Mr. Dheo: «Quem visita o Porto tem que ver arte portuense»

(Fotografia de Carolina Branco/GI)
Em 17 anos dedicados ao graffiti, o writter portuense Mr. Dheo já deixou a sua marca nos quatro cantos do mundo. Com o foto realismo como estilo próprio e inconfundível, traz um novo trabalho ao coração da Invicta e reaviva a memória coletiva dos portuenses com uma passagem do filme de Manoel de Oliveira, Aniki Bóbó.

A arte urbana tem particularidades que a distinguem da arte convencional…

Acho que a arte urbana foge ao padrão da arte convencional. Numa galeria, as obras, na sua maioria são idealizadas para alguém as comprar, são feitas mais pela estética do que pelo próprio conceito e o graffiti como está na rua e como é público comunica com toda a gente, não é elitista. Não é preciso pagar, não é preciso esperar por uma exposição para ir ver arte, e essa liberdade que se tem ao intervir na rua faz chegar a arte aos 8 e aos 80, ao rico e ao pobre. No graffiti não temos regras, mas para expor numa galeria é preciso cumprir determinados requisitos, no currículo vão olhar se tenho formação em Belas Artes ou não. Aqui não interessa, eu sou autodidata e posso conquistar o mundo e ninguém me vai nunca pedir o currículo.

É essa a magia de pintar na rua?

É. É essa e é o feedback que se tem, porque ao expor numa galeria as pessoas se calhar vão-me bater nas costas porque fica bem ou porque está lá o fotógrafo ou porque a dona da galeria é uma amiga. A pureza não é tanta como é na rua, onde lido com aquele impacto imediato. As pessoas gostam ou não gostam, falam comigo, dizem aquilo que pensam e isso acho que só a arte urbana é que tem.

E o que te atrai no realismo?

Honestamente, eu comecei a fazer realismo pela dificuldade, porque não gosto de estagnar, e preciso de me sentir desafiado, senão o meu trabalho não faz sentido. E acho que o foto realismo comunica mais facilmente com todo o tipo de público. Não é uma coisa tão abstrata que depende muito das interpretações. Naquela fração de segundo em que as pessoas passam na rua e olham para a obra, o realismo é uma forma mais fácil e rápida de a interpretarem.

«Sou autodidata e posso conquistar o mundo e ninguém me vai nunca pedir o currículo»

Fazes trabalhos para várias instituições e marcas que te contratam. Como manténs a liberdade criativa?

Mantenho porque lutei por ela. Até um determinado ponto as pessoas procuravam-me por eu fazer graffiti. A partir do momento em que se tem a técnica e se sabe trabalhar com sprays dizem «é esta a imagem que nós queremos» e eu lutei pouco a pouco para que as pessoas entendessem que eu não quero executar, eu quero criar, porque o trabalho do artista é esse. Se houver liberdade criativa vai acrescentar muito mais ao trabalho, e vai ser muito mais motivante de fazer. Hoje em dia eu só aceito trabalhar se, independentemente de ter um tema ou de ter algum cuidado com aquilo que pinto em determinados locais, for sempre a minha visão, o meu trabalho de autor.

O processo criativo tem altos e baixos…

Completamente!

Como é que concilias isso? Se tens um trabalho para fazer mas não te sentes inspirado…

É muito complicado, porque eu acho que a maioria dos artistas são muito sensíveis e eu, por exemplo, sou de picos. Tenho uma semana em que tudo me corre bem, tenho mil ideias e as coisas funcionam e se tiver 10 projetos faço-os todos. Mas se calhar na semana a seguir, mesmo sem saber porquê, estou numa onda mais down e nem sempre surgem ideias e tenho de lidar com a pressão de alguns clientes de «Quando é que vais pintar? Já tens alguma ideia? O que é que vais fazer?». Eu tenho a sorte de até hoje os meus clientes terem alguma compreensão, perceberem o meu lado e darem-me esse espaço. Mas quando tenho uma data estipulada consigo sempre cumprir, agora, às vezes, a ideia surge uma hora antes e é um bocado no local que a desenvolvo e trabalho. Há alturas em que as coisas não saem, não fluem, não há ideias e vai haver pressão e há que saber lidar com ela, como às vezes estou cheio de ideias e não há trabalho.

(Fotografia de Carolina Branco/GI)

És mais internacional do que nacional. Que diferença notas entre pintar aqui e nos sítios onde já pintaste lá fora?

Atualmente 90% do meu trabalho é no estrangeiro. Se isso me dá gozo? Dá, no sentido em que tenho a sorte de viajar e conhecer, ter uma vida que se calhar pouca gente tem a possibilidade de ter e que é uma dádiva, porque eu viajo, sou pago e sou convidado para ir conhecer o mundo. Ao mesmo tempo, é aquela frustração de pensar que me valorizam mais lá fora do que propriamente cá. Mas felizmente a nível das pessoas que acompanham o meu trabalho sinto que sou muito acarinhado aqui. Há essa dualidade. Por um lado é bom ser internacional e tudo o mais, mas gostava de ter mais coisas cá e por outro lado o carinho que eu sinto cá toca-me muito mais no coração do que o carinho que eu recebo lá fora.

O que achas que falta aqui? É vontade ou é recursos?

Recursos é uma grande tanga. Porque recursos há sempre e para tudo, para estátuas, para obras, para «Joanas Vasconcelos»…Também não acredito que seja necessariamente falta de vontade. Acho que é falta de conhecimento, falta de perceção do ritmo a que as coisas acontecem lá fora, da importância que isto pode ter para o turismo, para as pessoas que aqui vivem e para valorizar os locais. Para mim quem visita o Porto, se quer ver arte, tem que ver arte portuense, não tem que ver arte espanhola nem italiana nem seja o que for. Acho que faltam os meios, que às vezes são simples, basta fazer uma pesquisa, conhecer os artistas, dialogar com eles, e essa comunicação nem sempre acontece.

[A falta de] recursos é uma grande tanga. Porque recursos há sempre e para tudo, para estátuas, para obras, para «Joanas Vasconcelos»…

Mas agora voltaste a pintar na tua cidade…

É sempre especial por isso mesmo, porque no Porto eu tinha um trabalho, que é o da Trindade, e não tinha mais. Por isso, ter a possibilidade de pintar no Porto entre tantas viagens e entre tantos projetos que eu tenho, e ser num sítio tão central como os Aliados, é muito positivo porque é aqui que eu me sinto feliz a pintar. Eu isso nunca escondi e não escondo. Quem me dera que existissem mais possibilidades quer para mim quer para outros artistas da cidade que o merecem da mesma forma. Espero que isto também seja uma alavanca para que isso aconteça mais.

Este novo mural. Achas que as pessoas estão a precisar de voltar às origens?

O meu objetivo é sempre que as pessoas reflitam. E com este mural é pelo menos fazer as pessoas pensar que amizade não é ter 400 ou 500 amigos no facebook. Amizade é justamente aquilo que eu tinha quando era miúdo, quando ia jogar futebol com os meus amigos tardes inteiras. As redes sociais são muito positivas mas ao mesmo tempo, e principalmente numa idade muito jovem, em que é preciso esse contacto e é preciso conhecer pessoas, porque é assim que se cresce, pode ter um impacto muito negativo. O mural é um alerta para isso mesmo, para os próprios pais se calhar pensarem e começarem a controlar um bocadinho as redes sociais, o tempo que as crianças têm para as redes sociais e tentar que eles saiam mais, que brinquem mais e que se divirtam.