As praias paraíso da Arrábida estão a perder areia

O Portinho da Arrábida, Galapos e até Galapinhos - eleita a praia mais bonita da Europa em 2017 - têm vindo a perder areia nos últimos anos, numa altura em que são cada vez mais procuradas por visitantes nacionais e estrangeiros. Fotografias mostram o «antes» e o «depois».

As praias da Serra da Arrábida, enquadradas na área protegida do Parque Marinho Professor Luiz Saldanha e tantas vezes consideradas um verdadeiro paraíso natural, têm vindo a perder areia aos poucos, tornando-se um paraíso menos perfeito a cada verão. Segundo Pedro Vieira, presidente de Clube da Arrábida, o Portinho da Arrábida, por exemplo, «perdeu 70% da sua areia desde os anos 30 do século passado».

Pedro Vieira, engenheiro zootécnico, nasceu em Lisboa, mas cresceu na Arrábida, no seio de uma família com ligações ao mar, e tem acompanhado os problemas da serra ao longo dos últimos anos, pelo que a conhece como a palma da mão. Diz que «neste momento temos uma praia [no Portinho] que está reduzida a 30% da sua dimensão, o que é uma coisa enorme», quantifica.


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As mudanças ocorridas nessa zona costeira – que contacta com o bordo norte do delta externo do Rio Sado onde surgiram as praias de Alpertuche, Portinho, Coelhos, Galapinhos, Galapos e Figueirinha – podem não parecer grandes aos olhos dos menos conhecedores, mas são bem visíveis quando postas lado a lado com fotografias tiradas pelo fotógrafo setubalense Américo Ribeiro, nos anos 30, 40 e 50 do século XIX, e outras que Pedro tem no seu arquivo pessoal.

Na área alcatroada do estacionamento do Portinho, por exemplo, dantes existia praia. Hoje, por contraste, «mais de metade da praia é só calhaus e pedras. Olhamos para as fotografias de há 50 e 60 anos e vemos que o areal do Portinho da Arrábida começava onde hoje em dia é o forte-museu. Toda aquela zona onde estão os restaurantes e barcos era areia e a praia acabava para lá do monte de areia. Depois continuava à volta, apanhava as praias dos Coelhos, de Galapinhos e Galapos, tudo aquilo era um areal quase em contínuo», recorda.

A praia do Portinho da Arrábida. (Fotografia de Sandra Brazinha)

A duna que desapareceu

Perfilado com a praia do Portinho e do Creiro, também o monte de areia – popularmente conhecido como Monte Branco – sofreu nos últimos anos com o fenómeno natural do desassoreamento. A acumulação de areia em forma de duna, provavelmente «relacionada com o regime de ventos local e com o posicionamento da linha de costa, na zona leste da baía», segundo descrição técnica do Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia (LNEG), na verdade nem sempre existiu.

Segundo se lê num parecer do LNEG sobre a matéria, terá atingido a sua altura máxima nos anos 50, vindo a perder areia desde os anos 2000, e acabou por desaparecer «por volta de 2010, num temporal de inverno, de um fim de semana para o outro». «Todas as pessoas daquela zona se lembram, quando eram crianças, de irem lá acima e rebolarem pela areia», comenta Pedro.

E o que se está a passar em Galapos e Galapinhos, esta considerada a praia mais bonita da Europa em 2017 pelos leitores do website de viagens e turismo European Best Destinations? Pedro Vieira diz que «o processo de erosão em Galapos e Galapinhos é exatamente o mesmo do Portinho da Arrábida, porque aquele sistema é um sistema só, quase como um ser vivo».

A praia de Galapinhos é oficialmente considerada como semi-natural, isto é, «praia equipada com uso condicionado», e foi esse estado natural quase intocado pelo Homem que lhe valeu o prémio entre dezenas de outras praias por todo o mundo. Para se lá chegar é preciso percorrer acessos sinuosos por entre a vegetação ou descer as escadas de cimento mais acessíveis de Galapos.

Já a passagem a pé para Galapos só é possível quando a maré está baixa ou passando por cima de pedras junto à arriba que as «separa» uma da outra. Para melhorar os acessos, a Câmara Municipal de Setúbal pretende construir em breve um passadiço pedonal.

A Praia de Galapinhos. (Fotografia de Global Imagens)

O que causa tudo isto?

A linha de costa da baía do Portinho da Arrábida, que inclui as praias do Portinho e do Creiro, tem recuado em virtude de um processo natural, mas importa não esquecer que «há efetivamente grande culpa da intervenção humana ao longo da costa. Tudo o que é construção vai potenciar o desaparecimento de areia», reconhece o presidente do Clube da Arrábida.

Operações como dragagens no rio e a construção do esporão que permitiu aumentar o areal da praia da Figueirinha são alguns dos fatores que «afetam o percurso natural das correntes e deposição de areia que essas correntes trazem», explica. Os temporais de inverno também têm influência no processo.

Pedro Vieira sustenta a sua análise ao fenómeno do desassoreamento das praias da Arrábida com o parecer técnico «Portinho da Arrábida: Uma Praia em Mudança», em que participaram técnicos do Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia na sequência de uma iniciativa do Clube da Arrábida.

O colóquio, que contou com o apoio da autarquia sadina e do Parque Natural da Arrábida, foi uma das várias iniciativas do Clube da Arrábida, criado em 2010, para chamar a atenção para este problema e para o facto de o Portinho da Arrábida carecer de um estudo de impacte ambiental sem o qual nenhuma medida de enchimento artificial de praias pode ser tomada.

 

Percorra a fotogaleria para ver mais imagens das praias do Portinho da Arrabida, Creiro, Galapos e Galapinhos, na Arrábida.

 

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