Feitoria do Cacao: chocolate autêntico, do grão à tablete

A Feitoria do Cacao produz chocolate artesanal a partir de grãos de cacau de quatro países. Uma portuguesa de Viana do Castelo e uma japonesa de Quioto criaram, em Aveiro, a primeira fábrica nacional a trabalhar segundo um princípio socialmente justo.

As protagonistas desta história são uma dupla improvável – uma portuguesa de Viana do Castelo e uma japonesa de Quioto, que se conheceram em Aveiro e acabaram a partilhar um sonho doce. Tomoko Suga, de 48 anos, chegou a Portugal há 15 anos, com o intuito de aprender mais sobre o fado e a gastronomia. Estava longe de imaginar que iria derreter-se pelo desejo de uma portuguesa de fazer chocolates. E agora, é das suas mãos, que trabalham lado a lado com as de Susana Tavares, de 37 anos, que sai – garantem ambas – o único chocolate luso «bean-to-bar», totalmente artesanal e socialmente justo, a partir de um pequeno espaço em São Bernardo, Aveiro.

A Feitoria do Cacao começa a desenhar-se em 2013, fruto de alguns amargos de vida. Susana Tavares, auditora interna numa empresa de telecomunicações, ficou desempregada e decidiu mudar de vida. «Queria fazer algo em que as pessoas ficassem felizes por me ver e não com medo», explica. A empresária que há anos rumou a Aveiro, cresceu em Viana do Castelo, perto da primeira fábrica de chocolate do país, a Vianense, e nunca lhe saiu da memória o cheiro a cacau torrado que se espalhava pela cidade. Alimentou-se dessa memória olfativa o sonho de fazer bombons em Aveiro, para o qual aliciou a amiga Tomoko. Juntas, procuraram descobrir onde começava o chocolate e visitaram as roças de cacau de São Tomé e Príncipe.

A realidade triste que lá encontraram levou-as a redefinir a ideia de negócio. «Foi um choque. A pobreza material e a humildade dos trabalhadores contrastava com a imagem de riqueza que temos das empresas de chocolate», conta Susana Tavares. Foi assim que, depois dessa viagem, optaram pelo conceito bean-to-bar, procurando contribuir para a eliminação da injustiça que conheceram. Neste modelo de negócio, em vez de se comprar pasta de cacau já processada para produzir chocolate, adquirem-se os grãos de cacau diretamente a um produtor a um preço justo e eliminando intermediários. Depois de escolherem aquele cacau de qualidade na sua origem, as chocolateiras de Aveiro fazem tudo o resto: torram, separam as cascas, moem em mó de pedra, refinam, temperam, decoram com desenhos de folhas de cacau e embalam à mão. Para chegar a este ponto, foi preciso fazer formação e tanto Susana Tavares como Tomoko Suga frequentaram um curso de Chocolate Maker e outro de Chocolatier, na Escola Profissional das Artes do Chocolate, em Vancouver, no Canadá.

A vida das duas tornou-se um vaivém de viagens em redor do cacau e do chocolate. Os grãos que usam na Feitoria chegam-lhes em sacos provenientes da Nicarágua, Jamaica, Venezuela e Belize. O chocolate que ali se faz leva apenas ingredientes naturais (cacau, manteiga de cacau, açúcar e, no caso do chocolate de leite, também leite em pó), para não alterar o sabor único de cada colheita de grãos. Todas as quatro variedades têm um teor de cacau acima dos 50%. Nesta alquimia, geram-se os sabores únicos que ali se podem provar. O cacau do Belize é mais frutado. O da Jamaica tem um leve gosto a nata e avelã. O de Nicarágua tem um travo a passas e melaço e é enriquecido com pequenos grãos partidos. Cada nova colheita de grãos traz nuances distintas de sabor, pelo que vale a pena repetir. E se não comer logo, pode ter outros sabores à espera. É que, segundo explicam estas fazedoras de chocolate, estes doces são como os vinhos – os aromas e sabores alteram-se com o tempo. Em breve, os clientes poderão também descer à cave e conhecer o processo de fabrico.

Este artigo foi publicado na versão impressa da edição de 18 de março de 2016 da revista Evasões.



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