Alentejo: Segredos da Boa Cortiça

REDONDO. Até ao início de agosto, a plataforma Compadres, dedicada ao turismo cultural no Alentejo, organiza um ateliê de descortiçamento no qual os participantes podem aprender esta atividade ancestral com a mão na massa.

Mal o Sol nasce, já os ho­mens estão a postos para iniciar a labuta. Não há tempo a per­der: a apanha tem de acontecer entre maio e agosto, e este ano São Pedro trocou as voltas, atrasando a temporada com o mau tempo.

O dia de trabalho leva, por norma, sete ho­ras. A atividade, devido ao grau de especialização, é das mais bem pagas na agricultura. Seja como for, é a natureza quem manda. «Não se pode tirar a cortiça à força, tem de se esperar pelo calor e pelas condições ideais, porque de outra forma o sobreiro acaba por se contrair e só saem bocados, com pouco valor comer­cial», explica Eduardo Bon de Sousa, diretor do Hotel Convento de São Paulo, em cuja herdade estão inseridos os 400 hectares de sobreiros onde tem lugar este ateliê de descortiçamento.

Belizário Cabeças simplifica: «A árvore é que deixa apanhar a cortiça.» Aos 66 anos, Belizário é um dos elementos mais experientes desta equipa composta por dez machados – ou seja, cinco duplas de ho­mens, porque a apanha é sempre feita a dois. O veterano trabalha no descortiçamento há 15 anos, mantendo também vários outros tra­balhos sazonais, como a apanha da azeitona e a vindima. Mas é a cortiça que lhe dá mais ânimo. «Faço-o mais por gosto, apesar de o dinheiro também dar jeito», atira com humor, enquanto descansa por momentos à sombra do sobreiro que se prepara para descascar.

É no descasque que está o segredo desta atividade ancestral. Na arte de retirar a casca sem ferir a árvore, de modo a que esta conti­nue a produzir, porque, está visto, os sobreiros são árvores caprichosas. «Os cortes têm de ser verticais, para soltar a cortiça em grandes blo­cos, que depois são empurrados com o cabo do machado», explica Eduardo. Nesta herdade são produzidas cerca de 2500 arrobas por ano, qualquer coisa como 37 toneladas.

A meio da manhã, é chegada a hora da «bu­cha», uma breve refeição retemperadora de forças para o resto da jornada, que ainda vai a meio. Tal como os trabalhadores, os participantes do ateliê também são convidados a pe­tiscar – pão alentejano, azeitonas, queijo, en­chidos e um copito de vinho.

O intervalo traz mais algumas explicações sobre as particularidades destas árvores endémicas da região mediterrânica ocidental. Ora vejamos: só trinta anos após a plantação se pode extrair a primeira cortiça, conhecida como «virgem», de baixo valor comercial. Depois, é necessá­rio esperar mais nove anos para tirar a cortiça de secundeira, ainda bastante irregular, utili­zada nos mais diversos fins, da construção ao design. Só volvidos mais nove anos, à terceira tiragem, se atinge a homogeneidade perfeita. É a cortiça amadia, a única com qualidade para a produção de rolhas – e, portanto, a mais valio­sa.

Apartir daqui, o ciclo da apanha é sempre de nove anos, podendo cada sobreiro ser, em média, descortiçado dezassete vezes ao lon­go dos seus 200 anos de vida. «É por isso que se vê números pintados nos troncos», salien­ta Eduardo. «Servem para saber em que ano foi descascado.» Olhando à volta, são já vários os troncos pintados com um 6. Diz um ditado popular, «Quem se preocupa com os seus ne­tos, planta um sobreiro».

Acabada a jorna, o grupo é brindado com um almoço regional no jardim do Convento de São Paulo. Gaspacho à alentejana e borrego assado com batatinhas da horta. O programa, de dia e meio, inclui ainda o jantar na véspera e a dormida no Hotel Convento de São Paulo.

O convento em si, construído no final do século XII, por monges eremitas em busca da paz e do isolamento que uma vida de oração exige, foi remodelado e aumentado ao lon­go dos tempos e é hoje um verdadeiro museu vivo. Destaca-se o precioso acervo de azuleja­ria, cerca de 54 mil azulejos, que fazem desta a maior coleção privada do género em Portugal.

A tarde fica reservada para conhecer a segunda parte do ciclo da cortiça, a trans­formação. Para isso é preciso ir até à vila de Azaruja, concelho de Évora, um dos maiores centros corticeiros do Alentejo, onde diver­sas fábricas a transformam para as mais di­versas funções. Após retirada, a cortiça é sub­metida a um estágio de quatro meses, para es­tabilizar. É, depois, cozida durante uma hora a mais de 100 graus, de modo a expandir as moléculas e aumentar o volume e maleabi­lidade das placas.

Após aparada e avaliada, um mês depois é submetida a uma segunda cozedura, estando então pronta a ser trans­formada e comercializada. «A seleção é fei­ta por calibre, espessura e qualidade», expli­ca Joaquim Caeiro, o responsável pela fábri­ca Cortiçarte, onde também são produzidos diversos objetos de cortiça, como candeei­ros, malas, bancos, guarda-chuvas. As pla­cas mais grossas e suaves, as de maior quali­dade, essas são transformadas em rolhas pa­ra vinho. Um material tão nobre só poderia ter um nobre fim.

A experiência

O ateliê de descortiçamento é uma das várias iniciativas organizadas pela plataforma Compadres, que organiza diversas rotas de turismo cultural no Alentejo. Esta experiência decorre entre junho e agosto, mediante reserva, para um mínimo de 8 participantes.  O programa, de dia e meio, inclui refeições e dormida no Hotel Convento de São Paulo.

Preço: a partir de 150 euros por pessoa.
Web: rotascompadres.pt



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