Um passeio pelas serras de Tavira

Nem praias, nem multidões. Neste Algarve esquecido, longe da costa onde se concentra a maioria, mandam a serra, as cigarras, os medronheiros, os saberes antigos e as tradições que se recusam a morrer. Uma viagem ao interior de Tavira, para viver sem pressas.

Ao longe, por detrás dos recortes da serra do Caldeirão, a neblina não é suficiente para esconder o mar. Com dedos bem treinados, Maria José aponta as ilhas da Culatra e da Fuzeta, por esta ocasião certamente mais preenchidas do que as mesas no alpendre da casa de pasto O Cantinho da Serra, de que é proprietária. O caminho que conduz até esta antiga destilaria de aguardente de medronho, ainda em funcionamento mas que hoje partilha o espaço com o restaurante, pode não ser o mais fácil. Mas todas as curvas feitas serra acima valem a pena quando se chega a Bemparece, localidade de Santa Catarina da Fonte do Bispo, onde fica o restaurante.

É uma vista privilegiada, a que se tem destas mesas. Melhor ainda quando acompanhada dos sabores serranos que Maria José serve na casa desde 1999. Foi por amor à cozinha que, aos 52 anos, decidiu mudar de vida e dedicar-se ao fogão. «Se morresse e voltasse, a restauração era a minha vida. Adoro. É a minha oficina», confessa, entre sorrisos. E talvez seja precisamente esse o ingrediente que faz do Cantinho da Serra casa habitual de tantos clientes.

No menu há açorda de galinha, ensopado de lebre, perdiz frita, borrego no forno e outros pratos que  recordam a distância do mar. Uma distância hoje curta mas que em 1976, quando Maria José e o marido trouxeram aquele que foi o primeiro carro para estas paragens, não era percorrida de ânimo leve. «Andámos a partir pedra no caminho para o carro passar. Aquele carro serviu para tudo. Bombeiros, médicos… Até caixões levou!», recorda.

Longe vão esses tempos, admita-se. Ainda assim, este é ainda um Algarve rural, tradicional, vivido ao ritmo que o dia permitir. E o modo de vida estende-se, também, ao Hotel Rural Quinta do Marco. Depois de algum tempo ao abandono, o espaço reabriu em fevereiro deste ano, às mãos de novos proprietários. O nome manteve-se, a paisagem irrepreensível, com vista aberta para a serra, também. Mas, de resto, muito mudou: foram meses de obras para recuperar os interiores e exteriores do hotel de 24 quartos. O jardim mediterrânico, com espécies autóctones como abrunheiros, alfarrobeiras, figueiras e amendoeiras, é apenas parte da propriedade que, no total, conta com 18 hectares e para a qual  existem muitos planos.

Para já, é dos pomares de citrinos e da horta biológica que vão chegando muitos dos produtos usados no restaurante panorâmico, com uma esplanada que faz justiça à localização de luxo. No menu, privilegia-se a cozinha de Tavira, naturalmente, preservando sabores e produtos e apostando numa apresentação contemporânea. Creme de coentros com amêijoas, queijo de cabra gratinado com tiborna de alfarroba, arroz de polvo à algarvia e, claro, a tradicional cataplana, são algumas das possibilidades a que se segue, inevitavelmente, a aguardente de medronho no final da refeição – o segredo para a longevidade, a acreditar em Hélder Martins, diretor do hotel, que garante que o avô viveu até aos 97 anos «a beber um copinho por dia».

E quem não quereria viver até lá? Com a piscina a convidar a um mergulho, serviço de massagens e um pôr-do-sol onde pouco se ouve para além do cantar das cigarras e dos risos das crianças ao encontrar os animais da quinta (como galinhas, gansos e tartarugas, entre outros), este parece um bom local onde passar o resto da vida. Ou, pelo menos, alguns dias.

Calma não tem de ser sinónimo de sedentarismo e o interior de Tavira tem argumentos suficientes para levar os visitantes a explorar os arredores e descobrir as tradições que subsistem por aqui. A produção de azeite é uma delas. No Lagar Santa Catarina, fundado em 1913, os métodos tradicionais foram já substituídos por máquinas que permitem tornar mais rápido e eficaz o processo, mas na época certa, entre outubro e dezembro, não deixa de ser curioso espreitar como tudo acontece.

Feito a partir de azeitonas das variedades Maçanilha Algarvia e Galega, entregues por pequenos agricultores locais, o azeite Santa Catarina distingue-se por ser «frutado, doce, nem muito picante, nem muito amargo», conforme explica Renato Rocha, sobrinho do fundador do lagar. Para melhor perceber a tradição, o ideal é passar pela Cooperativa Agrícola de Santa Catarina, onde um pequeno núcleo museológico exibe um antigo lagar industrial, acompanhado de uma breve explicação de todo o processo. Embora este sirva apenas de lição, a Cooperativa é também casa de um lagar moderno, esse sim em funcionamento. Daqui sai o azeite vendido na loja, onde também há licores, aguardentes e outros produtos regionais que podem compor o piquenique perfeito para partir à descoberta da serra.

O método de exploração dependerá do tempo, da época do ano e, claro, da vontade. Durante os meses de verão, quando o calor é maior, o carro é a opção mais confortável, ideal para seguir o roteiro Segredos do Algarve Rural. Desenhado pela Região de Turismo do Algarve, o percurso de 90 quilómetros pela serra do Caldeirão tem partida em São Brás de Alportel e chegada a Tavira, com muitos pontos de interesse pelo meio, onde se incluem monumentos, museus e património natural, entre outros.

Para quem preferir dar uso aos pés, as propostas da Tavira Walking Tours são outra forma de explorar a região, com passeios guiados focados por exemplo na descoberta da natureza e das tradições locais, como o azeite, a cortiça ou a telharia. De carro ou a pé, importa mesmo é ir. E ir-se deixando ficar, sem horas, entre uma fatia de bolo de alfarroba, a sombra das oliveiras e uma mão-cheia de histórias partilhadas sobre um copo ou outro de aguardente de medronho.

 

COMER

O Constantino
É um dos mais reconhecidos restaurantes da cozinha serrana, comandado por Constantino Brito,  membro da Confraria Gastronómica do Algarve. Aberto desde 1987, é famoso por participar em mostras e competições gastronómicas com pratos que vão sendo incluídos na ementa, como o galo estufado, o javali, a lebre, a perdiz e outras espécies de caça, típicas da cozinha serrana. A não perder, no final, a taça de alecrim, com creme de natas, amêndoa, framboesas e bolo de alecrim.

Montes e Lagares, Santa Catarina da Fonte do Bispo
Tel.: 281971217
Das 11h00 às 23h00. Encerra à segunda.
Preço médio: 18 euros

O Cantinho da Serra
Bemparece, Santa Catarina da Fonte do Bispo
Tel.: 963178264
Das 12h00 às 15h00 e das 18h00 às 21h00. Encerra à segunda.
Preço médio: 13 euros

 

FAZER

Lagar de Santa Catarina
Rua Dr. Almeida Carrapato, 19, Santa Catarina da Fonte do Bispo
Tel.: 966781094
Das 09h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30. Encerra ao fim de semana.

Núcleo Museológico da Cooperativa Agrícola de Santa Catarina
Estrada Nacional, Santa Catarina da Fonte do Bispo
Tel.: 281971121
Das 11h00 às 13h00 e das 16h00 às 19h00. Encerra ao fim de semana.
Entrada: 5 euros (com prova de produtos tradicionais)

Segredos do Algarve Rural
Download do percurso em visitalgarve.pt e em turismodoalgarve.pt

Tavira Walking Tours
Passeios sob marcação
Tel.: 913352830
Web: tavirawalkingtours.com
Desde 15 euros por pessoa

 

DORMIR

Hotel Rural Quinta do Marco
Sítio do Marco, Santa Catarina da Fonte do Bispo
Tel.: 281971500
Web: hotelquintadomarco.com
Quarto duplo a partir de 65 euros por noite (inclui pequeno-almoço)



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