Crónica de Pedro Ivo Carvalho: pela boca morre o peixe. E o turista

(Fotografia de Reinaldo Rodrigues/GI)
A falta de mão de obra na hotelaria e na restauração ameaça fazer perigar em poucos anos aquela que tem sido uma das mais vistosas bandeiras do turismo de Portugal no Mundo.

Volta e meia, os agentes do turismo deitam-se no divã e abrem a alma. Turismo de massas versus turismo de nicho, turismo de experiências versus turismo ecológico, enfim, as variações conceptuais abundam e não obedecem necessariamente à lógica. Apenas ao princípio elementar de garantir uma oferta quando há uma procura. Neste capítulo, a pequenez territorial de Portugal não tem constituído um entrave à nossa diversidade de produtos. É realmente extraordinário que consigamos vender, quase com a mesma bondade, um destino de praia, de rio, gastronómico, cultural e de natureza num universo global onde há tanta oferta. A concorrência internacional é feroz (basta olhar para o que continua a ser feito aqui ao lado, em Espanha), mas ainda assim tem sido alcançado um equilíbrio sustentável entre o mar algarvio e o deslumbre paisagístico dos Açores, só para me socorrer de dois postais.

Meio caminho andado para o êxito desta missão está, naturalmente, na forma exímia como conquistamos os turistas pelo estômago. As maravilhas gastronómicas do nosso país só são verdadeiramente percecionadas de duas formas: ou quando passamos demasiado tempo fora a comer mal e parcamente; ou quando falamos com estrangeiros que nos visitam e constatam que andaram a vida toda a comer mal e parcamente. É, por isso, preocupante que o tremendo capital adquirido ao longo de décadas não se traduza numa estratégia formadora acutilante que garanta um retorno económico ainda mais expressivo no domínio da hotelaria e da restauração. Não chega agitarmos as bandeiras lustrosas dos restaurantes estrelados e dos chefs pop star. Esse mercado é necessário, mas não pode ser definidor.

A falta de mão de obra (qualificada e não apenas) ameaça fazer perigar, em poucos anos, o sucesso deste ramo do turismo. E sorte a nossa que os imigrantes que temos acolhido nos últimos anos têm ajudado a mitigar a debandada. Não é segredo para ninguém que, à parte a comida, é a forma como somos atendidos nos restaurantes que pesa na hora de decidirmos lá voltar. Urge, pois, mobilizar o país, os agentes do turismo e a academia para a necessidade de formarmos trabalhadores qualificados e devidamente remunerados que ajudem a manter vivo o slogan que diz que Portugal é um país onde se come bem. Já não se inventa nada. Tal como os peixes, também os turistas podem morrer pela boca.




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