Lisboa: o Nómada chegou para ficar nas Avenidas Novas

De como a inquietude e desinstalação foi o denominador comum que conduziu ao Nómada, nas Avenidas Novas. Para os transumantes urbanos que vão de bairro em bairro em busca de novidade e para os que querem permanecer no que é de sempre. Crítica de Fernando Melo.

A tentação tem novo poiso num prédio da Visconde de Valmor, com a contribuição de uma tribo de fazedores de grande talante e experiência nas artes da fusão à mesa. O nome da casa é Nómada, mas eles parecem bem firmes no propósito de ficar, ou de partir juntos para outro lugar. É um modelo novo no cenário lisboeta, por se distinguir totalmente do restaurante de sushi ao mesmo tempo que aposta na grande tradição. Por razões diversas, antigamente ia-se almoçar ou jantar fora para comer o que não se fazia nem era prático fazer em casa. É aí que está o segredo da proposta do neófito Nómada, tanto que os «locais» já ali vão pelo menos uma vez por semana com as suas famílias e amigos, depois de uma primeira experiência que correu bem.

Mário Ribeiro e Francisco Bessone, respetivamente chef executivo e chef residente, sabem tudo sobre proporcionar prazer à mesa com as cozinhas do mundo que estão em voga. São também, juntamente com Rui Oliveira, os sócios fundadores da casa. Bruno Oliveira tem a batuta da cozinha contemporânea, que é o primeiro modo de usar desta casa. O naco nómada com recheio do dia (16 euros) e o prego de atum com escabeche e chips de batata-doce (14 euros) são dois bons exemplos disso.

Mas quem os viu em ação outrora no Sushic entrega-se-lhes nas mãos sem contemporizações. Giscard Muller é cultor e pesquisador incansável das ligações vinho-comida e aconselha na perfeição os clientes, respeitando as diferenças e os gostos de cada um. É difícil fazê-lo, quando os pratos de inspiração japonesa se baseiam na apresentação de proteína crua ou quase crua, complementados por molhos e temperos de recorte fino e subtil.

A sala é dirigida por Carlota Cintra, sempre perto e atenta a tudo o que se vai passando. A descontração é a tónica geral, tanto na primeira sala como na esplanada, fluidez garantida a uma coreografia de serviço discreta e eficaz. Delicioso o escabeche japonês (8 euros), caldo rico assessorado por peixe em tempura. Fiquei fã das vieiras (12,50 euros), pela frescura e pela proposta do puré de guacamole e manga marinada em mirin que resulta, além de abrir pontes interessantes para o vinho. Impressiona o acerto do ceviche de peixe branco (11 euros), com um leite de tigre conseguido e consistente, a fazer boa cama para as crocâncias da cebola, chips de batata- doce e algas. O gunkan MR (8 euros), de salmão e vieira flamejada em conhaque, deixa saudades e o tataki de atum (13 euros) é de antologia. Em termos da exploração da refeição gostava de um pouco mais de suavidade, a mesa é muito mais do que apenas uma plataforma para assentar e levantar pratos.

Assim como queria sentir um trabalho mais aturado da chamada cozedura da lâmina nas peças de sashimi, acredito que com a experiência isso seja garantido. Nas sobremesas, ganha o fofo de chá verde com gelado de melão e gengibre (4,50 euros), seguido de perto pelo saboroso cheesecake de lima (3,50 euros). Espero que a moda que este Nómada impõe a Lisboa num dos seus eixos mais residenciais fique para durar. Somos nómadas, mas gostamos de ficar.

 

Avenida Visconde de Valmor, 40-A
(Saldanha). Tel.: 917779737.
Web: facebook.com/nomadalisboa
Das 12h30 às 15h30 e das 19h30
às 23h30. Encerra ao domingo.
Preço médio: 35 euros

A refeição ideal
Gyosas (5,50 euros)
Escabeche japonês) (8 euros)
Tempura de caranguejo (12,50 euros)
Combinado fusão 18 peças (18 euros)
Fofo de chá verde (4,50 euros)