Roteiro na vila mais a norte do país. Com lampreia e não só

Junte-se aquilo que de novo ocorreu na vila mais a norte do país, tudo projetos criados com amor por filhos da terra, àquilo que nela é preciso ver para a entranhar como deve ser e temos um fim-de-semana bem passado. E os apreciadores de lampreia têm o melhor dos pretextos para se fazer à estrada, já que a temporada gastronómica da iguaria do rio Minho acaba de arrancar.

No concelho mais a norte de Portugal, existe um museu singular dedicado ao cinema, e é de estreias que começamos por falar, nesta viagem que se inicia naquilo que cheira a novo. E que termina naquilo que, sendo já vincadamente da terra, não se pode deixar de visitar para podermos dizer que estivemos em Melgaço. Sim, falamos da lampreia, já que acaba de arrancar a sua temporada, mas também da outra gastronomia alto-minhota e, obviamente, da sua riqueza natural.

Vamos, então, ao que se estreou em Melgaço e nos leva ao lugar de Pinheiro, em Paderne. É lá, a cerca de 10 minutos de carro do centro das vila, que encontramos o novo projeto de agroturismo de quatro sócios, entre eles Lurdes Gomes, que o define como «casas de campo com o conforto da cidade». As Melgaço Alvarinho Houses inauguraram no ano passado e o nome refere-se às duas casas, de estilos totalmente diferentes, situadas num terreno de dois hectares, onde também há uma piscina ao ar livre, uma vinha de alvarinho que se pode podar e vindimar, e muito espaço para descansar.

Ao primeiro olhar, as casas até espantam pelas suas diferenças. Uma é uma casa tradicional, antiga, em pedra quase dourada – a mesma pedra que segura os socalcos das vinhas. A outra é uma construção geométrica, revestida a vigotas de betão e com janelas de vários tamanhos. Contudo, dentro das casas, as diferenças quase desaparecem, porque em ambas encontramos interiores de madeira de bétula, onde reina um minimalismo quase nórdico.

Na Casa Clérigo, assim chamada por ter pertencido a um padre, a sensação de conforto é ampliada pelos tetos em forma de pirâmide dos dois quartos, e ainda pela sala com lareira e enormes janelas.

Já a Casa das Vigotas – a tal com exterior moderno – é maior, com três pisos, onde os hóspedes podem contar com um mezanino com lareira, aberto sobre a cozinha, com uma sala e três grandes quartos – com a surpresa de todos estarem em cotas diferentes. O projeto é o resultado do esforço de dois casais – Lurdes Gomes e o marido, melgacense, Pedro Soares, e da irmã deste e do seu marido Filipa Vieira e Rui Silva – que entregaram o desenho das casas ao gabinete Correia/Ragazzi Arquitetos.

As habitações contam com limpeza diária e um cesto de boas-vindas recheado de produtos da região – vinho, compotas e queijos. Estes últimos, provenientes da Queijaria Prados de Melgaço, têm uma história de regresso a casa para contar. A queijaria, que se pode visitar, fica em Prado, a dez minutos dali, e pertence ao casal Mónica e Marco, que regressou à sua terra natal, depois de ter trabalhado no Porto e em Lisboa. Naquela que é a primeira queijaria de Melgaço, pode-se entrar e conversar com os donos e até ver as cabras. Não há outros animais – ali produzem-se apenas queijos de leite caprino, de sabor forte, sendo atualmente de cinco tipos diferentes – fresco, cura de 15 ou 30 dias, com pimentão e Alvarinho, e ainda uma versão de camembert.

Um dos clientes da queijaria de Prado é outros dos novos lugares de Melgaço, que abriu em 2015, em plena Serra da Peneda, pela mão de Agostinho Alves, primeiro como restaurante de apoio às casas de turismo rural da Branda da Aveleira. Chama-se O Brandeiro e este é um nome a reter porque o mais provável é sair com vontade de regressar. Pela espetacular vista da paisagem da branda e ainda pela comida, já que serve pratos com a saborosa e tenra carne de bovino da raça Cachena, cujos animais pastam pela Serra da Peneda, acompanhada de grelos e batatas a murro. Toda a carta vai muito bem com os vinhos das castas da região – Alvarinho ou Vinhão – e, para sobremesa, conta-se com a especialidade de Melgaço, chamada Bucho Doce, que junta pão, ovos, canela e açúcar.

Dali ao centro da vila é um passeio entre paisagens de postal, pela Peneda, entre curvas e manadas de vacas e cavalos garranos.

Uma vez em Melgaço, há passeios que se podem dar, para desmoer o banquete, mas também apenas porque o centro histórico é pequeno e bonito, integrando ainda partes do antigo castelo, que foi mandado construir por D. Afonso Henriques. Do edifício inicial, resta apenas a imponente Torre de Menagem. É nela que está concentrada a maior parte do Núcleo Museológico do concelho, que se distribui por três andares, nos quais estão expostos achados arqueológicos através dos quais se descobre a terra, desde a Pré-História.

Ali ao lado, pode-se conhecer um espaço invulgar para uma terra pequena e, sobretudo, distante das grandes cidades: o Museu do Cinema, que existe graças à coleção doada ao município por Jean-Loup Passek, antigo Director do Departamento Cinematográfico do Centro Georges Pompidou, em Paris. Passek passou por Melgaço quando fazia um documentário sobre emigração, nos anos de 1970, e apaixonou-se pelo lugar. No seu espólio, ali exposto desde 2005, há objetos que ajudam a contar a história da sétima arte, anteriores ao século XIII, e até ao século XIX. Encontram-se lanternas mágicas, zootrópios, praxinoscópios, fenaquistiscópios, cartazes antigos e fotografias de personalidades importantes do cinema – e recomenda-se uma visita com tempo, pois há muito para descobrir.

E se emigração trouxe Passek a Melgaço, levou também para fora muitos dos seus filhos durante o século XX. No Espaço Memória e Fronteira, outro museu da vila, evoca-se essa fatia da história local, assim como a prática do contrabando – duas realidades das quais ainda há testemunhas vivas. Pode ver-se, entre outras pelas, um passaporte falso que permitiu a um melgacense chegar a França ou ainda o colete adaptado para contrabando de subsistência, com bolsos estreitos e verticais, que serviam para encher de arroz, café ou açúcar, e usar por baixo da roupa. Se quiser completar a visita ao quarteto de museus municipais, já precisa de se deslocar a Castro Laboreiro. No Núcleo Museológico da freguesia, somos levados até ao interior de uma casa castreja, da segunda metade do século XX e assistir ainda, como complemento da experiência, a alguns filmes sobre tradições castrejas. Uma nota a reter: o preço de entrada em cada museu é sempre o mesmo, um euro.

O que também já faz parte da história de Melgaço, é a cozinha da Adega do Sossego, uma referência – bem merecida – da vila. Esta casa, que pertence a António Castro, ocupa os dois pisos de uma antiga casa rural, onde não falta mobiliário em madeira e paredes de pedra. O naco de vitela na brasa deu fama à casa, mas há outras especialidades a ter em conta como o costeletão de boi ou o bacalhau assado. É provável que a barriga cheia dê vontade de permanecer por ali, enganando o frio serrano com a companhia da lareira. Não admira que Passek tenha preferido ficar em Melgaço.

 

ÉPOCA DA LAMPREIA… E ANIMAÇÃO

Começou há dias a temporada da lampreia no Vale do Minho e, até 15 de abril, 14 restaurantes de Melgaço vão servir, aos fins-de-semana, este peixe ciclóstomo de água doce cozinhado das mais diversas formas. Além da clássica lampreia à bordalesa, é possível prová-la também ensopada e servida com pão frito, estufada, marinada em vinho verde tinto ou fumada. A época gastronómica é ainda pretexto para uma agenda de animação, que conta com um programa de percursos pedestres, visitas às adegas de Alvarinho, visitas a pontos de interesse e desportos de natureza. Para saber mais, pode-se consultar a página do concelho, em cm-melgaco.pt.

 

FICAR

Melgaço Alvarinho Houses
Lugar do Pinheiro, Paderne
Tel.: 918685595
Web: melgacoalvarinhohouses.com
Preço: a partir de 145 euros por noite (com cesta de produtos regionais incluída)

COMER

O Brandeiro
Branda da Aveleira, Gave
Tel.: 933894259. Web: facebook.com/OBrandeiro
Todos os dias das 10h00 às 00h00
Preço médio: 15 euros

Adega do Sossego
Peso, Paderne
Tel.: 251404308. Web: adegadosossego.com
Das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 22h00. Encerra à quarta
Preço médio: 20 euros

VISITAR

Torre de Menagem do Castelo de Melgaço
Tel.: 251410191
Das 09h30 às 13h00 e das 14h00 às 17h00. Encerra à segunda
Preço: 1 euro

Museu do Cinema
Rua do Carvalho
Tel.: 251401575
Das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h00. Encerra à segunda
Preço: 1 euro

Espaço Fronteira e Memória
Rua Loja Nova
Tel.: 251402843
Das 09h30 às 13h00 e das 14h00 às 17h00. Encerra à segunda
Preço: 1 euro

Núcleo Museológico de Castro Laboreiro
Castro Laboreiro
Tel.: 251465016
Das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h00
Preço: 1 euro

COMPRAR

Prados de Melgaço
Quinta do Moinho, Prado
Tel.: 251414093
Das 09h00 às 13h00 e das 15h00 às 17h30
Web: facebook.com/pradosdemelgaco



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