Este é um dos tesouros mais bem guardados da Beira Alta

Encantadora e gentil, assim é esta pequena vila de Vouzela, encaixada entre alguns portentos beirões, como Viseu e São Pedro do Sul, mas com tantas riquezas para descobrir que se sai com vontade de regressar. Antiga região de fidalguia, que nela deixou torres altivas e casas de ricas fachadas, parece haver aqui tudo do bom e do melhor - da mesa à montanha.

Quando se sai da A25, seguindo na direção de Vouzela, começa-se a percorrer uma estrada sinuosa que nos entrega vistas de boni­tas casas encastradas em encos­tas cheias de árvores, irrompen­do subitamente, numa colina, uma torre de pedra com um intrigante es­queleto metálico.
Trata-se da torre medie­val de Vilharigues, uma das três construí­das nos séculos XII e XIII que ainda restam no concelho – e que, após um recente res­tauro, são hoje testemunhos do caráter dos fidalgos rurais da época. Senhores terrate­nentes que preferiam residir em tais rudes moradas por delas poderem emanar, do al­to das colinas, sinais de riqueza e poder pa­ra o vale de Lafões.

Este tique da pequena nobreza de Lafões deixou outras marcas, tornando o centro da vila um encantador repositório de casas bra­sonadas, que apetece fotografar em catadu­pa, pelos detalhes peculiares das fachadas. Por essas razões e por muitas outras – nomea­damente a riqueza natu­ral desta região cheia de trilhos e circuitos pedes­tres, património mega­lítico, com uma pujante floresta autóctone e rios por todo o lado – pare­ce-nos que Vouzela, ro­deada por Viseu, Olivei­ra de Frades e São Pedro do Sul, entre ser­ras como a da Freita e a do Caramulo, será um dos tesouros (e segredos) bem guarda­dos na Beira Alta.

Outra razão para entesourar esta terra é que lá se come muito bem, das entradas de fumeiro beirão com broa de milho – milho verdadeiro, com as espigas amarelas a es­preitar-nos à estrada -, às sopas de lavra­dor em potes de ferro, prosseguindo pela tenra vitela de Lafões e outros animais de pasto levados ao forno. Terminando, ó glória do paladar, no delicado pastel de Vou­zela e a sua cama de doce de ovos sob véus de massa fina e um nevoeiro de açúcar. Em havendo vontade de provar um, ou mais, é melhor começar por um lanche antes do passeio pela vila – para isso, apenas fazem falta pernas para andar e há, portanto, que encostar o carro.

Antes, porém, vale a pena uma passagem pelo posto de turismo, onde se encontra in­formação útil e clara sobre cir­cuitos de natureza ou das três torres, mapas e ainda brochu­ras do Parque Natural Local Vouga-Caramulo, zona de per­cursos pedestres e de BTT.

Fica poucos metros adian­te o Café Central, generi­camente nomeado como o melhor para comer os pastéis de Vouzela. Lá dentro, entre paredes com painéis de azulejos, cria-se um efeito sala de estar onde se conver­sa familiarmente entre mesas. E os pastéis, feitos pelas mesmas mãos para aquela casa há 45 anos, são apenas a mais famosa espe­cialidade – também há folares de Vouzela, entre outros doces, e a gentileza de Fátima Martins, que tomou conta do negócio dos pais, que pegaram também, no seu tempo, naquele que era o mais antigo café da terra.

Do Café Central, siga-se em passeio pe­la pequenina vila, cujo essencial pitoresco se vê descendo pela Rua Conselheiro Moraes Carvalho, até à pracinha com a estátua deste no­tável e a Capela de São Frei Gil, na qual se pode visitar o Museu Municipal que alberga uma mostra per­manente de arte sacra e etnografia. Daí, é baixar pela Rua São Frei Gil até à ponte de origem romana (mas descaracterizada em obras poste­riores) sobre o rio Zela, parecendo que se vai cada vez mais entrando numa al­deia de antigamente.

Nesta rua ficam muitas antigas casas fi­dalgas, com interessantes pormenores ar­quitetónicos nas fachadas, algumas delas a parecer castelos. Dali, contornando o rio Ze­la do vale de Lafões, e os casarios de Oliveira de Frades a São Pedro do Sul.

Na descida, pode-se também compen­sar em consolo o que se ganhou de apeti­te, dedicando a hora de almoço ou jantar a um dos restaurantes de maior fama da vila – cuja substância se adivinha quando, ao pas­sar os portões da quinta (já que se trata efeti­vamente de uma quinta), se vê a cozinheira sair da capoeira com um carregamento de ovos. É Maria Alice, ou tia Alice como é co­nhecida em Vouzela, a tratar de abastecer a cozinha, que processa muito do que ali se produz, naquela propriedade familiar, des­de legumes a animais de pasto.

Há dez anos que Maria Alice e o mari­do, António Matos, gerem o restaurante da Quinta da Cavada, estando agora em proje­to um espaço de campismo. Na carta, que é suculenta, estão sempre pratos de forno ou da grelha regionais, como a vitela de La­fões e o cabrito da serra, e ainda os arrozes, as açordas, as cabidelas, as alheiras e os fumados que António descreve com indisfar­çável orgulho. Enquanto se escolhe, chega à me­sa a sopa de lavrador em pote de ferro. E no que toca a vinhos, pode-se confiar no que ele suge­re, boa parte, claro está, produto ali do Dão.

Sendo este um passeio que habitua os olhos a belas panorâmicas, consegue-se um pleno quando se recolhe a um dos mais re­centes alojamentos de charme de Vouzela, a Quinta do Fontelo em Vilharigues. Próxi­mo do centro da vila, este hotel rural abriu há cerca de um ano numa propriedade fa­miliar, com apenas três suítes, que ocupam uma casa com vista para o vale, toda cheia de confortos, incluindo uma piscina junto da qual se pode almoçar refeições leves.

Está prestes a crescer, com a construção de uma nova ala com trinta quartos e uma arquitetura integrada na paisagem. Por ago­ra, é um lugar suavemente luxuoso, perma­nentemente adoçado pelas atenções e pela presença de Vanessa, a simpática rececio­nista; de Lúcia, cozinheira de tudo o que se deseje (incluindo refeições beirãs, servidas numa cozinha regional); e ainda de António, que gere toda a enorme quinta e conduz os hóspedes por passeios pelos bosques, sa­bendo apontar todas as árvores e arbustos.

Consoante se deseje, é um bom lugar pa­ra se partir à descoberta de Vouzela. Ou en­tão, descansar no final da exploração deste tesouro da Beira Alta.
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Evasões Recomenda

Comprar

Café Central
Praça da República, 8
Tel.: 232771274
Das 07h00 às 20h00. Não encerra.
Preço: 1 euro (pastel de Vouzela)

Cabaz de Sabores
Rua Morais Carvalho, 30
Tel.: 232779055/ 961767631
Das 09h30 às 12h30 e 14h30 às 19h30. Não encerra.

Visitar

Museu Municipal de Vouzela
Praça Morais de Carvalho
Tel.: 232740710
Das 09h30 às 13h00 e das 14h00 às 17h00; fim de se­mana, só abre à tarde. Encerra à segunda.

Comer

Restaurante Quinta da Cavada
Porto Salto
Tel.: 232772602/ 964820472
Web: quintadacavada.com
Das 12h00 às 14h30 e das 19h00 às 21h30. Encerra à terça.
Preço médio: 18 euros

Ficar

Quinta do Fontelo
Vilharigues
Tel.: 232778097
Web: quintadofontelo.com
Suíte para duas pessoas partir de 103 euros por noite (inclui pequeno-almoço)


Torres e Montanhas

As três torres medievais que ainda existem em Vouzela são todas visitáveis e estão recuperadas, valendo bem a pena percorrer estas antigas habitações dos fidalgos rurais dos séculos XII e XIII Há a do Paço de Vilharigues, a de Alcofra e a de Cambra – a levar cesto de piquenique, é nesta última que se deve abri-lo, já que fica situada num pequeno parque verde na margem do rio Alfusqueiro. No que toca a passeios de natureza, há nove percursos pedestres sinalizados no concelho de Vouzela.

Um dos mais famosos, o circuito da Penoita, entra pela serra do Caramulo, até mil metros de altitude. Pode-se ainda explorar a mancha verde da Reserva Botânica do Cambarinho e, dentro do Parque Natural Local Vouga-Caramulo, dar um passeio até à albufeira de Meruje (foto em cima), perto da qual se encontra um dos dólmens de Vouzela, o da Lapa de Meruje.



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