Açucena: a despedida da «adorável» peixeira dos chefs

A conhecida vendedora de peixe, que abastecia vários restaurantes, morreu na sequência de um despiste do automóvel que conduzia este domingo, 11. Personalidades da área da gastronomia recordam o profissionalismo e a simpatia com que trabalhava diariamente.

Morreu a peixeira de Lisboa e dos chefs. Açucena Veloso, conhecida vendedora de peixe com banca no Mercado 31 de Janeiro, em Picoas, morreu este domingo vítima do despiste do automóvel que conduzia na zona de Corroios, concelho do Seixal, distrito de Setúbal.

Açucena Veloso era muito acarinhada no mercado e conhecida por fornecer peixe a figuras públicas e chefs de restaurantes e hotéis, assim como a outros comerciantes, que a procuravam pela grande variedade de peixe fresco. Maria de Fátima Moura, gastrónoma e autora do blogue “Conversas à Mesa”, era uma das suas clientes e conta que na banca de Açucena Veloso não encontrava apenas «o melhor peixe do mundo, mas também o mais bonito sorriso e a melhor boa disposição».

«Não sei se víamos primeiro o brilho da enorme diversidade de peixes do mar, sempre com a frescura máxima, ou o bom humor da Açucena. (…) Açucena, por tudo isso, vai fazer-nos muita falta no mundo da gastronomia», afirmou a autora de vários livros que retratam a identidade cultural e gastronómica do país, e que considera o peixe do mar «dos maiores tesouros da nossa gastronomia».

«Em Lisboa, e até Portugal, era a grande figura de referência como peixeira», concorda também Duarte Calvão, co-autor do blogue Mesa Marcada. «Dormia apenas uma hora e meia por noite para ir às lotas e escolher o melhor peixe para os seus clientes — na sua grande maioria restaurantes, mas isso não a impedia de continuar no Mercado 31 de Janeiro e de mostrar uma cara alegre a todos. Ela queria prestar um bom serviço, com brio, a quem quer que fosse, que as pessoas levassem o que realmente queriam. Claro que gostava muito que chefs como o Kiko Martins, o [José] Avillez, o Sá Pessoa, o Alexandre Silva ou Vítor Sobral, só para citar os mais conhecidos, que têm grande consumo de peixe, confiassem nela», diz o gastrónomo e diretor do Peixe em Lisboa.

Em declarações à Evasões, Sá Pessoa descreve Açucena como «uma mulher de armas, sempre disponível para ajudar, arranjar soluções e sempre fiel à qualidade dos seus produtos». E acrescenta: «Será sempre recordada como a ‘peixeira dos chefs‘. Sentiremos muito a sua falta».

José Avillez reforça igualmente o caráter de Açucena, que além de ser «uma pessoa adorável», «teve um papel muito importante na qualidade do peixe servido em muitos restaurantes», garantindo que o pescado chegava «imaculado» às cozinhas dos chefs. «Podemos ter em Portugal o melhor peixe do mundo mas se não for bem tratado desde que é pescado até ser servido a qualidade da pesca pouco importa», conclui.

Fernando Melo vai mais longe: «Açucena Veloso partiu como os grandes, morreu já na condição de imortal, de tanto que fez por nós todos, pelos cozinheiros, e pelo imenso mundo marítimo». diz o crítico de comida e vinhos da revista Evasões, recordando o percurso da peixeira de 65 anos.

Diogo Noronha, do restaurante Pesca, também tinha preferência pelo serviço da banca de Açucena e revela que foi a sua primeira fornecedora de peixe em Portugal. Açucena «tinha uma energia e boa disposição contagiantes», elogia o chef, e «ficará como uma referência na excelência e valorização» do peixe português.

Açucena Veloso morreu na sequência do despiste do automóvel que conduzia na Rua de Niza, no lugar de Vale de Milhaços, concelho de Seixal. O alerta foi dado domingo às 08h23, segundo afirmou fonte do Comando Distrital de Operações de Socorro de Setúbal à Lusa.

 

Notícia atualizada no dia 11 de fevereiro às 18h51 com declarações de Maria de Fátima Moura e Duarte Calvão e às 20h21 com declarações de José Avillez e Diogo Noronha.

 

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