Crítica Fernando Melo: O novo modelo de restaurante urbano

LISBOA. Potencialmente viciante, o Sem Dúvida tem tudo o que é preciso para viver. Vive-se o vinho e o produto de forma tão especial que o tempo passa sem darmos por ele. Está aqui o novo grande modelo de restaurante urbano, para usar e abusar.

Encontrar duas pessoas que tenham o mesmo restaurante de todos os dias é mais difícil do que acertar no pleno do Euromilhões com uma aposta simples. Aquele tipo de restaurante para onde levamos o jornal à hora do almoço e ninguém nos faz perguntas, a sequência de atendimento é automática, e a aprovação do prato proposto por quem atende instantânea.

Filhos, amigos, colegas, romance, tudo e todos gostamos de fazer convergir para esses lugares mágicos que se tornam nossos. É por isso que não há duas pessoas que tenham os mesmos e tendo, há-de ser por razões diferentes. No fio eterno do tempo, contudo, são estas as casas que nos salvam e amparam.

Sérgio Rodrigues, proprietário e alma do Sem Dúvida, no início da contagem das portas da Elias Garcia, sabe tudo sobre o assunto. Os seus pais, ambos transmontanos, são os proprietários do Ouriço, quase ao virar da esquina, na Defensores de Chaves, desde há mais de quarenta anos. Mais do que Sérgio, que ainda vai nos 37 e que por razões óbvias nasceu em Lisboa, tinha o Ouriço 5 anos. Cresceu ali, a conviver com a família alargada dos clientes e a deixar entranhar-se o vício de os servir como em casa. Saiu da escola de hotelaria do Estoril e após cinco anos no restaurante decidiu que a sua vida passaria por abrir a sua própria casa.

Sem sombra de dúvida, nascia em 2008 o Sem Dúvida, espaço de cascaria, mesa de amigos e palco dos melhores vinhos do país. É copiosa a garrafeira, de resto feita parede da luminosa sala. Nas sugestões do chef estão a oferta do dia, à maneira da cozinha de mercado, os pratos de tacho da cozinha de tradição, e as carnes de um receituário a um tempo familiar e vanguardista.

É por isso que há garbo nos jaquinzinhos fritos com arroz de tomate (12,50 euros), sabor intemporal no arroz de lingueirão (16,90 euros), e glória na vazia de vitela no forno com mostarda antiga (13,50 euros). Inquietude em tudo, desinstalação como lema. A maravilha que é aterrar numa cabeça de garoupa cozida (27 euros/kg) ou numa alheira mirandesa com batatinha a murro e legumes (10,90 euros).

As entradas formam um percurso que é obrigatório percorrer de lés a lés, sem falhas nem omissões. Vezeiras as amêijoas à Bulhão Pato (16 euros), mas em poucos lugares mais são feitas como aqui, sente-se a redução do vinho branco sobre um azeite que já castigou bem o alho, e o fundo inefável do bivalve que entra vivo no suplício.

Rasgo criativo inesperado nas alcachofras salteadas com tamboril marinado (10,50 euros), verdura que detesta vinho mas nesta preparação torna-se sua grande aliada. Queria sempre, todos os dias, os ovos mexidos com farinheira (7 euros) que a brigada prepara, e para um branco daqueles, a companhia da trouxa de queijo de cabra com mel (8,50 euros).

Na carta fixa contamos sempre com o lombo de robalo com fritura de tomate e ervas aromáticas (12,50 euros), impossível não tentar fazer em casa, e três bacalhaus, pena nenhum deles ser Gomes de Sá nem Brás. As carnes maturadas já constam, assunto espero que a desenvolver, que não há bons bifes nem grelhados sem elas. E as sobremesas – toucinho do céu com gelado de limão (5,50 euros) e tarte de amêndoa crocante (4 euros) – são doces terminações. Como se fosse possível terminar! Sem dúvida alguma.

Sem Dúvida Restaurante
Avenida Elias Garcia 1-B (Campo Pequeno)
Tel.: 213932254
Das 12h00 às 15h30 e das 19h00 às 23h00. Encerra ao domingo.
Preço médio: 28 euros

Classificação
O espaço: 4/5
O serviço: 3,5/5
A comida: 4/5

Refeição ideal
Ovos mexidos com farinheira (7 euros)
Bacalhau corado à antiga (13 euros)
Entrecôte maturado no churrasco (19,90 euros)
Pudim Abade de Priscos com gelado de limão (4,90 euros)



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