Abrantes: boa comida e belas vistas para o Ribatejo

Do rio ao topo do castelo, de onde se avista meio Ribatejo, atravessa-se uma cidade de aldeias. De mesas de aconchego, de lojas que vendem frescura, de doçaria de antologia. O Tejo também é isto.

Não há cliente que entre no Santa Isabel que Alberto Lopes não vá cumprimentar. Alberto é já quase um ex-líbris local, uma daquelas pessoas que quem é da terra refere apenas pelo primeiro nome. «Foram almoçar ao Santa Isabel? Então de certeza que conheceram o Alberto». As expectativas são altas, afinal este seu restaurante com 23 anos de serviço surge recomendado no Guia Michelin.

E não é que ainda as excede? E isto sem exageros, basta lembrar os filetes de polvo com arroz malandrinho de feijão ou o churrasquinho de porco preto com migas de alheira, migas de espargos e esparregado. Não é sítio para fracos, é certo, há que reservar aquele espaço para o fidalgo, doce de gemas de ovo que encabeça as sobremesas.

Se a ideia for continuar na doçaria, basta descer um número de porta e estamos na fábrica da pastelaria Palha de Abrantes, negócio de família que Daniel António abriu em 1964. Hoje é o seu filho, Pedro António, que gere fábrica e pastelaria. Se a especialidade está explícita no nome, outra doçaria marca pontos. É o caso da broa de mel com batata-doce, receita da casa, que se revela uma surpresa.

Abrantes é uma cidade relativamente pequena, de se explorar a pé, com paragem para compras nas lojas da Rua Alexandre Herculano.

A Raízes, ao virar da esquina, abriu há ano e meio e vende sobretudo produtos regionais. As proprietárias Anabela Vieira e Susana Antunes queriam que o público local encontrasse ali um espaço de produtos com os quais se identificasse. Aliás, está escrito na parede, em jeito de motivação: «Porque acreditamos na nossa cidade». No primeiro andar, está a secção da loja dedicada aos comes e bebes. Vinhos, doces, snacks, fruta. O mesmo que Sandra Nascimento tem na Merceneta, onde, faz questão de realçar, «só se vende produtos frescos, menina» e que há dias – terças e quinta – especialmente dedicados às verduras.

Mais à frente, no número 22, entrar porta adentro é embarcar numa viagem no tempo. A Drogaria Nova abriu em 1943, pela mão de Vitor Borda d’Água, que se escreve exatamente como o almanaque que está no balcão. Joana, neta do fundador, tomou conta da loja e deu-lhe uma cara mais atual, sem lhe tirar identidade. Nas prateleiras amarelas de madeira estão detergentes, vassouras, talheres e panos do pó mas também a Pasta Medicinal Couto, louças Bordalo Pinheiro, artesanato com estilo moderno, doces regionais. «É a diversidade da oferta» que, garante Joana, a diferencia da concorrência.

Na parte mais antiga de Abrantes respira-se um tempo diferente. A estrada empedrada, as casas de faixa amarela. Flores à porta e nas janelas, a fazer lembrar a tradicional Festa da Primavera, os gatos que passeiam sem se importar com o trânsito. As freguesias circundantes ao castelo, São João e São Vicente, são aldeias dentro da cidade. Entretanto se chega à fortaleza, onde o miradouro é imperdível e a paisagem vai até onde a vista alcança, com o Tejo mesmo ali adiante. A qualquer hora vale a pena. Ao final da tarde, com o pôr do sol a pintar o céu de tons laranja e rosa, vale mesmo, mesmo a pena.

Para visitar, há também a igreja de Santa Maria do Castelo, convertida no Museu Municipal Dom Lopo de Almeida, onde estão coleções de esculturas dos séculos XV e XVI, e painéis de azulejos sevilhanos.

Da colina vê-se a ponte de Abrantes e é mesmo por baixo, em ambas as margens, que fica o Aquapólis. Pensado para incentivar os abrantinos a praticar mais atividades ao ar livre, este parque é excelente para fazer desporto, passear, passar tempo em família. De dia ou com as luzes da noite que iluminam o caudal do rio.

O roteiro não se esgota em Abrantes. Saindo da sede de município, encontra-se outras terras com histórias para contar. Estas, ainda melhor, são de comer.

Alferrarede fica logo ao lado. Foi ali que Sandro Martins e Ana Silva, marido e mulher, deitaram mãos ao trabalho quando se viram desempregados, em 2014. Arriscaram e abriram A Taberna, uma tasca de toque moderno com petiscos que começou por ser apenas um projeto a dois. O negócio foi crescendo e hoje, para se ir ao fim de semana, há que ter reserva. Para tal, contribuiu muito, para além da simpatia de ambos, o tempero de Ana. As tiras de choco panado têm um sabor diferenciado graças ao açafrão usado na preparação. Nas sobremesas, há crumble de frutos silvestres, baba de camelo com raspas de limão e outras de lamber a colher. Para dinamizar as noites acontecem, uma vez por mês, sessões de música ao vivo, e por ali já passaram António Pinto Basto e José Cid.

Não, o estômago ainda não se fartou. No restaurante A Cascata, ainda em Alferrarede, podem provar-se alguns dos pratos mais típicos da região. Maranhos – estômago de cabra recheado com carne, enchidos, arroz e hortelã – bucho de porco, cabrito do monte, miolada da beira – carne de porco com miolos e pão – ou achigã (peixe de água doce) com migas são algumas das sugestões de Fernanda Pires, a proprietária e figura incontornável deste espaço que abriu em 1983.

A exploração pode ainda continuar, desta feita no Pego. Nesta terra de migrantes, há uma tradição que tem sobrevivido ao tempo e à desertificação. As quartas do bucho e da tripa são sagradas para os nativos, que se dirigem a uma das três ou quatro casas que ainda existem (já foram dezenas). Na D. Benta, morada que, de tão escondida, só quem é de lá poderia conhecer, cozinha-se as entranhas do porco desde 1890. Servidos com pão e limão, não precisam de muito mais para fazer as delícias de quem ali vai há anos. No final de tudo isto, caso as calorias pesem na consciência, tem-se o pretexto certo para dar bom uso ao Aquapólis – num passeio digestivo noturno ou numa corrida matinal na manhã seguinte. Sempre com o Tejo por companhia.

 

 

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