Lapa do Lobo e Santar: um roteiro entre o Mondego e o Dão

Canteiros de ervas aromáticas, vinhos perfumados, o reconfortante cheiro de panelas ao lume. Entre o Mondego e o Dão vai todo um território que, ao primeiro impacto, nos conquista pelo olfato.

Mal o alcatrão dá vez à estrada de paralelos, percebe-se que a decisão de desviar da EN234 foi acertada. Por vezes, é necessário confiar que as placas indicam sítios que temos de descobrir. Lapa do Lobo parece estar apenas na beira da velha estrada para Carregal do Sal, tal como parece não ser mais do que umas dúzias de moradias dispersas iguais a tantas outras. Até que se pisa o chão de paralelos. E se segue as indicações para o centro.

Em tempos, o piso esteve asfaltado, mas essa foi uma das primeiras intervenções de fundo da Fundação Lapa do Lobo na aldeia. «Demos a mão de obra, a junta de freguesia deu o material», conta Maria do Carmo Batalha, vice-presidente do conselho de administração desta fundação que criou com o marido para «promover o desenvolvimento social e cultural» a nível local. Pequenas coisas e grandes pormenores que têm vindo a transformar a vida na aldeia. A começar pelo forno comunitário.

Porta do carro aberta, logo o cheiro de sardinhas a assar invade o ar. O primeiro de vários cheiros que fazem o impacto inicial. (Em dias invernosos, é bem provável que se apanhe o do pão acabado de cozer, e o das lareiras acesas.) Não deixa de ser curioso que numa povoação com mil habitantes perdurem hábitos de pequena comunidade. Das brasas que alguém deixar, um vizinho fará bom proveito. Comunitário, como o nome indica.

Diante do forno, uma casa de granito, portões verdes, fachada discreta, apresenta-se como Casas do Lupo. Franqueados os portões, deixa-se descobrir primeiro uma serventia empedrada, canteiros frondosos de aromáticas. Depois revela-se um amplo terreiro, com piscina, espreguiçadeiras, oliveiras, e de novo os cheiros, mal se abre a porta do carro. O aroma de orégãos dá as boas-vindas às Casas do Lupo.
Casas, no plural. Eram quatro, todas em ruína, quando a família Torres lhes pegou.

Era grande a ligação de Carlos Cunha Torres, marido de Maria do Carmo, à aldeia onde passou os verões da sua infância, com os avós. Primeiro recuperaram uma casa para fins de semana, que se foram alargando em temporadas maiores, ao mesmo tempo que a ligação se foi tornando mais forte. Daí até à decisão de abrir uma fundação em jeito de «devolver à sociedade», um gesto tão raro quanto louvável, foi um punhado de anos. Em 2007, criaram a Fundação Lapa do Lobo, que não só deu à aldeia um auditório, uma biblioteca e um espaço internet, como lançou um programa de apoios estudantis e criou uma agenda regular de exposições, concertos, workshops e outras atividades culturais de acesso gratuito. Meteu-se, depois, a vontade de fazer mais.

De quatro edifícios devolutos no centro da povoação, nasceu um poiso de charme, recuperado com olho de arquiteto (João Laplaine Guimarães e António Santos) e mão de paisagista (Pedro Batalha), mas sem pretensões de sofisticação urbana. Sem abrir mão da madeira e do granito, procuraram recriar o ambiente de uma casa de família, com tetos de tábua, cortinas de padrão, lareira em pedra e oito quartos diferentes no tamanho e na decoração. E pequenos-almoços gulosos, feitos com o que é da terra: compotas da dona Paula, que vive ao lado, mel trazido por uma das funcionárias, queijo de produtores locais. E frutas da quinta dos proprietários, quinta essa que os hóspedes podem visitar, uma mancha de 46 hectares onde os Torres procuram recuperar para a posteridade a paisagem de carvalhos que em tempos preenchia estas serras, e onde há trilhos sinalizados, um moinho de água, miradouros a pedir contemplação – e o ocasional gin ao pôr do sol, um dos mimos com que os hóspedes podem ser brindados.

A lista de atenções, apostadas na maximização da experiência do visitante, inclui também diversos roteiros prontos a levar, impressos em folhas A4, com recomendações de passeios, restaurantes e mapas detalhados das redondezas.
Percurso 4.1: Santar. Retoma-se a EN234, por Nelas, e leva-se pouco mais de 20 minutos a chegar. Há um propósito firme em mente, o Paço dos Cunhas, antigo palácio de D. Lopo da Cunha, fidalgo que tomou partido de Castela e se viu forçado a fugir após a restauração da independência.

Mas mesmo com propósitos firmes, rapidamente se nos desvia a atenção, não só para as vinhas que rodeiam a vila, mas principalmente para o invulgar número de casas brasonadas que lhe preenchem as ruas e praças. Tudo tem explicação. «Santar era conhecida como “o principado das Beiras”», esclarece Ana Paula Teixeira, responsável pelo enoturismo da Global Wines. «Viviam aqui as famílias de alguns dos nobres que estavam ao serviço do rei», continua. Santar é também o coração da região do Dão, sede de várias quintas, algumas com brasões e títulos à mistura. A mais conhecida será, porventura, a Casa de Santar, marca do portfólio da Global Wines, um peso-pesado que também produz vinhos no Alentejo (Monte da Cal), Douro (Palestra), Bairrada (Quinta do Encontro), verdes (Quinta de Lourosa) e no Brasil (Rio Sol), bem como na «vizinha» Quinta de Cabriz, em Carregal do Sal.  E que tem no Paço dos Cunhas a sua joia da coroa.

Além de fazer as vezes de monumento, o palácio seiscentista é também a porta para a experiência de enoturismo: tem uma loja, é ponto de partida para visitas às vinhas e adegas da Casa de Santar, e ponto de chegada para quem aqui entra com o sentido nos vinhos e na mesa. Na cozinha, supervisionada por Henrique Ferreira, chef executivo dos restaurantes do grupo, são trabalhados os produtos e receitas regionais, à luz da alta cozinha, de olho no casamento com os vinhos da casa. Na carta há línguas de bacalhau «tratadas» em tempura, um polvo enrolado em massa kadayif que já ganhou estatuto de clássico, sobremesas de antologia como um pudim de laranja feito como se de abade de Priscos se tratasse.

Ao almoço de segunda a sexta, há também menu de preço fixo (12,50 euros), com receitas mais tradicionais, porém esculpidas ao detalhe, a julgar pela exemplar massada de peixe, que dá casamento feliz com o branco encruzado Cabriz Reserva 2014. O aroma da casta, um dos emblemas da região, esse perdura, no nariz e no paladar.

Provado o Dão no copo, fica a vontade de conhecer de perto o rio que lhe empresta o nome e lhe forma o caráter. O parque de Lugar do Banho, junto às termas de Alcafache, não fica muito longe e permite acompanhar um pequeno troço do rio caminhando pela margem, com uma sombra que convida ao piquenique de improviso.

Quem não quiser perder de vista o tema do vinho tem à disposição nas termas um spa de vinoterapia com mais de uma dúzia de tratamentos e preços a começar nos 10 euros.

Dos cuidados do corpo, regressa-se aos cuidados da alma. É disso que se trata, quando o cheiro que sai da cozinha invade a sala, a deixar adivinhar o que vai na carta: arroz de cabidela, chanfana, comida de panela ao lume. O lugar chama-se Os Antónios, fica no centro de Nelas, e tem fama de longa data. Teve o seu momento menos bom, mas regressou em finais de 2014, pela mão de um antigo cliente com experiência na restauração e clareza de espírito para saber que não era caso de reinventar a roda.

A Jorge Duarte, dono das cervejarias Quinta do Galo, em Viseu, «bastou-lhe» recuperar o receituário tradicional beirão, o serviço profissional, o cuidado na escolha e recomendação de vinhos. Sobre a mesa, em tigelas de barro, desfilam copiosos arrozes de bacalhau e de carqueija, vitela com puré de alheira, um polvo de exemplar fritura e gulosa guarnição de migas beirãs. Entra-se rendido pelo cheiro, sai-se conquistado pelo estômago e de alma cheia. São estas as alegrias que nos dá o Dão.

 

FICAR

Casas do Lupo
Terreiro do Antunes, Lapa do Lobo
Tel.: 232673441
Web: casasdolupo.com
Quarto duplo a partir de 100 euros por noite (inclui pequeno-almoço)

COMER

Paço dos Cunhas de Santar
Largo do Paço, Santar
Tel.: 232960140
Das 12h30 às 15h00 e das 19h00 às 22h00. Encerra à segunda e ao jantar de domingo a quinta.
Preço médio: 25 euros

Os Antónios
Rua Vasco da Gama, 1, Nelas
Tel.: 232945266
Das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 00h00; domingo, até às 17h00. Encerra à segunda.
Preço médio: 25 euros

VISITAR

Fundação Lapa do Lobo
Rua de Santa Catarina, 30, Lapa do Lobo
Tel.: 232671084
Web:fundacaolapadolobo.pt

Paço dos Cunhas de Santar / Adega Casa de Santar
Largo do Paço, Santar
Preço: a partir de 8,50 por pessoa (visita + prova 3 vinhos)

Termas de Alcafache
Rua do Balneário, Alcafache (Viseu)
Tel.: 232479797
Web: termasdealcafache.pt
Tratamentos de vinoterapia a partir de 10 euros
COMPRAR

Loja da Fundação
Terreiro do Antunes, Lapa do Lobo
BEBER

Zagão Piano Wine Bar
Rua Alexandre Braga, 10, Carregal do Sal
Tel.: 232407043
Das 21h00 às 02h00.

Senta Aí Vinhos e Petiscos
Largo Alexandre Herculano, 64, Nelas
Tel.: 232945207

Senta Aí Vinhos e Petiscos
Largo Alexandre Herculano, 64, Nelas
Tel.: 232945207
Das 16h00 às 00h00
Não encerra



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