do atual proprietário da Real Companhia Velha, também ele chamado Pedro Silva Reis. Participa ativamente nas operações da empresa, estudou ao longo de alguns anos nos domínios da viticultura e enologia e a partir de certa altura com a ideia fixa de fazer um vinho que tivesse a sua assinatura criativa. Filho de peixe sabe nadar e ainda assim o Íncola – que quer dizer habitat – quebra com o fio tradicional da casa. O pai insistiu que o filho fizesse tudo o que quisesse para se sentir sempre na sua casa, o que justifica o nome e vai mais além. Taninos muito finos, estrutura urdida à maneira do ourives, uvas de três vinhas velhas, regalo de todos os sentidos.

Beta
Bairrada tinto 2020 (13%) | Beta Wines. 17 euros
Pontuação: 17,5

Composto por uvas das castas Baga (70%) e Syrah (30%). Lançar um novo vinho na Bairrada é sempre assumir a força da diferença e lançar uma nova marca é uma ousadia que não está ao alcance de todos. Igor Lima e Pedro Miguel fizeram-no e muito bem, o nome Beta bebe da gíria informática em que se chama versão beta a uma nova versão prestes a conhecer a luz do dia. São ambos jovens enólogos mas já correram o mundo trabalhando em novos lugares e fundaram a empresa para investir na Bairrada. Claro que tinha de ter por base a casta Baga, em que tudo, passado, presente e futuro se baseia, juntaram-lhe uvas de Syrah e o resultado é bastante promissor. Aromas de bagos de arbusto, fruta de caroço cozida e azeitona preta, boca equilibrada, requintada e elegante.

Torreão
Dão rosé 2023 (12,5%) | Quinta da Alameda. 22,50 euros
Pontuação: 18

A Quinta da Alameda revela-se telúrica neste momento de novos lançamentos, revelando um projeto de franca vanguarda. O proprietário Luís Abrantes é ele próprio adepto e cultor da inovação
e juntamente com a enóloga Patrícia Santos oferece à turma enófila uma notável gama de vinhos. Destaco aqui um deles por me parecer que podemos estar perante um vinho notável, independentemente da categoria em que normalmente se insere. É um estreme de Pinot Noir, a casta que nos faz sonhar com a Borgonha e que em Portugal é extremamente desafiante, e é um rosé muito estruturado e fresco. Personalidade, mão enológica muito firme, acidez notável e muito sabor, que afinal é desígnio primordial. Além de tudo isso, é vinho para guardar mais um par de anos.


Rosa da Mata
Dão tinto 2022 (13%) | Patrícia Santos. 30 euros
Pontuação: 17,5

Esta marca é da exclusiva responsabilidade da gigante enóloga Patrícia Santos, sendo o tinto feito a partir da sua muito amada casta Alfrocheiro. Deu há tempos a provar a notável produção em prova vertical, revelando grande consistência de abordagem à casta, enobrecendo-a. Caruma verde, trufa e flores, extração contida e acertada, para dar origem a vinhos cândidos, quase minimalistas, todos sem exceção expressão autêntica do ano vitivinícola por que respondem. Percorrer a vertical do mais novo para o mais antigo foi por isso viagem digna de filme romântico, cada provador respondendo de sua forma
ao incrível e exótico repto. Este vinho é o mais recente e mostra fruta muito disponível, notas de musgo e giesta no nariz, na boca fresco e mineral.

Lagoalva Grande Reserva Syrah
Tejo tinto 2020 (13%) | Quinta da Lagoalva. 30 euros
Pontuação*: 19

Estou sempre de atalaia, aguardando com alguma ansiedade um lançamento de um novo Syrah da Lagoalva. A história da casta na propriedade de Alpiarça é longa e começou por ser um teste de adaptação. Reservaram-lhe então uma zona de areia e plantaram a que seguramente foi a primeira vinha de Syrah do país. Hoje há outras leituras e a excelente viticultura praticada abriu novos rumos para a casta. Nas mãos de Pedro Pinhão, produziu a casa porventura o mais expressivo até hoje. Aromas patrimoniais da casta, como tapenade de azeitona preta, violetas e rama de tomate, sabores autênticos de ameixa preta cozida e trufa negra. Equilíbrio grande na boca, frescura a toda a prova, este Syrah é um hino e mostra bem como pode ser bem portuguesa.

Quinta do Monte d’Oiro
Lisboa branco 2023 (12,5%) | José Bento dos Santos. 11 euros
Pontuação: 17

Há vinhos assim, por que corremos o risco de passar sem nos determos o tempo necessário para lhe perceber todas as virtudes. Escolho este branco de entrada de gama da casa para firmar como vanguardista a abordagem única da enóloga Graça Gonçalves, que acarinha todos os seus vinhos com exemplar foco e concentração. Este branco foi produzido a partir das castas Viognier, Arinto e Marsanne, seleção rigorosa e aprumada de cachos. Vindima manual, por parcela individualizada. Esmagamento com prensagem direta. Fermentação em cubas de inox com controlo de temperatura (individual
por cuba). Estágio cinco meses em inox. O resultado é prodigioso, e é vinho para várias contendas à mesa, desde uma salada até um arroz de marisco.


Quinta do Paral Grande Reserva
Alentejo branco 2020 (13,5%) | Quinta do Paral 45 euros
Pontuação: 18

Aqui está um produtor relativamente novo no cenário do Baixo Alentejo e que desde a primeira hora se auto instituiu como caso de estudo. A batuta enológica de Luís Morgado Leão, enólogo e gestor experimentado, ressalta e resulta reforçada a cada novo título disponibilizado para o mercado. Este é o primeiro Grande Reserva branco da casa e a estreia é de truz. Antão Vaz e Arinto estão na sua composição, fermentação em balseiro de carvalho francês, onde estagiou ao longo de 14 meses sobre as borras, com batonnage periódica e delicada. Harmonizou de forma competente um maravilhoso ensopado de borrego e adorou o desafio das nortenhas tripas à moda do Porto. Faz inteira justiça à grande reputação da Vidigueira como terra de grandes brancos.




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