Roteiro em Oleiros, pelos sabores de um outono beirão

Vilar dos Condes, Madeirã, Oleiros. (Fotografia de Gerardo Santos/GI)
O fim dos meses quentes pode esvaziar as praias fluviais circundantes, mas traz de volta os sabores de conforto e tradição à Beira Baixa. Do medronho que dá aguardente, ao azeite que atravessa gerações, ao marmelo e às vinhas autóctones recuperadas, sem esquecer o clássico cabrito estonado, há muitas razões para rumar a Oleiros, por estes dias.

A farta zona de pinhal em redor e a Serra do Moradal, que servem de cenário pelas vidraças da esplanada, merecem a devida contemplação de quem aqui se senta para comer, mas as atenções estão viradas para os dois fornos a lenha da ADEGA DOS APALACHES, na aldeia do Roqueiro, em Oleiros. Os mesmos que dão palco ao cabrito estonado, tradicional e popular prato do município e da gastronomia beirã. “Tem que sair do forno e ir logo para a mesa. As pessoas é que têm que esperar pelo cabrito, e não o contrário”, diz Conceição Rocha, que gere o restaurante com o irmão, Fernando. É natural da região e voltou às raízes, para regozijo dos fieis comensais que tornaram esta numa morada beirã obrigatória.

Todos os dias, acendem os fornos às oito da manhã e o cabrito começa a assar pelas dez, e durante três horas. A diferença para outros cabritos assados é que este não é esfolado, retirando-se apenas o pelo e mantendo a pele, crocante quando chega à mesa, pelas 13h. É assim há seis anos. A cozinheira, Fernanda Bártolo, está na cozinha desde o início. “O segredo está na qualidade do cabrito”, conta, adiantando que o tempera dois dias antes com alho, louro, manteiga, banha de porco, vinho, colorau e sal.

Fernanda Bártolo e Conceição Rocha, cozinheira e proprietária da Adega dos Apalaches. (Fotografias de Gerardo Santos/GI)

O cabrito estonado, feito em forno a lenha, é o pilar desta casa.

Nesta antiga casa de xisto recuperada, onde se ouve o fado a ecoar pelas salas (onde antes funcionavam espaços como palheiro e curral dos bois), os comensais chegam de todo o país. “Tornou-se num ponto de encontro entre família e amigos”, explica a dona. O cabrito estonado também se prova nas empadas, com recheio generoso, mas há mais para provar na carta, como o Brás de enchidos, moelas, frango do campo assado ou maranho (enchido local à base de arroz, cabra, enchidos e hortelã). Tigeladas e arroz doce adoçam o final da refeição, à qual se pode seguir com uma visita à zona de loja com produtos regionais, dos vinhos, aos azeites, licores e artesanato.

O restaurante beirão fica situado na aldeia do Roqueiro.

As doses generosas de uma casa beirã que se preze pedem uma caminhada na natureza. Para respirar ar puro, o caminho segue até ao Orvalho. Inseridos no Geopark Naturtejo, os PASSADIÇOS DO ORVALHO são uma das recentes atrações da zona, abertos ao público desde 2020, e que vão ligar à CASCATA DA FRAGA D´ÁGUA D´ALTA, a maior da Beira Baixa, com quinze metros de altura. No verão, há quem aqui venha para mergulhar e fazer frente ao calor. A cinco quilómetros dali, outro ex-líbris natural: o MIRADOURO DO CABEÇO DO MOSQUEIRO, situado no topo de um penedo a mais de 600 metros de altitude, e equipado para paragens mais longas, com zona de merendas e churrasco. As vistas panorâmicas são amplas e conseguem abranger pontos como as serras da Estrela, da Lousã e da Gardunha, ou o próprio rio Zêzere, que serpenteia os vales em redor.

Os recentes Passadiços do Orvalho e a Cascata da Fraga d’Água d’Alta.

As vistas panorâmicas do Miradouro do Cabeço do Mosqueiro.

Entre o olival e a vinha

O desporto sempre foi uma das paixões de João Marques, mas depois da licenciatura em Educação Física em Lisboa, decidiu voltar à terra onde nasceu. O grave incêndio que assolou a região em 2017 fê-lo repensar prioridades e encabeçar a CASA FERNANDES, que existe desde os anos 1940 e soma quatro gerações familiares na aldeia do Sobral. “É uma casa com muita história na região”, explica João. Já esteve envolvida nas áreas da agricultura, imobiliário ou floresta, mas hoje dedica-se só à produção de azeite.

Dos 30 hectares de olival não-intensivo, onde se aposta na azeitona-galega da Beira Baixa, surgem duas referências de azeite virgem extra, D’Elvira e Alfredo. “Só usamos a azeitona mais madura, que torna o azeite mais doce, mais suave, com notas de pinhão”, adianta o responsável. No lagar, onde ainda se apostam em processos tradicionais, podem fazer-se provas de olfato ou em pão e visitas pelas várias zonas de produção, da pesagem, moagem e esmaga da azeitona à prensa e decantação do azeite em cubas. Atualmente, conseguem chegar às 20 mil garrafas anuais de azeite, o mesmo que se encomenda na loja online e prova em restaurantes como o clássico lisboeta Solar dos Presuntos e a Casa das Enguias, no Montijo, por exemplo.

João Marques, um dos responsáveis pelos azeites Casa Fernandes.

A empresa familiar soma 30 hectares de olival, com azeitona-galega da Beira Baixa.

Na aldeia de Cardosa, também Sérgio Antunes e Tiodósio Domingues têm recuperado o legado da terra onde estão as suas origens e família. A dupla de amigos formou-se em Marketing e Design Informático, mas o chamamento da vinha falou mais alto. Por um bom motivo: revitalizar e dar palco à casta callum, que só existe neste concelho, depois de um trabalho de investigação e parceria junto de agricultores locais com vinhas centenárias, próximas das linhas de água. “Foi um desafio ambicioso, um projeto que não é só nosso, mas de todos, do concelho”, conta Tiodósio.

A primeira produção dos VINHOS CALLUM fez-se em 2016, mas o Cepa C’alua só chegou ao mercado este ano, com a colheita de 2020 deste monocasta branco. Um vinho fresco e frutado, com acidez equilibrada, “que se bebe bem como aperitivo ou a acompanhar um cabrito estonado”, diz o responsável. A adega, a única no município a comercializar vinhos desta casta local, vai ter uma sala de provas em breve e a loja online está quase a chegar.

A dupla que está a revitalizar a casta callum, característica do concelho de Oleiros.

Os primeiros vinhos da Adega Vinhos Callum, na aldeia de Cardosa.

Fazer um “detox da cidade”

É alfacinha de gema, mas sempre se habitou a passar as férias em Oleiros, de onde são naturais o pai e avô, ambos António. “Sempre gostei muito desta natureza, do ar puro, da franqueza das pessoas. Dá-me paz. A cidade grande não me diz nada”, explica Teresa Almeida, que criou em Vilar Cimeiro, às portas da Madeirã, o VILAR DOS CONDES. Este turismo rural, aberto há década e meia, deu novo fôlego à localidade, reerguendo das ruínas as antigas casas de xisto desta casa agrícola, que pertencia a uma família abastada. Pela propriedade, dorme-se entre oito casas de diferentes tipologias – as menores têm um quarto, as maiores têm duas suites e um quarto – e equipadas com zonas de sala e estar, lareira, cozinha e pátio ou varanda com vista para o pinhal que o rodeia.

O turismo rural Vilar dos Condes abriu há cerca de década e meia.

As casas ficam situadas em Vilar Cimeiro, às portas da Madeira, em Oleiros.

Cada casa foca-se numa cor e a decoração transversal a todas apela à ruralidade, entre loiças antigas, mobiliário recuperado em madeira e panos rendilhados. “Quando as pessoas entram, quero que se lembrem da casa dos seus avós. Aqui faz-se um detox da cidade e da tecnologia”, explica a dona, que não tem televisão nas casas, de propósito. É possível participar nas atividades rotineiras da casa, como a vindima, a apanha da azeitona, do marmelo ou do kiwi, e fazem-se jantares, sob encomenda prévia. A piscina exterior com espreguiçadeiras e caminhadas num trilho à beira do rio Zêzere são outras opções para ajudar a esquecer o frenesim citadino.

O alojamento está rodeado de natureza e sossego.

Teresa Almeida é a responsável pelo Vilar dos Condes.

Destilar o medronho

Em terra fértil em medronheiros, a aguardente deste fruto faz parte do quotidiano e identidade locais, e o seu negócio vai passando entre gerações. É o caso de Ana Mendes, responsável pela SERTÃ VELHA, situado no Estreito. O seu pai, António, iniciou a destilaria que ainda hoje funciona, na altura com formato comunitário. Com a chegada de Ana, começaram a comercializar também a sua própria aguardente de medronho, que chega dos 21 hectares de medronheiros – qualquer coisa como cinco mil árvores – que detêm. Por esta altura, já engarrafam mil garrafas ao ano. O processo de certificação com selo biológico está a caminho, mas até lá, pode comprar-se nas moradas física e digital da Garrafeira Nacional.

A destilaria da Sertã Velha, onde se produz a sua aguardente de medronho.

A Sertã Velha tem 21 hectares de medronheiros.

De volta do marmelo

Numa antiga casa de campo na Madeirã, que pertenceu em tempos aos seus sogros, FERNANDA LOPES descasca os marmelos, corta-os em pedaços e coloca-os numa panela em cima de lenha, num canto da cozinha. Levam água e açúcar, ficam ao lume durante vinte minutos, tritura-se tudo, deixa-se arrefecer e fica pronta a comer. “No ano passado, havia mais marmelos, mas estes também são bons”, diz a oleirense, que, volta e meia, abre esta casa para receber grupos de turistas, sendo ela a anfitriã de atividades como confeção de marmelada e refeições onde não falta o bacalhau assado e lascado com batata, ou o arroz de feijão com pataniscas do fiel amigo. O vinho caseiro do marido compõe o ramalhete à mesa. Curiosamente, numa região com tantos marmeleiros, ainda não se comercializa marmelada de Oleiros, mas quer-se mudar isso em breve.

Na Madeirã, Fernanda Lopes prepara marmelada numa antiga casa de lavradores.

Oleiros em fértil em marmeleiros.

Morada
Rua Nossa Senhora das Neves, Roqueiro, Oleiros
Telefone
934028365
Horário
Das 12h30 às 15h e das 19h30 às 22h. Almoço, de quinta a domingo. Jantar, ao sábado.


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Latitude : 39.3999
Longitude : -8.2245
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Morada
Estreito, Oleiros


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Morada
Cardosa, Oleiros
Telefone
965306520


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Morada
Largo da Igreja, 1, Sobral, Oleiros
Telefone
963081315


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Morada
Rua Cimeira, Vilar Cimeiro, Oleiros
Telefone
968632907


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