No Porto, há um cemitério subterrâneo “único no país” aberto a visitas

O local onde irmãos e benfeitores da Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto foram sepultados, entre 1749 e 1866. (Fotografia de Artur Machado/GI)
No percurso museológico de São Francisco do Porto, as riquezas não se esgotam na exuberância da talha dourada, nem nas muitas obras de arte. Gente de todas as idades visita, com entusiasmo, o Cemitério Catacumbal.

O percurso museológico inclui a Igreja do Antigo Convento de São Francisco, Monumento Nacional, com a sua imponente decoração em talha dourada; a Igreja dos Terceiros de São Francisco, a primeira de estilo neoclássico na cidade; e a Casa do Despacho, com traço do arquiteto Nicolau Nasoni e salas recheadas de arte sacra. Não faltam motivos de interesse em todo aquele património, administrado pela Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto. Mas, pela experiência da diretora do Museu, Analdina Rocha, o que mais curiosidade costuma gerar nos visitantes esconde-se debaixo do solo.

No piso subterrâneo da Casa do Despacho, construída no século XVIII, para acolher serviços da Ordem, fica o Cemitério Catacumbal, onde irmãos e benfeitores foram sepultados entre 1749 e 1866 – não mais daí em diante, face à proibição estatal dos enterramentos nas igrejas. É um lugar “único no país”, sublinha Analdina Rocha, enquanto nos conduz pelas galerias. Vemos um altar barroco e vamos caminhando sobre túmulos, porque, inicialmente, os enterramentos eram feitos no chão; os jazigos laterais são posteriores e deveram-se à falta de espaço. Também por isso o cemitério foi sendo ampliado, por fases.

O ossário é um dos pontos mais impactantes da visita.
(Fotografia de Artur Machado/GI)

“As pessoas adoram este sítio”, conta a mesma responsável, que já leva muitos anos a trabalhar ali. Esse entusiasmo transparece tanto no público escolar como em turistas de diversas nacionalidades, observa, naquela atmosfera marcada por pretos e brancos, com representações de caveiras e pinhas (símbolo de distinção), onde outrora houve cerimónias fúnebres à luz das velas. Entretanto, chegamos ao ossário, que oferece a visão mais impactante, por uma abertura com proteção transparente: ossos e mais ossos, incluindo crânios, surgem depositados sob os nossos pés.

No trajeto de volta à superfície, Analdina partilha ainda outras curiosidades, como os números dos jazigos que receberam vítimas do desastre da Ponte das Barcas, em 1809, aquando das invasões francesas, no Douro. Chama também a atenção para algumas peças expostas, como velhas caixas de esmolas em géneros (uma destinava-se à recolha de “azeite para Nossa Senhora da Conceição”); ou andores que eram usados nas procissões da Quarta-feira de Cinzas e parecem lembrar: “O corpo é efémero, o que persiste é a alma”.

Os andores que eram usados nas procissões da Quarta-feira de Cinzas.
(Fotografia de Artur Machado/GI)

Noutros tempos, houve ali cerimónias fúnebres à luz das velas.
(Fotografia de Artur Machado/GI)



Museu de São Francisco do Porto
Rua do Infante D. Henrique, Porto
Tel.: 222 062 100
Das 9h às 20h. Não encerra (exceto no dia 25 de dezembro)




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