Roteiro pela região vinícola do Alvarinho

Duas quintas em Monção que mostram, de formas muito diferentes, como se produz um bom vinho.

Para se chegar à aldeia de Santo António de Vale de Poldros, em Riba de Mouro, Monção, são precisas várias curvas e subidas, ao mesmo tempo que se vê a rede do telemóvel a diminuir a cada quilómetro.
Em lugar dela, apanha-se a rede espanhola, ao mesmo tempo que se começa a vislumbrar o país vizinho. A viagem até ao cimo é repleta de cenários de grande beleza, onde se incluem montanhas, vales e muito verde. Entre as muitas maneiras de entrar e percorrer o Alto Minho, escolhemos olhar para ele por uma porta de contraposições, embora não de opostos. Por um lado, demos um passeio numa aldeia da transumância, cuja vida se fazia entre o monte e o vale. Por outro, porque estamos na sub-região do Alvarinho, fomos conhecer duas quintas de produção assentes em modelos distintos, a revelar duas faces da vitivinicultura local.

Uma delas é um lugar de família, gerido por um filho pródigo, e a outra uma propriedade atípica na região, de grandes dimensões, na qual um emigrante investiu uma fortuna feita no estrangeiro para criar uma adega de referência. Para começar, sintamos por agora no rosto o vento que sopra fresco em Vale de Poldros, a tal aldeia que obrigou a escalar curvas e contracurvas. Estamos a 1200 metros de altitude, no meio de uma branda. As brandas, e em oposição, no sopé dos vales, as inverneiras eram as zonas para onde os pastores levavam os seus rebanhos, consoante a altura do ano.

Apesar de Vale de Poldros já não ser palco de transumância, ainda sobrevivem alguns abrigos.
As cardanhas, como se chamam, são pequenas, de granito, pitorescas e parecem saídas de um filme de fantasia, como sugere Francisco Marques, da Bliss Tours (uma das operadoras que promove visitas guiadas a esta região), que lhes chama «aldeias de hobbits», evocando o imaginário de “O Senhor do Anéis”. Está a ser feito um esforço para conservar estas relíquias da aldeia que tem apenas um habitante – por coincidência, o dono do único restaurante da zona, perto das cardanhas.

COMIDA CASEIRA

Fernando Gonçalves abriu o Val de Poldros em 2004 e, apesar de a sua vida profissional nunca ter passado pela restauração, a aptidão para a cozinha ditou-lhe o rumo e teve como resultado esse lugar onde serve comida caseira, de inspiração regional. Apesar de a envolvente natural ser magnífica, quando os pratos chegam à mesa a atenção volta-se apenas para eles. Da carta, destaca-se a deliciosa sopa de saramagos, planta silvestre muito nutritiva e abundante nesta  zona, enchidos de sabores fortes, um novilho suave, arroz com feijões afogados (prato que se fazia antigamente que leva massa, batata e feijão vermelho) e costeletão.

Como não podia deixar de ser, também há cordeiro à Monção, conhecido localmente como «foda à Monção». Avançado o nome brejeiro, sigamos para a explicação: diz-se que o nome surgiu por causa do hábito dos negociantes de gado, nas antigas feiras, darem de comer aos cordeiros erva salgada, para que inchassem e parecessem mais gordos. E os compradores, ao dar conta do engano, soltariam o desabafo «que foda!». Fechado o parêntese de mau palavreado, voltemos ao repasto, que será acompanhado por vinhão – a casta tinta mais cultivada no Minho. É impossível não reparar no amor que Fernando põe no que faz, sobretudo pela incerteza de ter ou não clientes, o que não lhe tira, de forma alguma, o bom humor.

VINHAS E VINHO

Quem também coloca muita paixão naquilo que faz é Miguel Queimado, produtor de vinho Alvarinho com o rótulo Vale dos Ares, na Quinta do Mato, a cerca de 20 minutos de carro de Vale de Poldros. Recebe-nos calorosamente na quinta, que está na família desde 1683 e que alberga uma casa de pedra recuperada, vinhas, um espigueiro, piscina e, mais uma vez, paisagens que parecem saídas de postal. O carinho de Miguel por Monção começou na infância, quando ia para a quinta passar os verões com os avós. Depois de formado em Engenharia Agrícola, e de viver em Lisboa, voltou ao lugar onde tinha sido feliz para produzir vinho.

A produção é pequena, tem apenas quatro hectares, mas distingue-se por estar a cerca de 200 metros de altitude. As vinhas recebem temperaturas menores e mais vento, o que imprime ao vinho «frescura e vivacidade», explica Miguel. O nome – Vale dos Ares – foi uma homenagem a Valadares, extinta freguesia onde se insere a sua quinta, que, por marcação, está aberta ao público – há visitas à quinta e suas adegas, assim como provas de vinho.

E quem for apreciador de Alvarinho pode e deve avançar em direção à Quinta da Pedra, em Longos Vales, a pouco mais de dez quilómetros da Quinta do Mato. Ali se encontra a maior vinha contínua da casta Alvarinho no país, com cerca de 40 hectares, contrariando os típicos minifúndios desta região. O edifício da quinta é grande, modernista, em tons de bordeaux. Este é apenas um dos vários projetos de Carlos Dias, um empresário que percorreu vários países e fez fortuna, mas decidiu vender a empresa relojoeira que fundou na Suíça, a Roger Dubuis, para investir em Portugal.

Carlos Dias reformulou a quinta toda, exprimindo devoção pelo Alto Minho – há corações de Viana na decoração e um dos edifícios evoca as muralhas de Monção, conforme vai apontando o enólogo Nelson Carvalho, que conduz uma visita por todos os pontos do processo de vinificação, destacando- -se a sala das barricas, onde a pouca luz é dada por lâmpadas coloridas. É oportunidade única para ver como se fazem produtos que ainda hão de chegar ao mercado e o que implica fazê-los.

Um dos locais mais impressionantes da Quinta da Pedra é a destilaria, que custou cerca de um milhão de euros, e teve como consultor o destilador italiano Gianni Capovilla, considerado uma das autoridades mundiais do ramo. Dos imponentes alambiques de cobre sairão destilados que deverão chegar ao consumidor no final deste ano. Destilados de vinho Alvarinho e de frutas como laranja do Algarve, pera-rocha, clementina e maçã-bravo-de-esmolfe são alguns dos sabores que a Quinta da Pedra vai produzir. Ou então provar os vinhos das castas Alvarinho e Loureiro que ali se fazem. Sair de Monção sem a barriga consolada e um travo do seu vinho é que não se recomenda.

 

COMER

Restaurante Val de Poldros
Riba de Mouro, Monção
Tel.: 251561401/934894364
Web: valdepoldros.blogspot.com
Preço médio: 20 euros

 VISITAR

Loja e Museu do Alvarinho
O vinho Alvarinho tem direito a museu desde 2015.
Fica na Casa do Curro, onde se pode descobrir mais
sobre a origem, a evolução e as empresas ligadas ao
vinho da sub-região de Monção e Melgaço. Sentir os
diferentes aromas que o vinho pode ter é uma das
experiências disponíveis. No rés-do-chão fica a Loja
Interativa de Turismo, um lugar para planear visitas
à região.

Praça Deu-la-Deu Martins, Monção
Tel.: 251649013

Quinta do Mato
Lugar do Mato, Sá
Tel.: 934459171
Web: mqvinhos.pt
Visita e prova de vinhos: gratuita

Quinta da Pedra
Longos Vales, Monção
Tel.: 251652775
Web: idealdrinks.com
Preço (visita e prova de vinhos): 7 euros

FICAR

Quinta do Convento dos Capuchos
O hotel que saiu de um convento começou
por se chamar Convento de Santo
António, uma referência ao santo padroeiro dos
religiosos capuchos. Não se sabe a data da sua
construção mas há documentos que já o referem
em 1746. Contudo, o claustro data de 1563 e
pertenceu a um outro convento, o de São Francisco,
fundado por freiras franciscanas. Em 1905, José
António de Azevedo Rodrigues adquiriu-o e está na
família desde então. Funcionou como escola e
tribunal mas hoje recebe turistas que pretendem ter
a experiência de pernoitar nas celas de um
convento. Spa, ginásio e piscinas são algumas das
suas valências. O chef Marco Conde está no
comando do restaurante mais premiado do Alto
Minho, A Cozinha do Convento, onde idealiza pratos
contemporâneos com bases tradicionais.

Antiga Estrada de Melgaço
Tel.: 251640090
Web: conventodoscapuchos.com
Preço: Quarto duplo a partir de 78 euros por noite

 

 



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