Crítica de restaurantes: Uma Graciosa surpresa nos Açores

(Fotografia de Hélder Santos)
Da visita a uma marisqueira para onde parecem confluir os amantes da boa mesa na pequena ilha açoriana, o crítico aproveita para tecer uma apreciação do momento da restauração no arquipélago.

Os Açores estão na moda. De há uns tempos para cá, o turismo que tem Portugal como destino, cansado do óbvio, do sol-e-praia e das igrejas que a História nos deixou, passou a olhar a nossa natureza com outros olhos. De início, eram uns britânicos e nórdicos deslumbrados com os caminhos montanhosos da Madeira e, por vezes, do Gerês. Depois, foi a descoberta do caminho fluvial para o Douro, com amenidades etílicas a ajudar à festa. Agora, com as low-cost a ajudar, os Açores emergiram no meio do Atlântico. O Portugal verde está cada vez mais recomendável.

Sou do tempo em que comer nos Açores – desculpem-me os açorianos! – era uma aventura sem um fim muito gratificante à vista. Das diversas vezes que por lá andei nas últimas quatro décadas, recordo-me de escassas mesas decentes em Ponta Delgada e em Angra do Heroísmo, quase nada no Faial e alguns outros poucos locais a «armar ao típico», com a inevitável alcatra e um sofrível vinho do Pico. Valia-nos o queijo! Mas ninguém ia aos Açores para comer bem. Ponto.

Tudo mudou? Muita coisa mudou, para melhor. É claro que a oferta gastronómica ainda está a milhas de justificar uma deslocação ao arquipélago, mas começa a acompanhar o surto de turismo que, nos últimos anos, inundou as principais ilhas. Nem sempre isso sucede de uma forma qualitativamente acertada. Há alguma massificação a gerir melhor, parece haver um défice na qualidade média do serviço nos restaurantes a que há que estar atento. Mas as coisas vão no bom caminho.

Há semanas, fui à ilha da Graciosa. Apeteceu-me escapar ao hotel, pelo que perguntei onde se podia ter uma boa refeição por ali. As opções eram muito escassas, menos do que os dedos de uma mão. Somei as referências vindas de todas as fontes e todas coincidiram em que «no José João é que se come bem». Nem sequer foi necessário seguir o método infalível que costumo usar numa terra onde nada conheço, e que deixo como segredo aos leitores: perguntar qual é o melhor restaurante da localidade a uma pessoa, simultaneamente, com ar abastado nas posses e bem anafado no corpo. Nunca falha! Ensinaram-me também, há tempos, um método cumulativo: inquirir qual é a mesa local preferida do presidente da Câmara. Se as duas referências coincidirem, melhor é, seguramente, impossível.

Com um conversador taxista a ajudar, lá fomos à Marisqueira José João. O rústico da casa não augurava nada de especial. A Débora, simpática e bonita filha do dono da casa, terapeuta de profissão a ajudar a família, em crise de mão-de-obra, guiou-nos por uma lista à partida pouco apelativa, um tanto «cansada» na apresentação, com alguma escassez na variedade dos vinhos. Mas a linguiça da Graciosa logo nos conquistou, com um excelente queijo temperado a ajudar. As opções de carne eram apreciáveis, dos diversos bifes à clássica posta. E por aí fomos, porque a carne açoriana é magnífica. Estávamos, contudo, numa marisqueira e o marisco disponível era escasso. Teria sido prudente ter encomendado cracas, cavaco e lapas. Que fazer? Voltar, claro! Assim fizemos no dia seguinte, para uma refeição soberba de marisco. Quem haveria de dizer que numa remota e pequena ilha atlântica iríamos comer de uma forma que nos ficará na mais positiva memória de uma visita aos Açores?

 

Marisqueira José João
Morada: Rua Fontes Pereira de Mello, 148
Tel.: 295732855