Costa de Caparica: dos bares cool às praias de pescadores

Não existe no país areal mais democrático que o da Costa de Caparica. Da Cova do Vapor à Fonte da Telha há praias para todos os gostos,

Há um pontão na Cova do Vapor de onde se tem a melhor vista sobre a baía Costa de Caparica. Caminha-se por ele com a ilusão de se chegar ao farol do Bugio, do lado esquerdo há o Tejo e à direita todo o Atlântico. Em dias claros vê-se a linha de costa até ao Cabo Espichel. No meio, está a cidade, torres e prédios de subúrbio. Mas antes e depois dela há dunas e falésias até perder de vista – que com a chegada dos dias estivais enchem-se de lisboetas. Procuram fôlego para os dias apressados da urbe, para o calor inclemente. E vêm todos. De todas as idades, de todos os estilos, de todos as classes. Nas praias da Costa de Caparica pode muito bem observar-se a democracia portuguesa.

De Norte para Sul a primeira praia é a Cova do Vapor, provavelmente a menos conhecida dos olhos forasteiros. Bairro de pescadores, que ao longo dos anos foram arrastando às costas as casas para dentro do mato, à medida que a água ia ganhando o duelo com o areal. Vivem ali duzentas almas num emaranhado de casinhas apertadas, é terra dura, turismo pouco. No pontão espalham-se pescadores à cana, andam ao safio, que quando a maré sobe aproxima-se das rochas para ir ao mexilhão. «Os peixes de viveiro têm dentes afiados, parecem picanhas, porque são alimentados a ração. Os selvagens têm dentes como os nossos, têm de usá-los para partir as cascas aos bivalves», explica Jorge Moura, vive perto, vem todos os dias.

A praia seguinte é larga, todo um outro mundo. São João acolhe as classes mais altas que desaguam na Costa de Caparica, muito por culpa de um parque de estacionamento ordenado, o único em toda a orla costeira. «Estes terrenos pertenciam a uma única família e quando foi aberto o Fun Park [um empreendimento de diversões junto à estrada de alcatrão] resolveram equipar esta zona com parqueamento cuidado, com sombras para toda a gente», diz João Arnaut, um dos sócios do Praia – Sea, Salt & Pepper, o restaurante mais luxuoso da região. Por dia, um carro paga 3,5 euros e hoje não faltam viaturas da Porsche, da Alfa Romeo, da BMW. «Também vem muita gente parar aqui mandada por hotéis de cinco estrelas da capital. Estrangeiros, mas também portugueses. Todos com poder de compra acima da média».

Na Cova do Vapor há um pontão de onde se tem a maior vista sobre a baía Costa da Caparica: do Tejo a Espichel, com a cidade pelo meio.

O Praia é a mais setentrional das instalações na areia e dá-se ao luxo de ser restaurante e apenas restaurante. «É um risco, sim, mas tem valido a pena.» Aberto desde junho de 2015, serve uns quantos pratos já badalados do chef Olivier e algumas criações que atualizam os petiscos à beira-mar. Um arroz de tinta de choco de antologia, mas também tártaros, saladas (há uma de arroz com wasabi, camarões e caviar que é inacreditável), peixe da lota e um hambúrguer de assinatura. Tem muita gente que vem de Lisboa, e para eles há um chuveiro para que possam ir dar um mergulho e voltar ao escritório sem sal na pela. «Temos um público top», diz Arnaut, «somos provavelmente o mais exclusivo da praia mais exclusiva.» Ao lado, há bares como o Lorosae, que acolhe um público mais desportivo, o Leblon, para universitários e party people, o Bicho d’Água, mais familiar, o Kontiki, o Sunset e o Pé Nu, que são transversais no segmento médio alto.

Pode continuar-se a descer para sul pelo paredão, passam-se os três restaurantes d’O Barbas e chega-se ao centro da cidade. Se em São João era um desfile de automóveis de topo, aqui estamos no centro do caos urbanístico – que o programa Pólis conseguiu apenas atenuar. Edifícios dos anos setenta e pouco parqueamento, sobras de bairros ilegais, um parque de campismo que parece um campo de refugiados. Eis as praias das famílias tradicionais, dos imigrantes, dos que não têm carro, dos funcionários das lojas que aproveitam para dar um salto à praia nas horas de pausa. E depois há esta circunstância única, na praia da Saúde e na Nova Praia. O povo deitado na areia ao lado das redes dos barcos.

É areal sem vigilância, por isso é só aqui que os pescadores da Costa de Caparica podem largar redes à arte xávega. Hoje é praticada com tratores, há 20 anos fazia-se à força de braços, com sorte puxavam os bois o pescado. Uma charca, barco pequeno que em dias de tempestade vira com a rebentação, vai para o mar e lança a rede em cerco, a não de mais de quilómetro e meio da praia. Regressa à areia para que se amarrem os cabos de alagem aos veículos, e agora são eles que puxam o peixe. «Vem pouco», grita Lídio Galinho, arrais do Vitorino Velho.

«O barco tem o nome do meu avô, que aqui a pesca continua a ser familiar.» Doze mil habitantes tem a freguesia, e 400 almas continuam a viver do mar. Este ano o Atlântico anda mais cheio de cavala que de sardinha, às vezes lá vem lula e polvo e um robalo na rede. Mas o que torna a Caparica única é esta proximidade da pesca com os banhistas, cada remate de rede congregar uma multidão em fato de banho, que aproveita para comprar um saquinho do peixe que salta para o jantar. «Dez por cento vendemos aqui na areia, o resto vai à lota.»

É daqui que parte o Transpraia, nove quilómetros de ferrovia pelo meio das dunas, até chegar à Fonte da Telha. O comboio trabalha durante a época balnear desde 1960, das nove da manhã às sete e meia da tarde e, além de ser um dos mais pitorescos ícones da Costa de Caparica, é também passagem para chegar às dunas menos exploradas. A sul da Costa há, primeiro, as praias da planície: Mata, Castelo, Cabana do Pescador. E depois entra-se num estradão de terra batida, onde se veem arbustos cobertos de pó. São as praias da Mata dos Medos, as menos tocadas pela civilização. Rei, Princesa, Morena, Sereia, Infante, Belavista e a Praia 19. Vamos por aqui.

O Bugio avista-se da parte norte da Caparica e nos dias limpos é possível distinguir a silhueta da Serra de Sintra.

Com mais de 20 anos nas dunas, o Borda d’Água, na Praia da Morena, foi pioneiro a definir o aspeto dos bares de praia de toda a zona. Cadeiras e pufs que se enterram na areia, som chill-out, uma decoração apetecível. Está aberto todo o ano e desde o primeiro dia que serve uma feijoada à brasileira que convoca a fauna de quarta à noite.

«Quando chegámos havia apenas umas barraquinhas de praia. Não tínhamos água, nem luz, púnhamos as bebidas em gelo até comprarmos um gerador», conta João Carreira, proprietário deste espaço, do vizinho Waikiki e de um restaurante na Aroeira. «Depois começámos a organizar sunsets, festas com DJ, a apostar no conforto. E os outros seguiram-nos, o que se tornou no melhor que podia acontecer a toda a gente.»

O Borda d’Água é bar de praia e restaurante, serve sumos naturais, peixe fresco e petiscos. Há umas gambas despenteadas com molho de manjericão de lamber os dedos, os mexilhões na caçarola parecem iguais a todos os outros, até ao momento em que se experimenta o molho. «As únicas coisas que funcionam neste negócio são a extrema qualidade ou a extrema autenticidade. Nós apostamos na primeira e é por isso que continuamos aqui», diz Carreira.

O problema, ali, são os acessos. Uma única saída para todas as praias da Mata dos Medos é garantia de engarrafamento em dias de enchente. «O grande problema da Costa da Caparica é o ordenamento do território. E isso acontece porque há demasiadas entidades competentes. O mesmo território é administrado por capitanias, Instituto de Conservação da Natureza, GNR, Polícia Marítima e Câmara Municipal. A praia é um paraíso, o que está à volta não.»

A praia é um paraíso, sim, e estas da Mata dos Medos têm a vantagem de parecer mais imaculadas. Quem está no mar e se vira para terra vê dunas, depois arbustos, depois uma enorme falésia vermelha, a Arriba Fóssil da Caparica. Esta zona recebe os lisboetas, jovens sobretudos. Lá para o fim do areal fica a praia 19, sem acesso de carro, tomada pela comunidade LGBT, pelos naturistas, é a praia alternativa. No Infante, um pouco antes, desagua sobretudo gente da cidade – têm algum poder de compra e é no Casablanca que passam os fins de tarde.

«As pessoas estão fartas de betão e estas praias são as mais selvagens», diz Carlos Melo, dono do espaço. É um restaurante com decoração serena e cuidada, paredes brancas e bambu, mais uma esplanada com bar e bancos confortáveis na areia. A sangria de espumante e frutos vermelhos é um dos sucessos da casa, as ameijoas à Bulhão pato são o petisco por excelência. Podia acabar o mundo e este não era mau lugar para nos extinguirmos. Musiquinha boa, tudo agradável, pessoas bonitas, tanto mar.

A pé o percurso é bem mais pequeno, mas para chegar à Fonte da Telha pelo alcatrão é preciso contornar toda a Mata, roçar outra vez o subúrbio, a Marisol, a Charneca e a Aroeira, para depois cumprir uma descida acentuada. E então, outra vez, o mar. Aqui sobrevivem o que durante décadas foi a imagem de marca das praias da Caparica. Bancas onde se vendem artigos de praia, baldes e ancinhos para os miúdos brincarem na areia, pranchas de bodyboard com desenhos do Cars ou da Hello Kitty, fatos de banho, protetores solares e bronzeadores.

Na venda de Maria Rosa, levantada há cinco décadas, vendem-se mais as toalhas de Bob Marley do que com o mapa de Portugal, mas também as há com mulheres despidas, Cristiano Ronaldo, desenhos do pôr-do-sol. O que é que mudou nestes anos todos? «Nada», sentencia a mulher, «só vendemos menos por causa das grandes superfícies».

Quem está no mar e se vira para terra vê dunas, depois arbustos, depois uma enorme falésia vermelha, a arriba fóssil da Caparica.

Não será bem assim. Há casas que desapareceram e bares que se levantaram. Mas sim, a Fonte da Telha continua a ser uma aldeia de pescadores e os barcos e casebres espalhados pelo areal mostram mesmo isso. A casa mais antiga de portas abertas é o restaurante Camões, conta um século em que foi taberna e depois restaurante. «Primeiro ficava no centro do povoado, era uma venda de petróleo e carvão, também servia de tasca. Cada pescador chegava e comprava um pedaço de chouriço, havia um pote grande com sopa de feijão que se partilhava entre todos e cada um acrescentava-lhe o que podia», conta Artur Tavares, o atual proprietário. Hoje é um edifício inteiro no início da aldeia.

Logo à entrada há um azulejo que diz Cantinho de Rui Fernandes, um empresário que almoça todos os dias na mesma mesa há mais de 20 anos. «É o melhor lugar do mundo para comer peixe fresco e caldeirada», diz-nos sem reservas, que hoje está a dar cabo de uma cabeça de garoupa com os amigos.

«Já existia Camões antes de haver estrada até aqui». E tem razão, que o alcatrão só chegou há quatro décadas, antes cumpria-se caminho a pé ou de burro. «Vinham famílias da Margem Sul semanas inteiras, fazer campismo selvagem», conta Anabela Figueiredo, cozinheira da casa. A mulher cresceu ali, no meio dos pescadores, foi em alto mar que aprendeu a fazer a caldeirada à pescador. Quatro espécies de peixe, uma delícia. «Isto era tão mas tão isolado que a PIDE não vinha aqui. Tivemos vários antifascistas escondidos anos aqui, a viver em cabanas no meio das dunas.»

Junto à praia há um desfile de autocarros, colónias de férias de crianças em idade pré-escolar, reformados em grupos com camisolas e bonés iguais. A primeira infância e a derradeira partilham os banhos. E, no fundo de tudo, um bar chamado Bambu, que serve ceviches de salmão bem mais saborosas do que se provam em Lisboa.

Vamos terminar a viagem aqui, com sabor de lima e um copo de vinho branco. Vítor Cunha, dono do espaço, viajou por todas as Américas para vir assentar arraiais no fundo da praia, no esconderijo onde termina a linha de costa. O sol há de por-se não tarda, as multidões fugiram, sobram apenas alguns estrangeiros a aproveitar a última dádiva de luz. E então podemos muito bem repetir o que toda a gente consegue dizer na Caparica: «Está-se mesmo bem aqui.» Há praia para cada um. Há praia para toda a gente.

 


Bares de praia:

Praia – Sea, Salt  & Pepper
É mais beach restaurant que beach club e tem carta com assinatura do chef Olivier. No menu há peixe do dia, saladas, hamburguers, tudo em versão gourmet. O local mais luxuoso de toda a linha da Costa.

Praia de São João da Caparica
Tel: 961362382
Preço médio: 50 euros

 

Borda d’Água
É um dos mais espaços concorridos durante o verão. Decoração confortável, comida de grande qualidade, toda uma ode ao lazer. Às quartas feiras á noite serve uma mítica feijoada à brasileira.

Praia da Morena
Tel: 212975213
Preço médio: 30 euros

 

Casablanca Beach Lounge
Dificilmente haverá em toda a linha de praia que vai da Cova do Vapor à Fonte da Telha um local com melhor decoração. Dá vontade de parar, beber uma sangria de espumante com frutos vermelhos e xcomer umas ameijoas. Serve almoços e jantares, também.

Praia do Infante
Tel: 212961649
Preço médio: 35 euros

 

O Camões
É o mais antigo restaurante, e também o mais tradicional. Só peixe fresco e uma caldeirada de antologia, feita com quatro peixes da costa: cação, tamboril, raia e safio.

Avenida 1º de Maio, 96, Fonte da Telha
Tel: 212963865
Preço médio 20 euros

 

Bambu
Chegar aqui cria a sensação de se chegar a um esconderijo. Fica mesmo no fim da praia, serve peixe fresquíssimo, gins tónicos e comida mais simples, como saladas e tostas. Mas o que sabe mesmo, mesmo bem é o ceviche. De salmão, atum ou robalo.

Avenida Vasco da Gama, Fonte da Telha
Tel: 916800055
Preço médio: 25 euros



CONTEÚDO PATROCINADO