Lourinhã: um roteiro em torno da rainha das aguardentes portuguesas

Além dos dinossauros e das praias, o município do Oeste guarda um outro tesouro, também ele «esculpido» pelo tempo: a única aguardente portuguesa com região demarcada própria. Ponto de partida para um roteiro que se deve saborear em pequenos tragos.

Há coisas assim. Olhamos, olhamos e não lhe descortinamos valor, seja pelo descuido do trato ou seja pela falta de valor apelativo que nele reside. Todos já passamos por essa experiência de ver emergir séculos de história no simples pontapé numa pedra enterrada no solo, em viagem, no nosso bairro, por vezes à porta de casa – veja-se, já que falamos da Lourinhã, a descoberta da presença dos dinossauros, milhões de anos escondidos literalmente no solo.

É a história que acaba por legitimar muitos destes lugares, e a Adega Cooperativa da Lourinhã, ponto de partida para este passeio, é disso magnífico exemplo. O edifício, nas franjas da vila, encontra-se desterrado numa estrada secundária entre campos de cultivo e habitações de gosto duvidoso. Rodeia-o um enorme terreno de terra batida e o posto de segurança antigo que já foi entrada de um parque industrial seguramente mais movimentado. Visto de fora, poderia ser um edifício abandonado, não fossem alguns carros estacionados na sombra. E as letras garrafais a identificá-lo.

Embora já no tempo do Marquês de Pombal se soubesse das qualidades vínicas da região – ele próprio criou a Real Companhia Velha, e a verdade é que durante cerca de 200 anos a aguardente aqui produzida apenas servia para fortificar o vinho do porto.

Na década de 1980, porém, e como passou a ser obrigatório usar aguardentes da região de produção, os vinhos da Lourinhã perderam o seu maior cliente. Mas 1992 traz a emancipação. O reconhecimento da qualidade, aliada ao trabalho desenvolvido por cientistas e técnicos, levou à redação de um despacho público que criou a região demarcada da aguardente da Lourinhã, a única do género em Portugal e terceira em toda a Europa, a seguir às famosas Cognac e Armagnac – há até quem lhe chame Lourignac, em jeito de graça.

A Adega Cooperativa é o melhor local para se conhecer todos os pormenores desta história. É também o único, porventura, uma vez que a Quinta do Rol, o outro produtor ainda em atividade, não tem as visitas guiadas regulares que a Adega proporciona. Estamos, por isso, nas mãos de João Pedro Catela, o seu presidente, para sabermos sobre a localização das vinhas – que se espalham pelo município, mas também pelos concelhos de Peniche, Óbidos, Bombarral e Torres Vedras –, bem como sobre a casta Tália, a mais utilizada (mas são também elencadas a alicante-branco, alvadurão, boal, espinho, marquinhas e malvasia-rei), o processo de vinificação e o tempo necessário para envelhecer, um dos grande segredos desta aguardente, envelhecimento esse que acontece em cascos de carvalho e pode atingir até 20 anos ou mais, já que não existem tetos máximos.

Uma viagem bonita, especialmente ao percorrer as salas e corredores de envelhecimento, rodeados de quase 100 mil litros de aguardente, esse líquido precioso a que os romanos chamavam aqua vitae, «a água da vida».

Mas se o charme da Adega Cooperativa reside no negrume que o tempo trouxe às suas paredes – ajudado também pela evaporação caraterística da aguardente –, na Quinta do Rol, a escassos 5 quilómetros de distância, essa imagem da tradição é substituída por uma elegância de ordem contemporânea. Para isso, em muito contribui a diferença deste projeto, que para além da aguardente (e do vinho), oferece um centro hípico e um conjunto de quatro casas de turismo de habitação. Mais do que uma sobreposição, trata-se de uma diferença saudável para o visitante, de tão diferente a experiência de viagem.

A Quinta do Rol, além de produtor, é também a única destilaria certificada para o efeito – existiam 32 quando foi criada a Adega Cooperativa, em 1957. Muito embora a loja de vinhos e aguardentes esteja aberta ao público, a verdade é que as visitas e provas destinam-se aos hóspedes. Contrariedade por um lado, por outro um incentivo a assentar por este sossego, rodeado de 30 hectares de vinha, outros tantos de pomar e todas as histórias desta propriedade secular.

O capítulo mais recente da aguardente da Lourinhã é feito com nova imagem e mais visibilidade, e muita dessa pujança advém do contributo da Quinta do Rol. Carlos Melo Ribeiro, o proprietário, assume a aposta em aguardentes mais velhas, elevando o patamar de qualidade, o cuidado com o volume de vendas anuais, mas também em encontrar novos aliados para este projeto, como aconteceu com a Herdade de Esporão, uma parceria da qual resultou a Magistra, uma magistral aguardente de 15 anos, cujo valor de mercado excede os 100 euros por garrafa.

Mas se é do exterior que as valências da terra mais têm sido convocadas, aos poucos, é também do interior da vila que saem sinais de adoção desta sua nova identidade. Razões, por isso, para conhecer a pastelaria Lourinius, no centro da Lourinhã, onde os pastéis de aguardente, de fabrico artesanal, são já um dos mais pedidos para acompanhar o café matinal. A ideia nasceu há seis anos, pelo mestre pasteleiro Pedro Ferreira. Embora não revele o segredo, conta apenas que a inspiração partiu de uma receita conventual. A aventura conquistou as gentes locais e, melhor do que isso, tem sabido seduzir júris de prémios de doçaria.

Quem também soube vislumbrar uma oportunidade foi Sílvia Baptista, lourinhanense que desde 2013 tem aproveitado a aguardente para produzir os mais saborosos bombons em toda a vila e arredores. A ideia surgiu-lhe quando acabou o curso de cake design, e tendo ela aprendido a trabalhar o chocolate, tudo acabou por ser uma questão de tempo e vontade. O seu portfólio de bombons Doce Lourinhã, todos com aguardente DOC local, é vasto e inclui sabores como ; framboesa, morango e chocolate. Preferido? Decisão difícil. O melhor, segundo Sílvia, é mesmo levar todos, numa caixa com garrafinha de aguardente lá dentro. E voltar, claro!

 

COMER AGUARDENTE

Todos os anos, em novembro, a Lourinhã recebe a quinzena gastronómica dedicada à sua aguardente. Para além da celebração, é também um momento de inovar, com muitos restaurantes da região a apresentarem as suas propostas gastronómicas com a participação deste nobre ingrediente. Caso uma receita tenha particular sucesso, não é incomum o restaurante decidir mantê-la na carta durante todo o ano – como acontece com o Restaurante Jardim Cervejaria e a sua açorda com aguardente.

Jardim Cervejaria
Praça D. Lourenço Vicente, ed. Matias, r/c dto.
Tel.: 261419141
Web: www.jardimcervejaria.pt
Das 07h30 às 23h40; domingo, das 09h00 às 17h00. Não encerra.
Preço médio: 15 euros

 

 

CONTACTOS

Adega Cooperativa da Lourinhã
Avenida Moçambique
Tel.: 261422107/935714840
Web: doc-lourinha.pt
Das 09h00 às 12h30 e das 14h00 às 18h00. Encerra ao domingo.
Preço: 5 euros (por pessoa; visita guiada, 1 hora; sujeito a marcação)

Quinta do Rol
Ribeira de Palheiros
Tel.: 261437484
Web: quintadorol.com
Casa (capacidade 2 a 8 pessoas) a partir de 100 euros por pessoa/noite (mínimo 2 noites)

Pastelaria Lourinius Lourinhã
Avenida António José de Almeida, 7 A
Tel.: 261461545
Das 07h00 ás 19h30. Encerra ao domingo.

Doce Lourinhã / Garrafeira O Casco
Rua Dr. Francisco Sá Carneiro
Tel.: 910121280/918710871
Web: bombons.pt
Das 10h00 às 13h00 e das 14h30 às 19h00. Encerra domingo de tarde.



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