Açores: Rabo de Peixe anda nas bocas do Mundo, também por obra da Fat Tuna

Empresa sobreviveu à pandemia graças às encomendas para clientes particulares. (Fotografia: Estúdio Tipo-Grafia/DR)
A vila piscatória do concelho de Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, foi celebrizada, à escala global, por uma série disponível na Netflix. Mas tem mais para conhecer, como mostra Afonso van Uden, da Fat Tuna. A empresa, com sede em Rabo de Peixe, leva pescado fresco dali até às nossas casas - recorrendo, inclusive, a uma técnica japonesa. E é nela que fixamos os olhos agora.

A Fat Tuna, dedicada à comercialização de peixe fresco do mar dos Açores, trabalha com restaurantes de renome país fora e, desde a pandemia, também com clientes particulares. Foi uma mudança introduzida nesse período delicado da história coletiva, em que a empresa teve de se reinventar para sobreviver. Hoje, um telefonema ou uma mensagem por WhatsApp (963 344 005) bastam para recebermos uma variedade de espécies em casa, em Portugal continental, no dia seguinte. A fábrica fica em Rabo de Peixe, que tem dado nas vistas graças à série homónima, com selo Netflix.

Rabo de Peixe já foi apontada como a freguesia mais pobre do país e, em 2001, viu cerca de meia tonelada de cocaína dar à costa, na sequência de um naufrágio. Esse acontecimento serviu de base à série ficcional realizada por Augusto Fraga, que se estreou naquela plataforma de streaming em maio, esteve entre as seis mais vistas em língua não inglesa, a nível mundial, dividiu opiniões e gerou curiosidade, com efeitos imediatos no turismo. “Vejo muito mais pessoas a passear em Rabo de Peixe, e os autocolantes dos carros de aluguer de um lado para o outro”, constata Afonso van Uden, sócio-fundador da Fat Tuna. O empresário aplaude a obra e deseja para o turismo local o mesmo que para a sua área de negócio: crescer em qualidade, não em volume.

Afonso van uden, sócio-fundador da Fat Tuna.
(Fotografia: Estúdio Tipo-Grafia/DR)

Afonso, micaelense de 43 anos, recorda com alegria a infância passada rente ao mar, na doca de Ponta Delgada e nos barcos, já então em estreita convivência com a comunidade piscatória de Rabo de Peixe. Quando a família se mudou para Oeiras, manteve a ligação ao oceano e, ainda miúdo, criou um negócio que passava por recuperar bolas de golfe que, novas, custavam “uma fortuna”. Ao longo dos anos, teve diferentes projetos e ocupações. Chegou a abrir lojas de compra e venda de ouro, e por isso regressou a São Miguel, onde acabaria por montar, com o sócio João Cabral de Melo, a empresa Fat Tuna. O objetivo era valorizar o pescado açoriano, garantindo consistência no que toca à (alta) qualidade.

“Selecionamos embarcações que sabemos que tratam bem o peixe, usam as artes certas e não poluem o mar”, sublinha Afonso van Uden.

A Fat Tuna, que emitiu a primeira fatura em 2015, distinguiu-se desde logo por aplicar a técnica japonesa Ike Jime, “que consiste em matar o pescado minimizando o seu stress”, com ganhos em frescura e durabilidade, explica Afonso. Para tal, houve que desbravar caminho, dar formação aos pescadores, ir com eles para o mar. “Foi extremamente desafiante conseguir arranjar fornecedores e, depois, clientes para este produto”, conta. “De 2015 a 2019 foram anos muito complicados.” Mas a travessia lá se fez. E, entretanto, a empresa passou a disponibilizar também peixe a que não é aplicada tal técnica, sem abrir mão de uma série de cuidados em todo o processo: “Selecionamos embarcações que sabemos que tratam bem o peixe, usam as artes certas e não poluem o mar”.

“Estávamos finalmente a pôr o nariz fora de água, a começar a respirar, e aparece a covid”, lembra Afonso. Os restaurantes, clientes principais, encerraram portas, houve receio de falência, mas a Fat Tuna ultrapassou a tempestade virando-se para o consumidor final, que estava fechado em casa. A aposta na entrega de peixe ao domicílio, maioritariamente na Grande Lisboa e no Grande Porto, revelou-se fortalecedora: “Tínhamos na base de dados à volta de 80 clientes particulares; no fim da pandemia, estávamos com 8 mil e tal”.

Aquele boom levou à criação de um novo site, que mostra a diversidade de espécies oriundas do mar dos Açores (e como cozinhá-las). Foi ainda criado um call center de apoio ao cliente, que recebe a matéria-prima embalada em vácuo, pronta a guardar no frigorífico ou no congelador. É Rabo de Peixe a entrar-nos de novo pela porta – desta vez, com cheiro a mar.

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Mapa da ficha ténica
Morada
Estrada Regional da Ribeira Grande, km 8, n.º 5, Rabo de Peixe, Ribeira Grande, Açores
Telefone
963 344 005

Website

GPS
Latitude : 39.3999
Longitude : -8.2245




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