Rui Paula ganha primeira estrela Michelin com Boa Nova

A Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, deu a Rui Paula a primeira estrela Michelin, há muito merecida. Releia aqui a crítica de Fernando Melo sobre o restaurante.

Desde logo a leitura genial de um espaço perfeitamente integrado e implantado quase na rebentação, onde o mar a cada momento o reclama. Álvaro Siza Vieira foi em quem recaiu o endosso de Fernando Távora, elevando-o a prodígio dir-se-ia que da natureza, pelo quanto parece ter irrompido da rocha de forma espontânea. A festa no verão é plena e põe-nos sobre o oceano, mas lugares como este nos rigores do inverno mostram-nos a força imanente do mar, com o inevitável efeito regenerador em nós que nos instalamos como num barco manobrado por mão segura.

Rui Paula trouxe do Douro a alegria grave de quem vê o mar pela primeira vez, ele que o conhece bem. Só por isso, já merece a vénia que interiormente lhe faço sempre que me sento a uma das suas mesas. Inquieto desde que nasceu, experimentalista por natureza, está encostado à excelência desde o dia em que decidiu que a Boa Nova – abrevio Casa de Chá da Boa Nova – iria ser o espaço demonstrador do espírito de cozinheiro que traz no seu coração. As madeiras, as frentes de vidro e a serenidade como contraponto ao caminho do carro até à mesa são cenário do retiro a que nos entregamos. Quanto ao modo de usar, numa vertente clássica aconselho que numa primeira visita se cumpra o desígnio de Matosinhos como a mesa marítima do Porto. O arroz caldoso de peixe e lavagante da nossa costa (80 euros para dois) é um regalo para todos os sentidos.

Tem contornos de delícia a cataplana de peixe e marisco (80 euros para dois), que o mar é todo um só. É forma iluminada de finalizar cozeduras individuais e complexas, a da convecção induzida pelo curioso recipiente bivalve. E o pargo com legumes baby e batatinha nova (80 euros para dois) coloca-nos no tema óbvio do produto inteiro, a base da nossa relação com o mar. Aproveito para sublinhar a correção dos pontos de cozedura, apesar de me parecer desnecessário sempre que sei estar numa cozinha estruturada, com chef inteletualmente orientado. Entendo ser tarefa minha perceber as suas abordagens, mais do que impor crivos ou dogmas ao seu trabalho. A nota forte para o trabalho com o vinho, pensado e aturado em cada instância dos menus que a casa propõe.

O Menu Boa Nova (85 euros, 125 euros com vinhos) exprime a estação e a arte culinária que Rui Paula assina em quatro momentos principais. A homenagem à força do mar e do pescador sente-se de forma feliz no Menu Atlântico (120 euros, 195 euros com vinhos), oito momentos, começa num prato brilhante em torno da ostra, passa pela interpretação da pescada mais vibrante que provei em Portugal, e abre caminho novo no património marítimo com um fabuloso arroz de lula. E existe para os mais ecléticos o Menu do mar e da terra (120 euros, 195 euros com vinhos), oito momentos de grande deleite, dois dos quais de carne. E existe, claro, o serviço à carta, em que compomos nós a refeição. Apesar do movimento que se gera em torno da mesa, muito raramente sentimos alguma intrusão. Afinal, vamos para estar, não apenas para comer. Rui Paula está bem presente nesta Boa Nova e integra de pleno direito o grupo de chefs que estão a construir a nova mesa portuguesa.

Rua da Boa Nova, Leça da Palmeira
Tel.: 229940066
Das 12h30 às 15h00 e das 19h30 às 23h00. Encerra domingo e segunda ao almoço.
Preço médio: 65 euros

 

 

Este artigo foi publicado originalmente na edição 84 da Evasões, a 4 de novembro de 2016. Foi atualizado a 23 de novembro, após anúncio dos restaurantes distinguidos pelo Guia Michelin 2017.