Nervos e lágrimas numa noite de estrelas gastronómicas

Alexandre Silva viu o seu projeto de menos de um ano consagrado. Sá Pessoa entra finalmente na galáxia, o eterno candidato Rui Paula viu um investimento de 750 mil euros reconhecido, Vítor Matos, consegue o feito de fazer transitar uma estrela de um restaurante para outro, Sergi Arola aposta em Portugal e vence, e Joachim Koerper bisa, na Madeira. Não chegaram todas as estrelas prometidas, mas os chefs que compareceram não vieram ao acaso: 11 novas estrelas para Portugal. Organização e participantes reconhecem que foi uma noite histórica. Com a gastronomia ibérica no auge, o Guia Michelin 2017 traz mais novidades.

Diz-se dos casamentos que “festa molhada é festa abençoada” e foi essa a expectativa perante o dilúvio que se abateu ao final da tarde na região da Catalunha. O Mas Marroch, o centro de eventos do Celler de Can Roca, dos irmãos Joan, Josep e Jodi Roca, em Vilablareix, às portas de Girona, recebeu os cerca de 400 convidados e 100 jornalistas que vieram para o anúncio das estrelas do Guia Michelin 2017.

Os chefs portugueses convidados deixavam adivinhar o que se confirmaria depois, serem os consagrados da noite, mas até cada um ser chamado a dúvida era grande. Eles próprios dizem que o único indício é serem convocados, mas garantem que não são informados. Só Martin Berasategui, que viu o Lasarte, de Barcelona, ganhar a terceira estrela confidenciou à Evasões: “Não disse a nenhum jornalista, já sabia que ia ganhar, mas não dormi um minuto ontem e chorei toda a noite, como uma criança. É um dos dias mais felizes da minha vida, estar de jaleca, entre cozinheiros, a celebrar aquilo que gosto de fazer”. É destas e de outras emoções que se faz a cozinha que os coloca neste patamar. Benoît Sinthon sublinhou isso mesmo quando depois de receber a segunda distinção: “É uma responsabilidade chegar até aqui, mas se há prazer e generosidade no que se faz, nada pode dar mais prazer do que cozinhar e isso é só o que importa”.

Os novatos no firmamento

A cerimónia foi breve deixando espaço para a prova de alguns pratos, bebidas e troca de cumprimentos. Juntos, digeriam o que lhes tinha acabado de acontecer. Foi uma verdadeira loucura a consagração de Alexandre Silva que nem leva um ano no Loco e muitos críticos desconfiam do conceito out of the box.

Para Sá Pessoa, cujo Alma reabriu no final de 2015 com um novo espaço, uma equipa consistente e outras ideias, é o reconhecimento do esforço e dedicação de quem há tantos anos tentava entrar nesta “galáxia”. O mesmo se pode dizer de Rui Paula, eterno candidato, que saboreou agora a atribuição da estrela Michelin, depois de um investimento de 750 mil euros na Casa da Chá da Boa Nova, em Matosinhos, obra emblemática de Siza Vieira. Vítor Matos, no Antiqvvm, repete a proeza no restaurante portuense que abriu no final de 2015, depois de ter mantido durante cinco anos uma estrela para a Casa da Calçada, em Amarante. Sergi Arola, que ainda há um mês decidiu fechar, o restaurante bandeira em Madrid com duas estrelas, ganha uma para o Lab, no Penha Longa, em Sintra. E Joachim Koerper vê o William, no histórico Reid’s Palace da Madeira ser distinguido — a ilha triplica assim os seus resultados.

Ainda com os nervos à flor da pele, Miguel Laffan estava a digerir o recuperar da estrela perdida. “Tem um sabor diferente da primeira vez que recebi, porque lutei muito para não deixar que os ânimos interferissem no resultado”. Seguiram-se os chefs com duas estrelas, a que se juntam Benoît Sinthon e Ricardo Costa, ao lado de José Avillez, Hans Neuer e Dieter Koschina.

Lisboa cada vez mais apetecível

Ao evento veio a Secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, enquanto o Primeiro-ministro António Costa enviou por WhatsApp os parabéns à organização, isto quando as duas partes já andam “a namorar” a possibilidade de Lisboa receber o próximo evento, em 2017. “Estamos a estudar essa possibilidade e é algo que queríamos muito. Portugal está a evoluir muito, tem muito talento e esta edição demonstrou que vai continuar a dar que falar”, referiu o director de comunicação do Guia Michelin, Ángel Pardo.
Enquanto isso, o novo guia vai chegar às bancas com um “visual, mais intuitivo e mais moderno” e deixando o protagonismo para os restaurantes. Entre os Bib Gourmand (boa relação qualidade-preço, com refeições abaixo dos 35€ em Espanha e 30€ em Portugal) há duas novidades: Vila do Peixe, em Câmara de Lobos, Madeira, e Brasa, em Macedo de Cavaleiros. Há ainda uma nova categoria, “o prato Michelin” como reconhecimento pela cozinha de qualidade praticada pela casa seleccionada. No total, a Península Ibérica reúne nove restaurantes com três estrelas, 28 com duas e 166 com uma, os Bib Gourmand são 35. Traçado o mapa gastronómico, já se sabe que as reacções não são muito diferentes das corridas às salas de cinema depois de uma noite de Óscares, os telefones não vão parar de tocar para reservas…



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