Maxime: o mais antigo cabaret de Lisboa quer saber os segredos do público

A personagem Vanity Redfire faz parte do elenco fixo do cabaret Maxime. (Fotografia: DR)
Desde janeiro a receber espetáculos temáticos mensais, o hotel e restaurante Maxime, na Praça da Alegria, em Lisboa, tem em cena a produção “Secrets”, durante o mês de maio. O jantar-espetáculo desafia o público a partilhar os seus segredos, lembrando os tempos em que o Maxime, fundado há 75 anos, era um local frequentado pelas elites artísticas, culturais e políticas do país.

Lugar de encontro entre artistas, políticos e outras figuras de relevo da sociedade portuguesa, o cabaret Maxime – tido como o mais antigo em funcionamento na cidade de Lisboa – sempre ouviu e guardou muitos segredos. Aberto pouco depois da II Guerra Mundial, em 1949 – no rescaldo do Club Maxim’s inaugurado na época de ostentação e consumo dos “loucos anos 20” – o Maxime rapidamente se tornou “um lugar proibido” e de “tráfico de informação” entre espiões, inclusive mulheres, ainda que as guerras tivessem acabado, conta Lúcia Marques.

A diretora do Maxime, hotel e restaurante aberto em 2018 pelo Real Hotels Group, conta esta história com entusiasmo, ou não tivesse contribuído também com ideias para a programação temática do mês de maio. “Aqui segredava-se segredos políticos e acerca do que se passava socialmente, na altura. Apesar de termos mais histórias e não tanto registos, desde que o hotel foi construído, quisemos preservar esse legado histórico que nos diferencia dos demais”. Assim chegou a equipa ao tema dos segredos, cujas próximas apresentações são dias 17, 24 e 31 de maio.

(Fotografia: DR)

A ideia é que o público “alinhe num espírito que remonta à génese do Maxime enquanto lugar de experiências insólitas, que sempre foi”. “A liberdade e a extravagância eram tolerados entre estas paredes, e mesmo depois, durante o Estado Novo. Tudo isso permitia que se fizessem aqui negócios fora-de-horas e que figuras públicas da altura, que eram alvo de diferentes tipos de escrutínio, pudessem desapertar o colarinho”, diz ainda. “Queremos provocar as pessoas a ousarem, a permitirem-se ser quem são sem o receio de serem julgadas”, conclui a diretora.

À Evasões, Jaya Girão – criadora, produtora, curadora e artista destes espetáculos produzidos pela Voix de Ville – explica em que circunstâncias os clientes são convidados a revelar os seus segredos, e como eles passam a fazer parte do espetáculo. “Durante o espetáculo as pessoas são convidadas a contar o seu segredo em bilhetes deixados na mesa, segredos esses que são revelados e que despoletam momentos de pura improvisação por parte dos artistas, que interagem com as ideias que o público escreveu usando-as como ponto de partida para criar”.

(Fotografia: DR)

Além dos espetáculos “Secrets”, todos às sextas-feiras a partir das 20h30 (jantar com bebidas incluídas, desde 48 euros/pessoa), o palco do Maxime recebe o próximo “Amusing Bouche” dia 25 (com Vanity Redfire, Paty Lime e Mizz Kat Tigerfell) e o próximo “Maxime Cabaret Show” dia 18, a partir de 75 euros/pessoa (com Vanity Redfire, Francisco Mousinho, Manu de la Roche e Rachel Sapphire). Já as noites de Maxime Comedy Club, com o microfone aberto a talentos de stand-up, acontecem uma a duas vezes por mês, normalmente sempre às quintas-feiras.

À exeção dos “Amusing Bouche”, em que os clientes escolhem os pratos à carta, todos os outros jantares-espetáculo incluem menu fechado, com bebidas incluídas selecionadas (água mineral, água com gás, refrigerantes, imperial, vinho tinto, branco e rosé, chá e café). Por cima do bar e restaurante, que nos restantes dias funciona à carta e tem também cocktails de autor, existem 75 quartos, cinco deles temáticos, com áreas maiores, inspirados no burlesco, bondage, quarto de vestir, bar e palco. “O que acontece no Maxime, fica no maxime”, promete o eterno cabaret.


Leia, abaixo, a entrevista da Evasões à produtora do Voix de Villa, Jaya Girão.

Como foi o processo criativo de elaboração destes espetáculos temáticos até chegarem ao tema dos segredos?
Este desafio de criar temas mensais para os espetáculos – uma novidade que foi introduzida pelo hotel no início deste ano – tem sido estimulante. O tema foi-nos sugerido pela equipa do hotel, que identificou o segredo como parte do imaginário do Maxime e da sua história. Afinal, o Maxime era um espaço frequentado por artistas e pessoas da alta sociedade. Tinha um espírito marginal. Era uma espécie de oásis onde se podia ser livre, e falar do que se queria; porque, com o “barulho das luzes”, o que não era bem visto pelos “bons costumes”, aqui, era tolerado, passava despercebido. Começámos, então, a pensar o “segredo”, em conjunto, e em ideias de como isto poderia ganhar vida no palco. Os segredos são algo íntimo, e cada um de nós tem os seus. Como tal, pensámos logo que seria interessante criarmos um momento de interação ousado com o público, e torná-lo peça-chave do espetáculo. Quisemos, portanto, integrar as pessoas que venham assistir neste conceito que desenvolvemos. O “picante” desta proposta vem, precisamente, da cabeça e do coração de cada uma delas, das suas confissões em bilhetes onde a plateia escreve os seus segredos e que nos são entregues em sigilo para, depois, os artistas os lerem em palco sem nunca revelar a identidade de quem os nos confiou.

Como está estruturado o espetáculo e de que forma ele reflete, concretamente, o tema?
O espetáculo – como não podia deixar de ser – é um cabaret “à la Voix de Ville” pensado para o Maxime, ou seja, um espetáculo de variedades ousado e cheio de momentos de dança, canto e outras artes performativas ( circo, drag, boylesque, etc) condimentado com doses generosas de sedução. Para que os convidados possam usufruir da refeição que o hotel oferece em conjunto com esta experiência, dividimo-lo em 3 momentos, que são interpretados por 3 artistas diferentes, e intervalados de modo a que o serviço do restaurante aconteça sem interromper o show. Durante o espetáculo as pessoas são convidadas a contar o seu segredo em bilhetes deixados na mesa, segredos esses que são revelados e que despoletam momentos de pura improvisação por parte dos artistas, que interagem com as ideias que o público escreveu usando-as como ponto de partida para criar, no momento, uma performance em torno dessa ideia. Esta dinâmica torna cada espetáculo único, e é algo que torna estes “Secrets” imperdíveis.

(Fotografia: DR)

Como é responder ao desafio de criar sempre apresentações diferentes?
Esta nova “receita” de cunhar com um tema novo os espetáculos de cada mês entusiasmou-nos. É uma lufada de ar fresco saber que há uma preocupação genuína por parte do Maxime em ter este carinho para com o seu público e a sua história. Para nós que trabalhamos este tipo de espetáculos, é muito interessante poder construir conceitos que trazem à superfície o legado daquele que é o mais antigo cabaret lisboeta, honrando-o com criações nossas e que têm esta responsabilidade de não deixar cair em esquecimento aquilo que o Maxime representa para a cidade e para a sua vida noturna. É desafiante criar shows diferentes que honram o passado com valores de futuro e costurar este “chapéu” criativo que liga passado e presente, mas é um “chapéu” que nos fica a todos muito bem – e ao Maxime também!

Quantos artistas estão envolvidos nas produções do Maxime?
O projeto Voix de Ville conta com um portfolio de mais de 20 artistas habituais, a que se juntam artistas internacionais e convidados ocasionais. Até hoje, é seguro afirmar que desde 2019 já passaram mais de 50 artistas diferentes e de várias nacionalidades pelo palco do Maxime. Eu sou criadora, produtora, curadora e artista destes espetáculos, convidando tanto o elenco residente como os artistas ocasionais e internacionais que vem atuar a este espaço que tanto estimamos.

Em que contexto são lidos os segredos partilhados anonimamente pelo público e como resolveram enquadrar isso na estrutura do espetáculo?
Temos uma estrutura de espetáculo já pensada para cada noite, e que – sublinho – é diferente a cada data. O que fazemos é deixar espaços em aberto nessa estrutura para improvisarmos, utilizando os bilhetes com segredos de que falava antes, as ideias que cada pessoa no público nos confiou. Ou seja, quem nos vier visitar pode ter a certeza que nunca verá o mesmo espetáculo, que aquele espetáculo que irá ver é irrepetível, porque as pessoas na sala, certamente, não serão as mesmas, e portanto, os segredos confessados também serão outros. Esta improvisação acaba sempre por ganhar contornos cómicos; vamos criando em palco consoante cada ideia que vamos lendo nos bilhetes. É um dos benefícios do anonimato: ninguém se sente constrangido, o que nos permite esse lugar de conforto, que é o de saber que vamos poder brincar, sem que ninguém na plateia se sinta invadido. É um refrescar da experiência e do ambiente de um cabaret, onde estas interações entre artistas e público são muito frequentes. Aqui, estamos a dar um twist a essa noção e a oferecer algo insólito, o que nos alegra. Afinal de contas, estamos aqui para entreter e fazer com que as pessoas se esqueçam do que se passa lá fora, pois, naquele momento, estão no Maxime.




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