Mértola: Um pulo à vila da tolerância

O município tem raízes romanas, mouras e cristãs. Fora da vila, as Minas de São Domingos e o Pulo do Lobo são outros pontos de interesse.

O título do texto poderia ter sido «um pulo à vila genuína» ou «à vila-museu». O problema é que praticamente todas as vilas alentejanas são genuínas e um museu a céu aberto. Se há região preservada tanto nas tradições como no edificado é o Alentejo. Mas Mértola tem um encanto especial.

O castelo e o casario implantado num rochedo ladeado de um lado pelo Guadiana e do outro pela ribeira de Oeiras é a imagem de marca. E é essa vista que se tem da Quinta do Vau. É preciso atravessar o Guadiana para encontrar esta casa de campo onde Maria José Costa faz as vezes de anfitriã. Casa essa que pertencia aos avós do marido, Luís Miguel.

«Abrimos em 2014, temos sete quartos, uma piscina e esta vista maravilhosa», explica, orgulhosa, apontando para um dos janelões do piso térreo enquanto serve o pequeno-almoço. A vista, só por si, vale bem a dormida na Quinta do Vau, mas o conforto dos quartos, bem como a decoração simples mas cuidada e com gosto, fazem desta casa de campo o poiso perfeito em Mértola, sobretudo para quem quer vista mas não abdica de ficar perto da vila.

Claro que, para lá do conforto da Quinta do Vau, há que explorar a vila. E o concelho. É pegar no carro, atravessar a ponte e estacionar à entrada de Mértola. O centro histórico, apesar de rico e de ter vários locais para visitar, é pequeno e faz-se bem a pé. O casario é tipicamente alentejano, casas pintadas ou caiadas de branco com faixas de amarelo ou azul, como manda a tradição. Estamos na região em que falta de harmonia é coisa rara. Aqui tudo parece fazer sentido onde está.

IGREJA DE VÁRIOS CREDOS

Talvez o melhor ponto para entender Mértola seja a sua igreja matriz, de Nossa Senhora da Anunciação. Antes de ser dedicada a uma figura do catolicismo, ali existiu um templo romano, precisamente no mesmo local. Nos idos de 1100 foi erguida uma mesquita, que um século depois foi transformada em igreja. Provavelmente naquele templo, algures entre os séculos vi e xii, tenham estado lado a lado Bíblia e Corão, já que aquele terá sido, simultaneamente, local de culto islâmico e cristão.

E este facto faz de Mértola um símbolo da tolerância religiosa em Portugal, o que é ainda mais relevante numa época em que o terrorismo em nome de um deus tem alimentado medos e preconceitos. Na pequena vila conviveram duas religiões. Para entender a história daquele templo, há um núcleo museológico por debaixo da igreja, que abriu recentemente. Ali entende- se bem as camadas que foram sendo sobrepostas, do templo da época romana à definitiva cristianização.

Estando na igreja, não há como não ir ao castelo, mesmo ao lado. A vista das muralhas e da torre de menagem valem o esforço da subida. Dali avista-se boa parte da região. Descendo a encosta passa-se pelo posto de turismo, onde se deve entrar, não só para pedir o mapa e os folhetos do costume como para visitar a Casa-Museu de Mértola, uma casinha com duas divisões e que mostra como aqui se vivia até há 50 anos. O mobiliário remete imediatamente para a época anterior à democracia e o espaço exíguo recorda que até há relativamente pouco tempo as famílias eram numerosas e dormiam sem privacidade.

Ao lado do posto de turismo fica a Oficina de Tecelagem, onde se produzem mantas de lã com motivos decorativos que se assemelham a ornamentação de tradição berbere. Ali há uma mostra de antigos instrumentos ligados à atividade da lã e do linho, e também uma exposição de tecidos.

Mas há outra oficina já depois do museu islâmico, numa das pontas da vila, a de Nádia Torres, onde se ensina a arte de ourivesaria. «Este espaço está aberto há cinco anos e fazemos workshops», começa por explicar a própria Nádia, professora de Educação Visual. «Também somos uma residência artística», acrescenta, mostrando uma parte independente da oficina que é um pequena habitação com todas as condições para a estada numa típica casa alentejana.

MIGAS AMIGAS

Para o almoço, há que procurar a Casa de Pasto Tamuje. Fica numa das principais ruas da vila e, apesar de parecer um café normal quando se entra, há atrás uma sala de restaurante. A simpatia do senhor Manuel é contagiante. Por muita variedade que haja no menu, não há que enganar: é de pedir migas com carne de porco preto. Dizer que algo é indescritível em jornalismo não é aconselhável, mas estas migas parecem de outro mundo. Crocantes em cima, textura suave e sabor delicado no interior. Mais não se pode dizer, só provando. (E tamuje, para quem não sabe, é um arbusto que existe nas margens de alguns rios, como é o caso do Guadiana.)

Não muito longe há duas lojas com produtos regionais. A Loja da Terra tem várias especialidades locais, como vinhos, enchidos, mel e é gerida pela câmara. Mesmo em frente fica a Além Cante, que tem produtos como compotas, trufas, chás, T-shirts e costas, «um bolo seco tradicional feito com a massa do pão em que se mistura ovos e açúcar e que agora se coloca compota lá dentro ». A explicação é de Marta Luz, proprietária da loja. Há também rebuçados de mel, de amêndoas e de açúcar amarelo, e um surpreendente sabonete de mel.

APRENDER COM RUÍNAS

Há ainda três núcleos museológicos que devem ser visitados. O Romano encontra-se no subsolo do edifício da câmara municipal, local onde foram encontradas ruínas de uma casa romana. Ali estão também peças e fragmentos que ajudam a entender que Mértola foi sendo sucessivamente ocupada. Noutra ponta da vila estão as ruínas da Basílica Paleocristã, instalada num edifício moderno, que esteve ativa ao culto entre os séculos V e VIII.

Era um templo funerário e podem ler- -se os nomes dos habitantes e um pouco das suas vidas nas lápides encontradas. Por fim, o Núcleo Islâmico, que guarda uma importante coleção de arte islâmica. Tem dois pisos e um filme que mostra a herança deixada pelos muçulmanos e as parecenças que ainda hoje permanecem entre as tradições do Alentejo e as de Marrocos. Tem um interessante acervo de cerâmica.

É hora de jantar, com mesa marcada n’O Brasileiro. Não, não se trata de um restaurante de rodízio ou de picanha. De sul–americano, só mesmo o nome. O dono do edifício tem essa alcunha e pretende que o nome assim se mantenha. Tem duas salas e painéis de azulejos coloridos numa das paredes com um baixo relevo de cerâmica que representa Mértola. Inês Palma sugere açorda de perdiz e estufadinho de javali. Ambos aprovados, mas há mais cozinha regional alentejana e de caça na lista. Para quem quer alguma animação noturna, a vila não dispõe de muitas opções, mas o bar Lancelot é simpático para tomar um copo.

MINAS SEM ARMADILHAS

O segundo dia é para ser aproveitado fora da vila. Porém, antes de tudo mais: há que abrir comprar a janela do quarto e admirar o Guadiana e Mértola na outra margem. Não cansa. De volta à estrada, são 18 quilómetros até à Mina de São Domingos. A mina propriamente dita, desativada há quase 50 anos, é um cenário atrativamente desolador, com escavações abandonadas no solo que criaram lagos e edifícios em ruínas. No local há placas informativas sobre toda a mina, uma aula a céu aberto. Junto à aldeia, espreita a praia fluvial da Tapada Grande, que valerá ouro quando apertar o calor.

Voltando para trás, na direção de Mértola, paragem para almoço em Corvos. E que almoço! Pode ser injusto qualificar algo como «o melhor», por isso, procedendo com a devida moderação e cautela: o restaurante A Paragem tem uma das melhores sopas de cação do país. É obrigatório pedir. A sopa é de si uma refeição, mas, já que aqui estamos, não ficaria bem não mandar vir também o ensopado de borrego. É outra especialidade da casa que não se pode perder. Tudo servido com a simpatia natural de José Dionísio Raposo e do filho Gonçalo Raposo.

Depois do almoço, a estrada segue até Pomarão, já na fronteira com Espanha. Era o porto de escoamento das minas de São Domingos. Hoje vale o passeio pela paisagem até lá chegar e pelo próprio local.
Para o destino final, é preciso voltar à estrada principal. O caminho não é fácil, mas está bem sinalizado: Pulo do Lobo. No final há um portão – que se pode abrir, caso esteja fechado – e começa o estradão para descer até ao vale, até à cascata com 20 metros de queda, no Guadiana. É um lugar de beleza ímpar. Ali não se faz nada. Ali contempla-se. Ali agradece-se.

 

FICAR

Quinta do Vau
Além Rio, Mértola
Tel.: 965645540
Preço: Quarto duplo a partir de 40 euros (inclui pequeno-almoço)

 

VISITAR

Igreja Matriz e Castelo
Web: cm-mertola.pt
Das 09h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30. Encerra à segunda.

Casa-Museu de Mértola e Posto de Turismo
Rua da Igreja, 31
Tel.: 286610109
Web: cm-mertola.pt
Das 09h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00. Não encerra.

Museus de Mértola
(Núcleo Romano, Basílica Paleocristã e Núcleo Islâmico)
Tel.: 286610109
Web: cm-mertola.pt
Das 09h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00. Encerra à segunda

 

COMPRAR

Além Cante
Largo Vasco da Gama
Tel.: 965052379

Oficina Nádia Torres
Rua Dr António José de Almeida, 6
Tel.: 966085546
Web: oficinanadiatorres.wordpress.com

 

COMER E BEBER

Casa de Pasto Tamuje
Rua Dr. Serrão Martins, 34/36
Tel.: 286611115
Das 09h00 às 23h00. Encerra ao domingo.
Preço médio: 12 euros

O Brasileiro
Cerro de São Luís
Tel.: 286612660
Das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 22h00. Não encerra.
Preço médio: 18 euros

A Paragem
Corvos
Tel.: 286616140
Das 12h00 às 00h00. Encerra à segunda.
Preço médio: 15 euros



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