Elegância, frescura e leveza. Dez vinhos para o verão

O Mirabilis branco é uma das escolhas de Fernando Melo. (Fotografia de Igor Martins/GI)
Longe vão já os tempos dos vinhos maciços e monolíticos, o que é uma boa notícia para nós, apreciadores de vinhos que se prestam à boa mesa nacional. Grassam pelo país fora os vinhos pensados e feitos com carinho e cuidado, com atenção aos detalhes e à frescura. Altura boa para revelar o que se pode esperar.

A elegância pode ser considerada fator subjetivo na abordagem vínica e não deve em si mesma ser considerada argumento para preferir nem preterir um vinho em relação a outro. Há contudo critérios de preferência que podemos aplicar e que contribuem para a tão desejada elegância. Um deles é a frescura, que podemos entender como conjunção harmoniosa de corpo com acidez, resultando numa bem-vinda leveza e imponderabilidade na boca. Alinhámos dez vinhos que demonstram bem a preocupação dos produtores em oferecer aos seus clientes e seguidores vinhos feitos com esse novo pendor de modernidade. Elegância não significa fragilidade e começamos por dar conta de dois vinhos da região dos Vinhos Verdes que estão aptos à boa mesa e a desafios grandes. Logo de seguida, perdemo-nos de amores pelos três durienses que lhe propomos e que consideramos representar o melhor do que o grande vale vinhateiro está a produzir. Depois surge o Dão, que não há quem não associe a elegância e aptidão para a mesa. Mostramos-lhe um vinho da região de Lisboa que surpreende a cada gole e terminamos no Alentejo de extrema elegância, de um projeto novo. O balanço geral é de que Portugal está bem e recomenda-se, e que o empenhamento em oferecer aos enófilos a tão procurada elegância é caminho seguro. Boas provas!

# Quinta Pousada de Fora
Arinto Reserva Verdes branco 2020 (14%) | Rui Guimarães | 15 euros
Pontuação*: 17,5
Instaladas em Azurém, praticamente no centro de Guimarães, as vinhas desta propriedade são genuinamente prodigiosas e ao mesmo tempo reduto inefável das castas Loureiro e Arinto. Rui Vaz Guimarães, nascido e criado na cidade berço, dedica todos os seus esforços e talento à exaltação de tudo o que é natural, levando a agricultura muito a sério. Vive com a sua família rodeado das suas vinhas e produz uma gama ampla de vinhos, todos muito especiais e todos também orientados para a mesa, pelo que provar junto do produtor é um regalo para os sentidos. Este estreme de arinto tem as flores brancas e o citrino patrimoniais da casta e vai mais além, agraciando-nos com uma grande leveza na boca. Trabalho notável de enologia e alma.

 

# Soalheiro Primeiras Vinhas
Alvarinho Verdes branco 2022 (13%) | Vinusoalleirus | 18 euros
Pontuação*: 17
A casa está a celebrar os 50 anos de plantação da primeira vinha e esta marca oferece uma leitura direta das suas virtudes principais. Mineralidade a toda a prova, profundidade nos sabores e expressão aromática de grande elegância, exacerbando uma face menos conhecida da casta Alvarinho. Acompanhar este produtor implica ainda uma aprendizagem diferente de evolução no tempo, especificidades de terroir e possibilidades de criação de novos perfis da casta rainha de Monção e Melgaço e outras. Marca por isso o ritmo a toda a região. António Luís Cerdeira é um líder tranquilo e gere uma equipa notável de pessoas que não hesitou em sentar à mesa na ocasião feliz da celebração do meio século da casa.

 

# Nosso Tributo
Douro branco 2021 (13%) | Clube Nosso | 59 euros
Pontuação*: 18
Os projetos são sempre corporizados por pessoas e isso é determinante para entender devidamente o labor intenso e continuado que representa a produção de vinho e a construção de marcas. José Carlos Fernandes trabalhou de perto com Fernando Albuquerque no Palácio de Mateus, em Vila Real, e juntos desenvolveram uma relação muito forte de cumplicidade profissional que abarcou ao longo de décadas os cuidados no campo, turismo e vinhas que pudemos testemunhar, com indefetível resiliência. Quis o destino que ambos plantassem uma vinha muito especial, das muitas que governavam, estreme de Gewurztraminer e muito do agrado do malogrado Fernando Albuquerque. Este vinho extraordinário, de acidez belíssima e muito aromático, é um belíssimo tributo a um grande homem.

 

# Mirabilis
Douro branco 2022 (14%) | Quinta Nova NS do Carmo | 59 euros
Pontuação*: 19
Os solos de altitude superior a 650 metros, geologicamente classificados como solos de transição xisto/granítico, nas freguesias de Vilar de Maçada, Cabeda, Tabuaço e Candedo, altitude superior a 650 metros, determinam a composição deste vinho, desde a primeira edição inscrito de pleno direito entre os melhores brancos do país. Castas Viosinho e Gouveio, entre diversas outras provenientes de vinhas muito velhas. Final da fermentação alcoólica e estágio de nove meses em barricas de carvalho francês de segundo e terceiro anos. Bâtonnage quinzenal durante os primeiros cinco meses. Pode bem ser o melhor Mirabilis branco até hoje, tal a força e ao mesmo tempo elegância que ostenta.

 

# Qalt
Tinta Barroca Douro tinto 2022 (12,5%) | Quinta Alta | 26 euros
Pontuação*: 18
É o primeiro monocasta deste produtor, que nos tem dado muitas alegrias pela sensatez e brilho na enologia. A Tinta Barroca exige conhecimento profundo para conseguir extração no bom ponto e para revelar a casta no seu melhor no produto final. A opção do casal Fernanda Zuccaro e Nuno Mouronho – brilhantemente assessorados por Francisco Montenegro – foi de fermentar 30% das massas vínicas com cachos inteiros e remontagens sucessivas com arejamento. Fermentação e seis meses de estágio em cuba inox. Extração muito contida e manipulação mínima deram origem a este vinho maravilhoso, aberto na cor e fino nos aromas. O Douro ganha mais um digníssimo Tinta Barroca para o seu palmarés.

 

# Quinta da Giesta
Grande Reserva Dão tinto 2016 (13,5%) | Quinta da Giesta | 110 euros
Pontuação*: 18,5
Nuno Cancela de Abreu é um dos mais profundos conhecedores de enologia e viticultura de Portugal e chamou para o seu projeto do Dão o igualmente conhecedor Duarte Fernandes, este nas artes comerciais e de mercado. Juntos reformularam inteiramente a marca Quinta da Giesta, em Mortágua, onde o primeiro detém oito hectares de vinha desde 1986, resultado do labor do avô e do pai. São quase quarenta anos e os vinhos recentemente mostrados demonstram bem a maturidade de todo o projeto. O vinho selecionado representa o topo de gama em tintos e é composto por Touriga Nacional (60%), Tinta Roriz (30%) e Alicante Bouschet (10%). Taninos muito finos, perfil aromático de caruma verde, bagas de arbusto e trufas, a pedir boa mesa de caça.

 

# O Fugitivo
Baga Dão tinto 2018 (13%) | Casa da Passarella | 32 euros
Pontuação*: 19
O sempre inspirado enólogo Paulo Nunes tem nesta casa particulares responsabilidades. Na verdade, transcende em muito a função da enologia, sendo o criador de todo o notável portfólio vínico. A série O Fugitivo dedica-se a recuperar castas ancestrais, presentes em vinhas velhas e que de alguma forma constituem património clássico do Dão. A Baga é originária do Dão e não da Bairrada e a escolha em 2018 recaiu sobre a mítica casta. Fermentação espontânea em lagar de granito, estágio de 36 meses em tonel e o tempo restante em garrafa. Aberto na cor, revela aromas exóticos de fruta silvestre de arbusto e notas terrosas de trufas e folha de tabaco. Na boca é muito elegante e comprido, acidez a permitir o desafio de galinhola estufada.

 

# Colecção Privada DSF
Castelão tinto 2015 (14%) | JM Fonseca | 16 euros
Pontuação*: 17,5
A linha Colecção Privada da José Maria da Fonseca contempla castas da escolha e interpretação pessoais de Domingos Soares Franco. A enologia da casa passou para a geração seguinte, mas o enólogo mantém a supervisão desta linha, aproveitando para revelar aspetos matriciais do património ampelográfico da região. No caso deste vinho a escolha recaiu sobre a clássica Castelão e é aqui mostrada com a rusticidade que a caracteriza. Ameixa preta cozida, caruma verde de pinheiro e flores silvestres, num conjunto confirmado na boca com sofisticação e taninos bem presentes, capaz de contendas à mesa com carnes grelhadas e pratos de tacho como feijoada ou tripas. Termina sempre elegante e fresco.

 

# Rabo da Rainha | Lado B
Grande Reserva Lisboa branco 2020 (15%) | Adega de Belém | 25 euros
Pontuação*: 17
Há sempre muita atividade na telúrica Adega de Belém, do inspiradíssimo casal de enólogos Catarina Moreira e David Picard. Passar umas horas na sua companhia é sempre uma grande instrução, tanto pela correção das suas opções como pela alternativa válida que constituem, num mundo demasiado dominado por dogmas estáticos e demasiado conservadorismo. O arsenal técnico de que dispõem permite-lhes fazer as suas marcas com total segurança, e ao mesmo tempo há sempre histórias para partilhar. Este vinho foi produzido a partir de uvas de Touriga Franca, Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Castelão numa vinha de baixa intervenção em Bemposta, Alenquer, e dá muito prazer a beber. Equilíbrio, elegância e muito sabor.

 

# Lumina
Reserva Alentejo tinto 2022 (14%) | Rumo | 42 euros
Pontuação*: 18
António Antunes e sua mulher Marta Neto arregaçaram mangas e lançaram-se na aventura de relançamento do seu projeto vínico, outrora conhecido como Arrepiado Velho, hoje Rumo. A assistência de e parceria com António Maçanita permanece e os valores vínicos não se fizeram esperar: os novos vinhos são esplêndidos. Este é o topo de gama, uvas colhidas em pequenos talhões a norte da serra d’Ossa, castas Alicante Bouschet (80%), Tinta Miúda (10%) e Tinta Caiada (10%). Fermentações alcoólica e maloláctica espontâneas. Estágio de seis meses em barricas de carvalho francês. Está aqui mais um grande vinho alentejano, taninos muito finos, perfil muito fresco e afinado, capaz de nos transportar a outras latitudes e proveniências. Estão de parabéns.

 




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