Descobrir os encantos da Serra da Estrela antes da neve

O inverno é, por definição, a época do ano em que se ruma à serra mais alta de Portugal. Mas não é preciso esperar pelo manto branco para colher os benefícios dos seus encantos. Num percurso pela serra de autocaravana, é possível constatar que, entre Seia e Gouveia, entre praias fluviais, vilas pacatas e caminhadas na natureza, não faz falta a neve para se ser feliz.

Chegar à Torre e não vislumbrar um resquício de neve, testemunhar o teleférico imóvel, como se tivesse congelado no tempo, e ainda admirar um rebanho de ovelhas a pastar nas pistas de esqui, agora transformadas em prado dourado, é como chegar a uma terra de ninguém. Sabemos que já lá esteve gente, que aquelas instalações da Força Aérea funcionaram entre as décadas de 1950 e 70, que o restaurante de trancas à porta se anima nos meses frios; porém, em pleno setembro, não está ali ninguém.

Nesta época de rescaldo do verão, o ponto de maior altitude da serra da Estrela e de Portugal continental está longe de ser um postal estival, é até desconcertante. E talvez seja este cenário inusitado que acabe por convencer alguns curiosos a subir 1993 metros para descobrir o que acontece lá em cima naquele lugar, largado quando não há neve. Acontece, entre outras coisas, um pôr do Sol magistral que merece contemplação prolongada. Aliás, para quem viaja de autocaravana, este local é altamente recomendado para um jantar cedo, com os olhos postos no horizonte alaranjado. Sugestão: passar por Seia e comprar um sortido de queijos, enchidos e vinho na loja da Taberna da Fonte.

Quem se propõe subir os quase dois mil metros até à Torre fá‑lo também para descobrir, durante o percurso, uma paisagem de cortar a respiração, feita de montanhas que se sobrepõem e se abrem para receber lagoas. A maior e mais conhecida será a lagoa Comprida, de origem glaciar, importante reservatório de água da região.

No vale do Rossim, o tempo parou

Os espelhos de água que refrescam a serra da Estrela são, de resto, das grandes atrações durante o verão. Para a maioria. Depois, há aquela «meia dúzia» de pessoas que se fixa nas margens de água doce durante todo o ano. É o caso de Júlio Barbas que escolheu o vale do Rossim como cenário de vida. Nascido em Aldeias, uma aldeia de Gouveia, abriu no vale do Rossim um parque de campismo com uma proposta diferenciada, já que oferece yurts equipadas para estadas de verão e de inverno. Tem as portas abertas durante todo o ano, explora um restaurante também no vale e chegou a viver a tempo inteiro neste lugar, longe de tudo.

«Desde que me conheço, venho para aqui. Há um cordão umbilical difícil de cortar», conta, enquanto pousa o olhar no horizonte que, nos dias claros, oferece vistas até à praia da Figueira da Foz. Além da gestão do parque de campismo, tem uma empresa de organização de eventos.

A 30 deste mês, terá lugar uma prova especial. «Especial, porque é para malucos», alerta. Chama‑se Estrela Xtreme Triathlon e compreende quase 2 km a nado, 91 km de bicicleta e ainda 21 km de corrida em trilhos serranos. Quem preferir guardar as pernas para outras aventuras, pode sempre ficar junto à lagoa do vale do Rossim, abraçada por montanhas, a cerca de 1500 metros de altitude, e contemplar as cores que a pintam ao entardecer. Não há mais nada. Só silêncio. O sossego é quase palpável.

Gouveia é berço de Vergílio Ferreira… e de outros

Apesar de Vergílio Ferreira ter nascido em Melo (1916), aldeia do município de Gouveia, o centro da cidade faz‑lhe várias referências a começar pela Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira e pelo busto do autor, na Praça de São Pedro. Há ainda o Concurso do Prémio Literário Vergílio Ferreira, que quer promover a criação literária e descobrir novos autores (neste ano, recebe obras até ao dia 31 de dezembro). Já dizia o escritor: «Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe‑na lá!»

Fazer acontecer é expressão levada à letra naquelas paragens serranas. Numa das ruelas estreitas do centro de Gouveia, o João Bernardo criou, por iniciativa própria, uma pequena Casa-Museu da Avó. Não em homenagem à sua em particular, mas à figura da avó em geral. Dividiu o térreo de uma casa idosa em três espaços: um destinado a quinquilharia, sendo a peça mais antiga um alguidar com cerca de 150 anos; um outro que pretende reproduzir uma salinha e um quarto; e um terceiro onde está instalada a cozinha com a lareira para o fumeiro e um recanto de convívio; aqui, João serve também uns traçadinhos aos amigos.

Numa região com muitos avós e já poucos netos, a emigração é causa de uma realidade que, nos meses de verão, se inverte. Por esta altura, o bom filho à casa torna, há mais gente nas ruas e nas esplanadas, e Gouveia enche‑se de vida. Depois, há os que chegam para ficar, dinamizando um lugar que tem tanto para oferecer. É o caso de Lurdes Perfeito que, com o marido, criou a Quinta Madre de Água Hotel Rural a poucos quilómetros do centro da cidade.

Além do hotel, o projeto inclui coudelaria, produção de vinhos e queijaria. E pensar que tudo começou com a vontade de Lurdes – com vida construída em Lisboa – de ter um pequeno terreno onde pudesse criar condições para albergar os seus (mais de vinte) cães que tinham sido deixados ao abandono pelos antigos donos. Como um rastilho de pólvora, o pequeno terreno transformou‑se em dezenas de hectares, só de vinha são 17; contam‑se hoje 80 cães, tratados com todo o cuidado; 16 cavalos, 14 dos quais Lusitanos; 150 cabras, 450 ovelhas bordaleiras, e diz que o pastor atribuiu nome a todas elas. A pontuar a herdade, ergueu‑se um pequeno hotel com dez quatros, sala de estar com bela vista para vinha e restaurante que é já uma referência como, de resto, se percebe ao degustar o folhado de queijo de ovelha amanteigado, a carne de veado com puré de batata-doce e o gelado de Touriga Nacional, uma das castas produzidas na quinta.

Mesmo que não se pernoite no hotel – afinal, as temperaturas estão ainda amenas para se dormir bem na autocaravana – é altamente recomendável uma refeição no restaurante Madre de Água, uma prova de vinhos, acompanhada pela enóloga Mafalda Perdigão, e uma prova de queijos feitos apenas com leite, cardo e sal. As coisas boas, como a serra, querem‑se assim: simples e autênticas.

Trilhos pelo coração da serra

A Rota do Maciço Central, proposta da Trilhos Verdes, é para quem já está habituado a estas andanças. Difícil, o caminho corresponde a cerca de 19 km de paisagem majestosa e rude, ao longo dos quais se passa por locais emblemáticos como o Covão d’Ametade, o Covão Cimeiro, os Cântaros (Magro, Gordo e Raso), as Salgadeiras, a lagoa do Peixão (ou da Paixão), a ribeira da Candeeira, ou a Nave da Mestra (na derivação para as Penhas Douradas). Menos desafiante, mas igualmente bonita – apesar do nome! – é a Rota do Poço do Inferno. Numa extensão de 2,5 km, não falta o que ver, sendo a cascata do Poço do Inferno, com cerca de 10 metros, um dos pontos altos desta rota. Outros momentos a reter da paisagem são a vista sobre o vale do rio Zêzere e o vale da ribeira de Leandres. manteigastrilhosverdes.com

A Suíça portuguesa

Loriga merece visita. Há quem a apelide de «Suíça portuguesa» tendo em conta o seu contexto paisagístico. É das terras serranas mais bonitas e fica aninhada entre a Penha do Gato e a Penha dos Abutres, ambas com cerca de 1800 metros.

Três praias fluviais em Seia

Esta parece a terra do sempre: a água é sempre muito fria, os acessos são sempre bons, a paisagem é sempre magistral. Em Seia, há várias zonas balneares para não friorentos. Ultrapassada a questão da (baixa) temperatura da água, resta desfrutar. Só o caminho para a Lapa dos Dinheiros vale a viagem. A praia fluvial, que recebeu neste ano a Bandeira Azul, esconde‑se nas encostas íngremes de floresta e granito, e é servida pelas águas da ribeira da Caniça, afluente do Alva. A praia fluvial de Loriga tem também Bandeira Azul e aproveita as águas cristalinas da ribeira das Courelas. A envolvente faz‑se sobretudo de vegetação rasteira e pedra a emprestar algum dramatismo ao cenário. Em Vila Cova à Coelheira há uma outra zona balnear a visitar. Na verdade, aqui pode‑se também pernoitar, na autocaravana, e fazer piqueniques prolongados à sombra do parque junto ao espelho de água. Esta é das primeiras zonas balneares a seguir à nascente do Alva.