Uma viagem pela terra de Viriato

A capital do Dão é uma terra cheia de camadas e dela se tira mais partido se lá formos com a disposição de as desfrutar. Dentro e fora do centro histórico, há histórias e lugares a descobrir e pessoas que procuram criar ali uma experiência em jeito de degustação.

Chega-se a Viseu e sobem-se as ruelas empredradas até à Praça Dom Duarte e ao Adro da Sé, dá-se ali um par de voltas no pequeno centro histórico e almoça-se, porque se há algo que sabemos sobre a terra é que ali se come bem. E está visto. Estará? É provável que uma visita neste modo descomprometido não alcance muito daquilo que se pode viver em Viseu. Esta é uma cidade, e uma região, que merece ser saboreada em jeito de degustação e é isso que pessoas como Pedro Sobral e Fátima Costa têm procurado demonstrar, criando outras formas de conhecer, sentir e estar na terra de Viriato.

Ao fim de alguns anos a colecionar histórias dos lugares de Viseu, o casal, ele arqueólogo e ela historiadora, entendeu ser altura de criar uma oferta de turismo cultural à medida da cidade. E são eles mesmos, ou quem com eles trabalha na Neverending, que conduzem os visitantes por seis citybreaks cuja duração – duas horas – encaixa bem num dia de passeio. Uma das visitas mais especiais é a que se chama «De Vissaium a Viseu», na qual se percorrem quinze lugares, entre eles alguns tesouros arqueológicos, que mostram como Viseu foi mudando desde o século III a.C., passando pela ocupação romana, pelo burgo medieval e ainda pelo tempo em que foi um importante centro político, no século XII.

É Pedro quem guia a visita, sendo também um pouco o seu protagonista – foi ele quem descobriu, durante a prospeção arqueológica na altura da construção do funicular, a ara onde estava inscrito o nome romano da cidade, Vissaium, revelando a origem da palavra Viseu. Mas há outras visitas guiadas, desde a ronda pelas igrejas e pela arte sacra, à descoberta de como era Viseu no tempo dos muçulmanos, com uma visita à cava de Viriato, uma das maiores obras arquitetónicas em terra do mundo, que terá sido o acampamento das campanhas do conquistador muçulmano Almansor na Península Ibérica. «Quisemos dotar a cidade de uma alternativa para que as pessoas não ficassem tão pouco tempo», explicam Fátima e Pedro, que recentemente abriram também uma loja de recordações e um apartamento turístico, a Casa da Vigia.

E se chegar ao centro de Viseu para fazer estes passeios é fácil, já saber onde fica a aldeia de Silgueiros requer pedir indicações ou usar o GPS. Contudo, o trânsito na estrada nacional que serpenteia até àquela freguesia de Viseu tem sido em grande parte feito de forasteiros que vão ali, de propósito, jantar ao Mesa de Lemos. Trata-se de uma aposta do empresário Celso de Lemos, criador de uma marca têxtil de luxo e fama mundial, que decidiu investir em vinhos e gastronomia de alta gama na sua terra natal. Comanda a cozinha o jovem chef Diogo Rocha, natural de Canas de Senhorim, que escolheu construir carreira no lugar onde nasceu.

É um homem afável, de sorriso aberto, que encara com humildade o sucesso da sua cozinha de autor, na qual mistura as origens com algumas paixões, como a horticultura tradicional da região e a gastronomia açoriana. «Sempre se disse que se comia muito bem em Viseu, mas havia alguma dificuldade em personalizar isso. Não se fala dos chefs de cozinha», declara Diogo, que há alguns meses começou também a abrir o Mesa de Lemos de terça a sábado, quando antes servia apenas ao fim de semana. Para ele, esta consagração é apenas consequência natural de se cuidar daquilo que já existe. «Sou um crente nesta região e nas suas pessoas», diz.

É de esperar que com ele concordem Arthur Ferreira, dono da Tasquinha da Sé, e o casal que abriu o restaurante Dux Palace, o chef Luís Almeida e a mulher, chefe de sala, Vanessa Santos, e ainda o escanção Luís Moura. Nestas casas, ambas ainda nos seus primeiros dois anos de existência, trata-se o vinho com grande respeito, com primazia para o Dão.

Na primeira, mesmo no centro histórico, a dois passos da estátua de D. Duarte, encontra-se um ambiente justo ao nome: sala pequena, onde ao almoço há pratos caseiros e, ao jantar, uma toada de petiscos, pela mão de uma cozinheira que se profissionalizou na melhor das experiências – preencher durante muitos anos a mesa de filhos e netos até o genro Arthur a resgatar para sócia da Tasquinha.

A cada prato de Isilda Costa, Arthur faz corresponder uma recomendação de vinho, sabendo, além de o casar com os sabores, contar a respetiva história – o que não é pouco, tratando-se de uma carta com cerca de duzentas referências.

E bem próximo do Rossio, o Dux Palace, em estilo mais contemporâneo, assume-se como restaurante vínico. Da cozinha, saem os imperdíveis petiscos da invenção de Luís que, na mesa, vão harmonizar com vinhos de uma carta que, ao longo do ano, vai representando todos os produtores do Dão.

E, embora de copos de vinho ali não se possa esperar muito, dada a singeleza do bar, pode-se contar no Carmo81 com algo que, até há pouco tempo, não existia em Viseu. Tanto para quem sair jantado do Dux ou da Tasquinha, a distância até esta cooperativa cultural, na Rua do Carmo, vence-se em minutos a pé. Um passeio por caminhos estreitos do centro histórico, com alguns interessantes murais de arte urbana a cativarem-nos o olhar. E mesmo neste capítulo, é dentro do Carmo81, que há pouco tempo celebrou o primeiro ano de vida, que nos cai o queixo de espanto diante de uma das mais impressionantes intervenções artísticas de rua da cidade: a parede do pátio de onde emerge, em alto relevo, a cara de um lince feita em peças de automóveis, obra do artista Bordalo II.

De resto, só é de esperar passar-se bem o tempo naquela antiga oficina de motores de rega que passou a ser bar, galeria de artes invulgares, cinemateca alternativa, sala de concertos e espaço para conviver com gente de muitas origens, gostos e visões artísticas, como são os seus fundadores. O Carmo81 nasceu da cooperativa que organizou o festival de cinema Shortcutz e passou a ser a sua sede, mas há sempre alguma coisa para fazer, ver ou apreciar naquele espaço que manteve os seus genes oficinais, decorado com muitas peças antigas.

E quem ficar de barriga cheia de tudo isto, mas ainda lhe couber mais um bocadinho de Viseu na alma, não deve sair sem ir dar os parabéns aos Museu Nacional Grão Vasco, que está ainda a celebrar o seu centenário.

Além de conhecer a obra e a história de Vasco Fernandes (1475-1542), considerado o principal pintor quinhentista português, pode-se apreciar uma exposição que revela a sua influência noutros artistas. Chama-se «Além de Grão Vasco. Do Douro ao Mondego; a Pintura entre o Renascimento e a Contra-Reforma» e está patente até 5 de março. E ainda fica a saber, na visita a este imprescindível museu para todos os curiosos, como Viseu foi um autêntico caldeirão artístico renascentista. Mais uma faceta para degustar nesta cidade cheia de surpresas.

 

A Evasões recomenda

Ficar Com Amor
Esta guesthouse é um dos mais recentes lugares para ficar em Viseu, tendo surgido para criar uma alternativa à hotelaria tradicional, com investimento do casal Maria João Melo e Joel Faria. Engenheiros civis ligados à decoração de interiores, viram na casa senhorial devoluta, bem central, no Jardim das Mães, uma oportunidade de render as suas artes, mas o interior estava tão degradado que a melhor opção seria demolir. Diante do resultado, aprecia-se que tenham seguido o caminho mais difícil e aproveitar tudo quanto podiam, mesmo quando isso implicou muita luta. É por isso que se pode subir por uma bonita escadaria em madeira, ver paredes forradas a tijolo de burro e partes do antigos tabiques e alguma pedra. Neste prédio encantador, há agora sete apartamentos para turistas, que funcionam de forma independente, decorados para agradar à vista e proporcionar conforto, com cozinhas modernas, aquecimento e muita luz natural.

Loft Guesthouse Jardim das Mães
Rua Soar de Cima, 41
Tel: 919664126/966144878
Web: bemyguest.com.pt
Apartamentos a partir de 50 euros por noite

Aventuras em duas rodas
É talvez um lado menos conhecido de Viseu, mas esta é uma excelente região para andar de bicicleta, tendo sido mesmo ali, na freguesia de Santos Evos, que foi inaugurado em 2013 o primeiro circuito oficial de BTT – e esses Trilhos de Santo Ivo são uma espécie de Meca para os praticantes de BTT. São mais de 30 quilómetros de trilhos, em seis rotas com nível de dificuldade médio e alto, mais de metade delas em floresta, passando por aldeias tradicionais e com vista para a ribeira de Dornelas ou para o rio Sátão. O circuito está equipado com postos de lavagem, balneários e parques de lazer. Ainda em Viseu, começa (ou acaba) o percurso de 49 quilómetros da Ecopista do Dão, a mais comprida de Portugal, também bastante acessível para caminhantes ou ciclistas. E no concelho vizinho, Vouzela, está instalado um dos sete centros de BTT homologados pela Federação Portuguesa de Ciclismo. A partir da vila, que fica a cerca de 30 quilómetros de Viseu, também se podem explorar 200 quilómetros de trilhos sinalizados, em sete percursos, numa zona de montanhas em redor do vale de Lafões e lindíssimos enquadramentos naturais.

Comer

Mesa de Lemos
Silgueiros, Viseu
Tel: 961158503.
Web: celsodelemos.com
Das 20h00 às 00h00. Sábado, também das 12h00 às 15h00. Encerra ao domingo e à segunda.
Preço: menus desde 35 euros (sem vinhos)

Dux Palace
Rua Paulo Emílio, 12
Tel: 963004817
Web: duxrestaurante.com
Das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00; sexta e sábado até às 00h00. Não encerra.
Preço médio: 25 euros

Tasquinha da Sé
Rua Augusto Hilário, 60
Tel: 232463138
Web: facebook.com/tasquinhadase.
Das 12h00 às 16h00 e das 18h00 às 23h00; sexta e sábado até às 02h00 (sábado em horário ininterrupto). Encerra ao domingo.
Preço médio: 15 euros

Visitar

Museu Nacional Grão Vasco
Adro da Sé. Tel.: 232422049
Das 10h00 às 18h00; terça a partir das 14h00. Encerra à segunda.
Entrada: 4 euros (gratuito ao domingo)

Neverending, turismo temático
Rua D. Duarte, 55-57. Tel: 232488594.
Web: neverending.pt
Visitas guiadas a partir de 8 euros.

Sair

Carmo81
Rua do Carmo, 81.
Tel.: 232094366
Web: facebook.com/carmo81
Das 17h00 às 00h00; sábado das 15h00 às 02h00. Encerra ao domingo e à segunda.

 


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