A flor de sal ganhou ervas aromáticas, a salicórnia tornou-se um pó para temperar, os ovos-moles também dão sabor a licores e as conservas tradicionais estão a ser embaladas com aromas de frutos e algas. Em Aveiro e em Ílhavo, em redor da ria, há uma pequena revolução em redor dos produtos tradicionais, que estão a ser reinventados tanto nas indústrias conserveiras como por pessoas que tiveram ideias (ou saudades) a partir de sabores antigos, como o licor de alguidar.
Virgílio Porto é um dos responsáveis por essa reviravolta de sabores, que pratica na loja que abriu no coração do bairro aveirense da Beira-Mar, a Aveiro Emotions. Nessa loja há vários dos novos produtos da ria, e uma nova CERVEJA ARTESANAL PICANTE, com piripíri, um rótulo provocador e que também funciona como raspadinha «para que as pessoas se divirtam enquanto bebem», explica. Virgílio criou ainda um LICOR DE OVOS-MOLES, com o sabor do doce conventual – e que «deve ser bebido fresco, num copo de hóstia».
Um outro licor voltou a ser fabricado no mesmo bairro da beira-mar, por iniciativa de Ana e Rui Martins – ela desempregada e ele técnico municipal na área do desporto, viram na produção do licor, cuja receita aprenderam com a família, uma forma de dar a volta à vida. Enquanto Ana seleciona os frutos e produz seguindo a receita que os pais lhe ensinaram, Rui trata da distribuição e da venda. Com a ajuda de amigos, o casal concebeu uma embalagem apelativa e rebatizou a bebida de LICOR DE AVEIRO para, diz Ana, «reforçar a ligação à cidade e evitar a imagem negativa do alguidar». No início do ano, os licores com sabor a tangerina e menta conquistaram medalhas de ouro e de prata no Concurso de Licores da ProdExpo, em Moscovo. Outro produto a inspirar criações é o sal. As irmãs Mariana e Margarida Mota, fundadoras da marca de bolachas e compotas.
Há também novos usos para as algas. Em Ílhavo, a Algaplus, que se apresenta como a única empresa da Europa a produzi-las em aquacultura em terra, começou a incorporar as algas em produtos bem ao gosto português: sal e sardinhas. Através da marca Tok de Mar, apostada em «tornar o consumo fácil e rápido», palavras da marketeer Ana Ribeiro, lançou para o mercado sal e de flor de sal com flocos de algas, conserva de SARDINHAS COM ALGAS BIOLÓGICAS e sardinhas sem escamas, e também embalagens de ALGAS DESIDRATADAS, nas variedades erva-patinha, alface-do-mar e musgo-irlandês. São acompanhadas de sugestões para dar outro sabor a pratos de peixe, massas, arroz e omeletas. Em breve, vai lançar algas frescas salgadas.
Na Liporfir, dedicada à transformação e comercialização de bacalhau, os irmãos Marta e Pedro Santos decidiram inovar com OVAS DE BACALHAU EM CONSERVA, aumentando a validade de um produto que geralmente só se encontra fresco.
Outra casa familiar, a Empresa de Pesca de Aveiro, criou conservas de filetes de ATUM COM FRUTAS E ESPECIARIAS – ideias que surgiram «durante conversas e convívios familiares», explica Maria Mota, que contou com os irmãos para modernizar o negócio da família. Os filetes podem levar laranja e canela ou maçã, tomate seco e piripíri. Como vão a esterilizar a 121 graus, os ingredientes quase se fundem. E vão depois da ria para onde o gosto os levar.