Coimbra: Um roteiro pela cidade dos estudantes

No coração da cidade há restaurantes e bares, história, música e irreverência estudantil. Motivos fortes para subir do Quebra Costas à Sé Velha, numa visita com sabor bem português, em que se recordam os cantores Zeca Afonso e Hilário. Este último dedicou-se ao fado de Coimbra no século XIX, mas hoje provavelmente teria estatuto de estrela rock.

Quando se entra no Serenata Hostel Coimbra, no Largo da Sé Velha, as cabeças erguem-se, espantadas com a beleza do edifício, que conserva imagens e frases sobre mães e crianças nas paredes. Nota-se que em tempos, além de ter sido orfanato e conservatório de música, acolheu a maternidade Bissaya Barreto. Uma ampla escadaria de madeira atravessa três pisos, divididos por temas: personalidades, jardins e academia. Os quartos têm nomes como Miguel Torga, Jardim Botânico ou Capa negra, pois tudo se refere à cidade neste hostel que é quase um hotel. Basta pensar que no dia dos namorados reuniu num quarto pétalas, champanhe e velas de cheiro a pedido de um hóspede.

«As pessoas perdem-se de amores» pelo lugar, onde se procura atender desejos, conta o diretor, Hugo Murta. No início do ano, houve mudanças no sentido de prestar melhor serviço aos clientes, que dispõem de 56 quartos de várias tipologias, desde suites até camaratas, passando pelo novo quarto família, para quatro pessoas.

A Maria Portuguesa também convida a levantar o olhar, com as suas chávenas a pender do teto. Mas destaca-se sobretudo a memória de Zeca Afonso, presente em imagens e palavras. É que este restaurante na Rua Joaquim António de Aguiar fica no prédio onde morou o «trovador da liberdade», como se lê numa placa já do lado da Sé Velha. O espaço, que outrora foi padaria e leitaria, continua a matar a fome: é uma casa de petiscos assentes na cozinha tradicional portuguesa, com adaptações. A disponibilidade para modificar os pratos torna a Maria apetecível para vegetarianos e veganos. Os tomates recheados com bacon facilmente trocam a carne por legumes ou cogumelos salteados, por exemplo.

O prato mais emblemático é o bacalhau em cama redonda (a base é um portobello), e há uma novidade: lasanha do campo ao mar, disponível por encomenda.

Este é, acima de tudo, um sítio de partilha. Para todos irem debicando, os pitéus são servidos à medida que saem da cozinha, continuamente aberta, explica Eva Duarte, a chef que às vezes até canta quando lhe perguntam sobre Zeca. Convém fazer reserva, porque só há onze mesas, esplanada incluída.

No vizinho Fado Hilário, a música é outra. Este lugar com história nas paredes e melodias no ar tem por detrás a associação cultural homónima, apostada em promover o fado. Hilário foi o primeiro cantor de fado de Coimbra realmente conhecido, no século XIX, explica Manuel Portugal, músico e membro da direção, vincando-lhe a extravagância: «Se fosse vivo, provavelmente seria um ícone rock ou pop. Ficou célebre uma atuação dele em que atirou a guitarra para o público.»

A casa, como Hilário, não pretende ser convencional. Há um espetáculo diário, às 18h45 horas, em que se explica o lugar, assim como a marca romântica que distingue o fado de Coimbra. O bilhete dá direito a provar um produto endógeno, que pode ser um copo de jeropiga caseira. Nas paredes sobressaem fotografias como a da estreia da Trova do vento que passa, em Lisboa, nos anos 1960, estava o país em ânsias de liberdade. A música é de António Portugal (pai de Manuel, nem de propósito), que surge no retrato com Adriano Correia de Oliveira e Rui Pato.

Ao lado fica a República dos Kágados, com a sua fachada repleta de objetos curiosos. À saída do Fado Hilário, pode sempre acionar-se a «campainha dos Kágados» – ou seja, gritar pelos repúblicos («Kágados!») – e esperar que abram a porta, comenta Manuel, ele que apelida a Velha de «coração de Coimbra» e «território sagrado do fado», lembrando que à noite Adriano Correia de Oliveira costumava desafiar Zeca a ir com ele cantar para as escadas daquela catedral do século XII.

O monumento, construído segundo o modo românico, está aberto a visitas, exceto durante as cerimónias religiosas. Tem uma oliveira milenar, símbolo de paz e harmonia, que é visível da rua, mas só entrando se pode apreciar as suas capelas, pinturas do século XVII e conchas tridácmas vindas do Oceano Índico na primeira metade do século XX. Sem esquecer o claustro do século XIII, de transição do românico para o gótico, de onde se avista a torre da Universidade a curta distância.

Na catedral há livros, postais e réplicas de azulejos sevilhanos da Sé Velha do século XVI à venda. Para lá das suas paredes, as compras prosseguem sem esforço. No Largo encontra-se cerâmica artesanal de Coimbra e de outros pontos do país, e descendo ao Quebra Costas chega-se à Trouxa Mocha, uma loja que abraça a herança portuguesa dando-lhe um toque urbano.

Os artigos são produzidos em oficinas tradicionais. Entre os mais icónicos estão os sapatos e botas de croute, calçado de trabalho atualizado com atacadores coloridos, rendilhados e outros detalhes. Ou as bolsas e mochilas com tecidos cujos padrões, familiares, vão do xadrez às cornucópias. Sapatilhas militares, mantas de pastor, boinas e pólos são outros atrativos da loja, que conserva livros do armazém de alfarrabista que a precedeu e se prepara para receber novos produtos, adianta Eduardo Mota, um dos responsáveis pela casa.

Por agora, a novidade mais recente do Quebra Costas serve para adoçar a boca. A Anita da Tripa, centrada no doce típico de Aveiro que lhe dá o nome, acaba de abrir. O espaço, cuja decoração lembra os palheiros caraterísticos da Costa Nova, disponibiliza tripa doce com diferentes recheios, bolacha americana e «o genuíno ovo mole de Aveiro», assegura Carlos Carvalho, que esteve no Cais de Gaia antes de se instalar em Coimbra.

Ângela Leandro, gerente da Maria Portuguesa e responsável pelo bar Muralhada, também junto ao Quebra Costas, diz que a zona está mais viva desde há dois anos, justamente devido à abertura de novos espaços. O coração pulsa.
A Evasões Recomenda

Ficar

Serenata Hostel Coimbra
Largo da Sé Velha, 21/23
Tel.: 239853130
Web: serenatahostel.com
Quartos duplos a partir de 49 euros por noite; camaratas a partir de 15 euros por cama/noite (inclui pequeno-almoço)

Comer

Maria Portuguesa
Rua Joaquim António de Aguiar, 128
Tel.: 925344924
Web: facebook.com/mariaportuguesacoimbra
Das 11h00 às 22h00; sexta a domingo, até às 23h00. Não encerra.
Preço médio: 13 euros

Anita da Tripa
Rua de Quebra Costas, 50
Web: facebook.com/anitatripa
Das 12h00 às 00h00. Encerra ao sábado.
Preço: a partir de 1/1,20 euros, bolacha americana/tripa doce

Visitar

Fado Hilário
Rua Joaquim António de Aguiar, 110
Tel.: 911505770
Web: facebook.com/fadohilario
Das 11h00 às 20h00. Não encerra. Espetáculo às 18h45 (duração: 45 min.; entrada, 10 euros)

Sé Velha
Largo da Sé Velha
Tel.: 239825273
Web: sevelha-coimbra.org
Das 10h00 às 18h00; domingos e feriados religiosos, a partir das 13h00. Não encerra.
Visita: 2,50 euros

Comprar
Trouxa Mocha
Rua de Quebra Costas, 18
Tel.: 239047751
Web: facebook.com/trouxamocha
Das 10h00 às 19h00; domingo das 12h00 às 18h00. Não encerra.



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